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Música para Camaleões: a última confissão em vida de Truman Capote

Um livro-reportagem em contos sobre a vida de um gênio


Por Luan Cunha


Após uma epifania, o egocêntrico Truman Capote escreveu o que seria seu último livro publicado em vida. Em Música para Camaleões, o escritor se põe no centro do palco, dividindo o protagonismo com pessoas que de fato passaram por sua vida. É um romance confessional de "não-ficção": a realidade aparece coberta sob um véu de fantasia, que preserva o que passou por ali à sua maneira — a forma como Capote adapta os fatos em sua antologia.



O romance é originalmente dividido em três partes, mas o prefácio pode ser interpretado como algo à parte. Nele, Capote narra a forma como sua vida se uniu à literatura e confessa, numa das frases mais fortes do texto, que “Deus, quando nos dá um talento, também nos entrega um chicote, a ser usado especialmente na autoflagelação. Por meio dessa autoflagelação, ele reconhece o que seria o auge de sua técnica em Música para Camaleões.

O primeiro pedaço, Música para camaleões, conta com seis contos não-ficcionais. As histórias, de tom cinzento, algumas vezes tratam com certa admiração comportamentos excêntricos, o que dá um je ne sais quoi a essa parte. O sexto conto, O fulgor, narra o estranhamento e obsessão de Truman Capote com a autodescoberta: essa euforia o leva a cometer algumas ações questionáveis para sanar dúvidas em relação à sua sexualidade. 

Na segunda parte em Caixões entalhados à mão, o volume toma um caminho diferente. No thriller policial, Capote escreve sobre uma série de assassinatos numa cidade pacata em que o grande mistério não é sobre quem seria o assassino, mas em que momento ele vai agir a sangue frio — por coincidência você deve conhecer uma história parecida. Por meio de bons diálogos e descrições que revelam os detalhes da investigação perfeitamente, o autor dá o tom certo à tensão de ter um assassino à espreita, que cercou a vida de seus amigos por anos.

Essa riqueza de detalhes que compõe a escrita de Truman Capote continua na última seção, Retratos por conversação. A capa do livro reflete bem o melhor conto dessa parte, Uma criança linda. Capote escreve um “tributo” à sua querida amiga Marilyn Monroe por uma conversa dos dois no dia de um evento inusitado: o funeral da atriz Constance Collier. O rosto de Hollywood narrado de forma tão humana, afetuosa e confessional é algo raro. O escritor diz que na verdade a atriz em sua intimidade foi uma criança linda.

Ler sobre outra pessoa seria entediante, mas entrar no universo de um gênio que viveu uma vida tão única foi divertido. 






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