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Em defesa da múmia

  • Foto do escritor: Pitacos
    Pitacos
  • 1 de nov. de 2023
  • 3 min de leitura

Nelson Rodrigues propõe um Brasil possível e alerta para o anti-Brasil


Por Antônio Ribeiro


Nelson Rodrigues, fumando. Foto sem data/Reprodução: Veja

Nelson Rodrigues é um visionário irredutível. Fale o que quiser, pense o que for, ele viu o óbvio ululante.


Se ainda restam concessões obrigatórias, vomite tudo o que te incomoda e a figura, porém, permanecerá brilhante. Sua relação com a ditadura, suas provocações célebres ao Dom Hélder, seu reacionarismo… enfim, todo o lado controverso de uma flor de obsessão reforça sua convicção de que Opinião, assim, com “o” maiúsculo, é coisa pessoal e indomesticável. Além de qualquer moral, o ser humano é bicho complicadíssimo, descontínuo, incongruente. Viu isso e mergulhou na verdade inconfessa do homem.


Essa percepção está no cronista, no teatrólogo, no jornalista. Em suma, fez dos seus textos o que são. Ache isso ou ache aquilo, há o fato inconteste representado com toda sua força de realidade na obra do anjo pornográfico.


Nelson Rodrigues não pode ser apagado. Mesmo assim, foi diminuído, cochichado! Ora, sua obra não merece sussurros. Por isso, achei interessante comentar algo do seu trabalho num ímpeto, quem sabe, de expurgar essa sandice doida de que não se deve ler “reaças” e múmias. Nelson Rodrigues propõe um Brasil possível e alerta para o anti-Brasil: Precisamos resgatá-lo.


Nesse caso, Oitenta milhões de vendidos, que pode ser encontrada em O óbvio ululante, em edição da Companhia das Letras, é um fragmento exemplar do projeto e — por que não? — da profecia. Esta crônica/ensaio foi publicada em sua coluna no O Globo em 28 de maio de 1968. Ela postula o seguinte: opinião é “uma posição solitária, um gesto de orgulho e desafio”. No entanto, há pessoas que insistem em viver todo um ciclo humano sem esboçar razão autêntica.


Por exemplo, hoje, apesar da sensação de atomização das redes sociais, o que mais existe são reproduções desavergonhadas de visões alheias, concordam? Basta abrir o Twitter (ou, agora, “X”) … por pior que seja, fica ainda mais patético se pensar que não declaram essa apropriação abjeta.


Perfil reproduz acriticamente notícia falsa sobre filósofa


No caso descrito pelo Nelson, um professor da PUC — sempre da PUC — ministra um curso anti-imperialismo. O sujeito era um progressista: odiava os Estados Unidos, endeusava “o velho”, etc. Até aí, nada de novo. Porém, numa alegação inconsequente, sugere a corrupção do Café Filho, ex-presidente do Brasil. Bom, não era qualquer corrupção, tinha aquele ar de passividade orientada, de sugestão yankee incorporada por brasileiros.


E foi isso que alarmou o Nelson. Não foi o esquerdismo, não foi nem a falta de ufanismo: foi a ausência obscena de autonomia cognitiva do Brasil.


Vocês sabem, nos anos 60 a Teoria da Dependência era coisa muito popular. E aqui está nosso querido autor esculhambando a teoria que hoje é tão criticada nas academias brasileiras. O mais interessante é que os argumentos são os mesmos! É a defesa irrestrita da autonomia e agência do brasileiro, apesar do seu complexo de vira-lata.


Eis a hipótese: querem o brasil de quatro cuspindo na própria imagem. Por favor, há todo um país a ser feito. Guerrilheiros do Cosme Velho, não joguem contra! O primeiro passo para uma transformação sensível de nossa condição é a responsabilização, a culpa - que seja! Mas, com ela, a autoestima, a liberdade.


Que maldição, não? Duzentos anos de independência e permanecemos dominados! Claro que é um engodo. Na verdade, é preciso admitir os problemas do Brasil se quisermos superá-los. É necessário enxergar o óbvio para profetizarmos uma concepção autêntica de quem somos e o que queremos ser.


Jornal Ultima Hora (RJ). Ano 1952\Edição 00197. Acervo Hemeroteca Digital



































4 comentários


Robert Gandell
Robert Gandell
07 de abr.

Reading Nayeli’s thoughts on voting really made me pause and reflect on how easily many of us take this right for granted. Using Schon's reflective model, I found myself thinking both in the moment and after reading about how her experiences shape her perspective on civic participation. It’s powerful to see how personal stories can highlight the deeper meaning behind voting—not just as a routine act, but as a voice tied to identity, struggle, and hope. Her message also challenges readers like me to consider whether we are truly engaging with our communities or just going through the motions. I appreciated how honest and grounded her reflection felt, especially in a time when political engagement can feel overwhelming or disconnected.…

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Angus Cox
Angus Cox
31 de mar.

I really enjoyed this post because it makes me think about how much our own stories and identities shape the way we understand health, care, and learning. As a nursing student, I often look for connections between theory and real life, and I feel like that is exactly what a good discussion should do. Reading something like this also reminds me how important it is to stay open-minded and reflective, especially when working with people from different backgrounds and experiences. It is the kind of perspective that makes me want to keep learning and improving, which is why I often look for Help with Nursing Assignment support when I need to balance academic work with deeper reflection. Thanks for sharing…

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Steven Burgees
Steven Burgees
25 de mar.

The article about defending the mummy topic presents a unique historical view. I found it interesting because it challenges common ideas. I remember studying history and feeling confused, so I used best machine learning assignment help uk to understand complex points. It helped me learn better. It shows that looking at different perspectives improves understanding. It's the unrestricted defense of the autonomy and agency of Brazilians, despite their inferiority complex.

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Julia John
Julia John
11 de fev.

Your reflection on Em defesa da mumia brings Nelson Rodrigues’s fierce voice and contradictions to life how raw, unfiltered opinion insists on confronting reality with all its complexity. His belief in autonomy and facing the obvious makes you think about how we shape ideas and challenge comfortable narratives. In intense school seasons, help wih last minute assignment once came up as a quiet reminder of structure and timing.


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