Bartleby, o Escrituário e Gay Talese, o Jornalista
- Pitacos

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“BARTLEBY E EU” de Gay Talese - Crítica
Por Greco Campos

Para os apreciadores de um bom livro ou de uma boa reportagem, ou pelo menos jornalistas interessados na história do meio em que trabalham, o nome Gay Talese não é estranho. Jornalista de carreira desde os anos 50, repórter pelo New York Times, pela New Yorker, pela Esquire e autor de mais de uma dúzia de livros publicados no exterior, Talese é filho de imigrantes italianos. Seu pai, Joseph Talese, era alfaiate e sua mãe, Catherine, trabalhava em uma loja de vestidos. Durante a infância e a adolescência do escritor, ele viveu em Ocean City, uma cidade turística no estado americano de Maryland. Quando era jovem, em uma época de muito preconceito com italianos (exacerbado pela aliança nazifascista da Segunda Guerra Mundial entre os italianos de Mussolini e os alemães de Hitler), Gay foi xingado e destratado por sua descendência. Mas por que é importante saber a origem de Talese? Qual a relevância do seu sangue ítalo-americano para entender o livro à nossa frente? O jornalista não nos fala diretamente, mas não é tão difícil entender o porquê.
Bartleby e eu é o último livro escrito por Gay, publicado no Brasil em setembro de 2025. Dividindo-o em três partes (“Uma história de Wall Street”, “À sombra de Sinatra” e “O Brownstone do Dr. Bartha”), o escritor delimita cada segmento da obra a um propósito específico. No primeiro, apresenta diferentes histórias de “ninguéns” que produziu na sua época no Times e na Esquire nos anos 50 e 60. No segundo, mostra cronologicamente os bastidores por trás de sua famosíssima reportagem para Esquire: “Frank Sinatra está resfriado”. E no terceiro, introduz a figura de Nicholas Bartha, médico romeno que se suicidou explodindo o próprio apartamento em Nova York para não ter que perdê-lo após uma disputa judicial com a ex-esposa.
Quando se atravessa os três grandes capítulos do livro, tentando conscientemente entender o quebra-cabeças que Talese coloca à frente do leitor, uma tapeçaria singular se forma. Quase como se seguisse intuitivamente a estrutura de tese, antítese e síntese de Hegel em suas três partes (os contos antológicos do começo, a jornada atrás de Sinatra do meio e o declínio do doutor Bartha no final) e através das dezenas, senão centenas, de personagens que são apresentados, o livro conta uma única história principal: os diferentes lados do “sonho americano”.
A breve descrição da obra na capa da edição da Companhia das Letras (“Pelas ruas de Nova York, um mestre de reportagem narra a ascensão e queda do sonho americano”) já dá um norte para onde o texto do jornalista, taciturnamente e sem nunca apontar de fato para tal, converge em sua tese. À primeira vista, os múltiplos personagens, um ancorado no outro, parecem honestamente aleatórios. São muitos, desde os anos 50 até o fim da década de 2010. Talese, que nunca explicita seu objetivo com isso, destrincha suas vidas. A única coisa em comum entre todos? A sombra (ou a luz) dos Estados Unidos da América. Cidadãos americanos lesados pelo seu governo durante o Macartismo, imigrantes apaixonados e entregues aos ideais de renovação que o país representa e descendentes de imigrantes que sonham e batalham para se encaixarem em uma nação que não os vê como seus.
A divisão em três partes, apesar de dar estrutura para a tese de Talese sobre o sonho americano, pode acabar sendo uma complicação óbvia. Um leitor pode estar interessadíssimo na caça por Sinatra, mas não ter muito ânimo para ler sobre a tragédia do doutor Bartha. Similarmente, alguém fissurado pelas histórias da primeira parte talvez não se interesse pelo universo de Sinatra. A prosa do jornalista é charmosa o suficiente para garantir a continuidade da leitura, mas a dissonância entre cada segmento é inegável e talvez enfadonha para alguns.
Como ele mesmo expõe, Gay Talese sempre teve como interesse escrever sobre os desconhecidos, uma missão que as primeiras 100 páginas do livro fazem com primor. Dentro da estrutura, essa seria a “tese”. Em pequenos capítulos, somos apresentados a várias histórias que ele escreveu no início de sua vida como redator nos anos 50. O prisma pelo qual Talese reflete esses personagens é o conto “Bartleby, o Escriturário” de Herman Melville, que narra, por meio de um advogado não-nomeado, o ofício e as ações que levaram o escriturário Bartleby a ser demitido de seu emprego e a se suicidar na prisão. O homem é quieto, trabalha em silêncio e não socializa. Sua vida privada é um mistério e seu passado vive de meias-notícias. Além do paralelo claro com o doutor Bartha, ele também é equiparável a todos os relatos do livro por um motivo básico: o fascínio que Talese tem por eles e a sua vontade de descobrir mais sobre suas vidas.
O segundo segmento do livro, sobre Sinatra, é o mais cativante. Junto do jornalista, saímos de Nova York e vamos até Los Angeles, caçar junto dele o maior cantor de seu tempo, o Ol’ Blue Eyes (curiosamente, o homem que imortalizou a canção “New York, New York”).
De cara, o livro perde sua estrutura antológica e se move para uma narrativa mais convencional. Dentro da estrutura, essa seria a “antítese”. A busca pela entrevista com Sinatra, que nunca chega, é mais cômica e mais instigante do que as outras duas partes, o que traz questões relacionadas ao ethos do próprio livro. Se a primeira parte busca explorar os vários “ninguéns” de Nova York e a terceira parte descreve a vida de um “ninguém” específico, não é engraçado e contraintuitivo que o melhor segmento do livro seja o que foque na celebridade mundialmente conhecida? Sim, mas talvez esse seja o ponto.
Já na metade final da segunda unidade, Gay Talese nos introduz o dono do cassino Sands and Casino em Las Vegas, Leo Entratter. À primeira vista ele parece ser só mais um entre os muitos personagens apresentados pelo jornalista, mas é nas suas frases que o cânone do livro se estabelece mais claramente: “Eu queria viver como Frank Sinatra, mas não consigo [...] Me sinto preso. Mas, na companhia de Frank, tudo muda de repente. Ele traz emoção. Vive cada momento. Se recusa a envelhecer [...] É contagiante. Ele vive nossa vida por nós”.
Sinatra é o “alguém” que Talese diz explicitamente que não gosta de escrever sobre. Sua presença é tão forte e extracorpórea que a frase de Entratter aliada à prosa de Gay parece quase uma denúncia ou uma afirmação melancólica. O cantor é o sol o qual giram ao seu redor planetas menores, atraídos pelo seu magnetismo, e Gay Talese faz questão de apresentar a “cosmologia” que cerca o cantor. Ele fala sobre o dublê de Sinatra, sobre seus seguranças, seu empresário, sua filha, sobre a mulher que carrega suas perucas, sobre o diretor que comanda o seu especial de TV e muitos outros. Brilhantemente, o escritor conduz e enriquece a sua busca pelo cantor com uma miríade de pessoas, cada uma interessante, relevante e que contribui de algum modo para a maior vontade do jornalista (transformar os “ninguéns” em alguéns) e para sua tese (os diferentes lados da moeda do sonho americano).
A segunda unidade termina do modo como esse texto começa: a introdução da vida do próprio Talese, agora refletida na vida de Sinatra. Dois jovens americanos, descendentes de italianos, presos na linha tênue entre suas terras ancestrais, que carregam a partir de seus sobrenomes, e a pátria em que nasceram e cresceram, onde tentam desenvolver suas vidas. E é na carreira do último que Gay Talese se inspirou quando era mais jovem para tentar criar algo para si mesmo nos Estados Unidos. É um paralelo interessante, escondido até o quase final dessa parte do livro, recontextualizando tudo que veio antes de forma brilhante.
O último terço da obra conta a história de Nicholas Bartha, o romeno que, depois de fugir do comunismo no seu país natal, vai para os EUA, onde tem êxito em seu sonho de se formar em medicina. Ele constrói uma vida em Nova York com sua esposa (a holandesa Cordula), suas duas filhas e seus pais. O lugar escolhido dentro da cidade? Um brownstone comprado pela família com muito esforço depois de anos no país. Bartha se apaixona pelo apartamento, que vive sob seus reparos, tanto que é onde põe o consultório que abre com um amigo médico. É lá, naquela casa onde seus pais viveram junto a ele, que ele criou suas meninas e materializou seu sonho americano. Quando Cordula se divorcia e, por erros da justiça, ele perde sua casa, Nicholas sente como se tivesse perdido tudo o que era importante para si. Assim, ele se explode junto da sua morada, evento altamente documentado pela imprensa nova-iorquina.
A tragédia de Bartha é o ponto final da tese de Talese, a “síntese”. Um homem que veio de fora dos EUA, devoto à ideia de que, depois de anos de sofrimento na Romênia nas mãos dos nazistas e depois dos comunistas, poderia criar uma vida no paraíso capitalista no oeste. É ele o caso quintessencial, o representante final da queda do sonho americano? Ou ele é apenas mais um, entre sucessos e derrotas de um sistema em constante reorganização? Será que na data de publicação do livro, em setembro de 2025, Nicholas conseguiria viver e amar tanto os Estados Unidos em tempo de Donald Trump, que iniciou uma nova fase de caça às bruxas aos imigrantes? Todas essas perguntas ficam no ar ao fim da leitura de Bartleby e eu, e com certeza continuarão existindo a cada pessoa que pegar o livro para ler.





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