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“Ricardo e Vânia” conta o apagamento de vidas pela homofobia

O livro-reportagem lançado pelo jornalista Chico Felitti é um mergulho investigativo sobre o homem misterioso de São Paulo chamado “Fofão da Augusta”. É a descoberta de identidades, antigos amores e vivências lgbtqia+

Por Valentina David


Ricardo e Vânia. Divulgação/Editora Todavia
Ricardo e Vânia. Divulgação/Editora Todavia

O livro Ricardo e Vânia de Chico Felitti é a continuação do perfil jornalístico Fofão da Augusta: quem me chama assim não me conhece escrito por ele em 2017. A obra literária lançada em 2019 veio depois da repercussão sobre a reportagem publicada no site Buzzfeed, que conta a história de um homem misterioso da rua Augusta que recebe esse apelido depreciativo por apresentar um rosto inchado como o do personagem infantil. Dessa vez, a continuação é aprofundada com mais detalhes e relatos sobre os personagens homônimos. As primeiras 50 páginas relembram as informações do texto publicado dois anos antes, contextualizando e construindo uma imersão do leitor na descoberta de quem é a figura excêntrica de São Paulo que dá origem ao exemplar.

O escritor e jornalista é conhecido por ter um faro para histórias marcantes e seguir uma linha investigativa. Atualmente, com 39 anos, ele também é podcaster e mora na capital de São Paulo, explorando pautas voltadas para grupos marginalizados ou pessoas invisibilizadas pela sociedade. Um dos seus maiores destaques é a investigação sobre A Mulher da Casa Abandonada, reportagem em podcast lançada em junho de 2022 que obteve mais de 4 milhões de acessos.

Nos primeiros capítulos, Chico revela que sempre teve o desejo de conhecer o homem que lhe despertava curiosidade devido ao rosto único, já tendo se esbarrado com ele alguns anos antes. No  domingo de Páscoa, em abril de 2017, o autor recebe uma informação que esse rapaz estava internado no Hospital das Clínicas em São Paulo, sem identificação e inconsciente. A partir desse momento, passa a  acompanhar intensamente a vida dessa figura misteriosa. Durante as visitas, o paciente afirma que seu nome é Ricardo após surtos de agressividade. Com essa afirmação, a investigação do jornalista estreita-se para um ambiente mais íntimo. 

O escritor descobre a origem dele e de sua família através de uma notícia antiga para o Jornal de Araraquara. Nela, o entrevistado é seu irmão e a cidade que dá nome ao periódico é onde “Fofão” nasceu. Chico visita o município que fica a pouco mais de 270 km da capital paulista e confirma a identidade de seu personagem. Agora, a figura que gera curiosidade e também temor nas ruas cosmopolitas paulistas tem nome e sobrenome: Ricardo Corrêa da Silva. Após a publicação do perfil, a identificação e empatia geradas pelo público foram um motor para a continuação. A figura de Ricardo gerou diversos sentimentos, principalmente a curiosidade de conhecer mais sobre essa pessoa que é descrita como “a cara de São Paulo”. 

Após a recapitulação da reportagem, o livro retorna ao passado e volta ao presente na tentativa de ilustrar os altos e baixos do personagem e o que o levou até esse momento. Dessa vez, a narrativa vem com um novo recurso, a presença de um antigo namorado de Ricardo, que viveu o auge dos anos 80 com ele. Vagner Munhoz é seu nome e a partir dele conhecemos outras vivências da personalidade única da rua Augusta. Juntos, eles frequentavam boates e dançavam até os pés não aguentarem, se montavam e se maquiavam na “cidade que não dorme”. O apartamento de paredes pretas que se tornou a casa deles no centro de SP era um espaço para descobertas e expressão total de suas personalidades.

Com o passar do tempo, a vida do casal atravessou muitas dificuldades. Intervenções estéticas, desequilíbrio mental e homofobia impactaram negativamente suas vidas. Aos poucos, Ricardo foi demitido do seu emprego renomado como cabeleireiro, por conta do seu temperamento. Descobriu as plásticas através de aplicações com silicone no rosto e começou a aplicar no Vagner, até tornar-se um exagero e deformar o visual de ambos, assustando as pessoas. A forte discriminação da época, intensificada pela crise da Aids, afastou mais ainda seus círculos sociais e exterminou redes de apoio. Após anos juntos, as circunstâncias difíceis impactaram em um desgaste  entre os dois. 

Em 1989, o casal se separa. Ricardo começa a se afundar e Vagner foge para Europa, onde morará por mais de 30 anos em Paris e se transformará em Vânia, a mulher que sempre foi e quis ser, que estava em chamas em seu interior. Após a morte de Ricardo, o livro passa a focar na vida de Vânia, o que ela fez depois de deixá-lo no fim dos anos oitenta até a data de publicação da obra. Abordando sua descoberta como mulher trans e a sua vida com a prostituição.

Esse salto no tempo revela através de “flashbacks” o brilho que a vida de Ricardo já teve um dia. É um contraste doloroso conhecer o seu antes próspero e depois visualizar seu esquecimento e sua vida solitária. Quando sua morte vem de forma abrupta, Chico Felitti explora essa fatalidade com sensibilidade, demonstrando seu envolvimento maior do que “apenas um jornalista”. Ricardo estava internado e Vânia estava em Paris, vendo isso Chico cria uma ponte para que os dois pudessem conversar depois de mais de 20 anos.  Apesar do fim conturbado, ainda existia conexão e a gratidão mútua entre os dois.

A descrição do último contato entre os personagens é emocionante, por meio de uma ligação de vídeo no hospital duas semanas antes de Ricardo falecer. Na chamada, a mulher  pergunta se o paciente ainda se lembra dela e ele diz: “É claro que eu me lembro de você. Você é o Vagner. Você é o Amor da minha vida”. Ambos se emocionam e a chamada finaliza.

A leitura do livro despertou uma conexão agridoce. Ver um homem instigante e de presença ser esquecido em sua velhice me tocou em um ponto muito forte, principalmente ao imaginar as lutas vividas por Ricardo. É angustiante pensar a diferença que a vida dele poderia ter sido, se fosse totalmente aceito pelo ambiente ao seu redor. A vida de Ricardo é como a de muitos outros, apagadas como cidadãos e reduzidos ao espetáculo. Já algumas são como a de Vânia, dão “sorte” de conquistar alguma estabilidade, mas que ainda assim lutam pelo prazer pleno de sua existência. O livro-reportagem escancara a força que a comunidade lgbtqia + tem mediante os preconceitos que enfrenta, demonstrando suas imensidões e como lutar por liberdade os mantém vivos.

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