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Um desconforto palpável

A entrevista de Regina e Gabriela Duarte que chamou atenção do público provocou a internet com sua honestidade

Por Julia Leonetti


Foto: Reprodução, Youtube
Foto: Reprodução, Youtube

Com tantos influencers no lugar de jornalistas, parece que o público esqueceu que jornalismo é mais do que publicidade barata. Na entrevista com Regina e Gabriela Duarte para a Folha de São Paulo, o repórter Matheus Rocha precisou relembrar qual era seu papel como jornalista:“É parte do meu trabalho fazer perguntas”. Além do choque com perguntas desconfortáveis, o público também se hipnotiza com a dinâmica real entre mãe e filha. E o medo do cancelamento se transforma em viralização. 

A conversa é recheada de olhares de reprovação e de caras e bocas. Mãe e filha estão estrelando uma peça juntas em comemoração aos 50 anos de carreira de Regina Duarte. A partir disso, o repórter faz a entrevista mostrando a dinâmica familiar, o que é de certa forma uma promoção do espetáculo, mas também explora as polêmicas que permearam a vida das atrizes. As nuances do diálogo são o que o torna interessante, e expõem como uma boa entrevista funciona: o jornalista quer revelar algo que as entrevistadas não querem. É um jogo de perguntas perigosas, resta saber quem vai ceder primeiro. 

Atualmente, é a falta de complexidade e o excesso de literalidade na internet que faz com que conteúdos como esse não sejam bem recebidos. Porém, me parece que as pessoas estavam sedentas por algo real. Apesar de Gabriela demonstrar um enorme medo do cancelamento, a entrevista caiu nas graças do povo e viralizou. Entre os comentários, houve quem se identificou com a relação de mãe e filha, quem gostou de como o jornalista guiou a entrevista e quem achou desnecessário falar das polêmicas políticas de Regina. De qualquer modo, como o profissional conduziu a conversa é o tópico principal, o que relembra a importância de um jornalismo profissional. 

“Mãe aguenta, você é adulta.” Gabriela Duarte revela uma relação nua de mãe e filha e faz um retrato de diversos conflitos familiares brasileiros com a polarização política. Entre constrangimentos e educados “cala a boca”, a filha quer proteger a mãe de polêmicas políticas e ao mesmo tempo não ser associada aos seus ideais. Porém, fica nítido que ela não pensa muito diferente. Pois, como Regina fala na conversa: “Não se posicionar é uma forma de posicionamento”.

A dinâmica atrapalhada das duas, com Regina não lembrando a idade da filha e Gabriela mexendo no cabelo da mãe para ela parar de falar, é o que faz o público se identificar. E a cereja do bolo para a obra audiovisual ficar ainda melhor é a edição da matéria com trilhas sonoras que compõem a tensão e closes que não são nada por acaso. 

Esse desconforto que o público não deixa de notar é o que faz o jornalismo ser tão importante. O jornalista precisa ser desconfortável. Ele precisa fazer as perguntas que incomodam e que nem todo mundo tem coragem de fazer. Me pareceu que essa entrevista fez o público relembrar o que é jornalismo. 

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