“A Conceição tem o tempo dela”
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Autora de Voz insubmissa reflete sobre limites, pesquisa e construção biográfica
Por João Pedro Mendes

Quando Yasmin Santos viu Conceição Evaristo pela primeira vez, em 2019, ficou encantada com os olhos d’água. Levou algum tempo até que seus caminhos se cruzassem novamente. Yasmin é jornalista, editora e autora. Graduou-se Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ, e é mestranda em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Aos 28 anos, já colaborou com as revistas Piauí, Quatro Cinco Um e Serrote e com os jornais Folha de S.Paulo e Nexo, além de ter trabalhado nas editoras Intrínseca e Companhia das Letras. Yasmin acompanhou Conceição por dois anos à distância. As duas ficaram cara a cara por conta do livro Conceição Evaristo: Voz insubmissa, publicado em 2024 pela Editora Rosa dos Tempos, um ensaio biográfico escrito por Yasmin Santos. Perfilando uma das mais influentes autoras contemporâneas, a obra conta desde a infância de Conceição, no Pindura Saia, até o reconhecimento na sociedade brasileira. Em novembro de 2025, o coração de Madureira foi tomado por jovens, adultos, idosos e “ideias para reencantar o mundo”, tema da Feira Literária das Periferias, que homenageou Conceição Evaristo. No dia 27, Yasmin foi uma das palestrantes do evento, no seminário realizado em colaboração com a UFRJ. Após o fim do encontro, ela conversou sobre o processo do livro.
De onde vem a escolha de relacionar a vida da Conceição a questões coletivas?
O livro tem uma escolha narrativa de apostar na coletividade, mas também é uma escolha política. Pelo medo de tomarem a história da Conceição como meritocrática dizendo “ela teve todas as dificuldades, mas conseguiu isso". Como se fosse mágica e não uma construção de décadas. Sempre tem um diálogo ali. Eu me coloco, talvez até inspirada pela Conceição, porque ela tem uma voz que te abraça e, às vezes, está falando coisas horríveis. Então, acho que, em muitos momentos do livro, eu estou nesse encanto e vou falar uma coisa absolutamente horrível sobre o que está acontecendo. É muito difícil. Claro, vão ter pontas soltas e lacunas, porque tudo tem lacunas, mas eu não quero que isso seja usado de forma errada. Que a primeira vez em que a trajetória da Conceição é contada em um livro seja usada para reverter o que ela defende. Então, tinha essa preocupação que fui tentando trazer para a estrutura.
“Ela tem uma voz que te abraça, e às vezes ela está falando coisas horríveis”
Por que é importante reconhecer o valor das próprias experiências na literatura?
Não acho que, para escrever, tenha que ser de um jeito. Se você tem vontade de escrever, se aquilo te tocou e abriu a sua mente, tipo, a minha memória também vale a pena. Não é para se importar com “ai, meu estudo é muito pouco”, como era o caso de Carolina Maria de Jesus. Isso não impediu que ela escrevesse alguns dos livros mais importantes da literatura brasileira. É muito poderoso isso, porque aqueles erros gramaticais, ao olharem para aquela obra, alguns teóricos vêm que, em alguns momentos, eram propositais. Não era porque ela não sabia escrever. Foi muito poderoso para uma geração que não conseguia se ver nos livros e também perdeu o medo. Está tudo bem se você não souber escrever essa palavra e escrever do jeito que acha que ela se escreve.
Como foi entrevistar a Conceição?
A Conceição tem o tempo dela. Então, quando eu finalmente fui tentar marcar uma entrevista, lembro que, muitas vezes, ela falava: "Vamos sim, tal dia” e nunca dava. Porque ela faz muitas coisas, parece estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Então foi meio difícil achar esse momento porque ela falava para mim: “Quando eu tiver tempo de conversar, esse tempo vai ser seu. Eu não vou dividir com outra coisa”. Mas era difícil encontrar esse tempo. Quantas vezes ela disse: “Eu vou para Maricá, vou estar em casa com a minha filha”, e eu disse que eu podia ir para lá. “Vai nada, meu tempo é da Ainá.” Então, tinha algumas coisas que depois eu fui entendendo, que, apesar de a gente se perguntar como ela consegue fazer tudo isso com a idade dela, ela tem muito separado o que é descanso físico e mental. E, para mim, que sou uma pessoa cansada, acho pouco. Eu quero descansar até demais. Mas ela tem esses momentos que dedica a fazer as coisas que organizam o pensamento, que deixam ela feliz. Tempo para ela dançar, cantar, tomar uma cerveja. Tudo isso é realmente respeitado como um compromisso para ela. Isso é uma lição gigante de autocuidado.
Quanto tempo durou a escrita do livro?
Foram quase três anos, dois anos e pouco. Escrevendo, foi mais ou menos um ano. Antes de encontrar a Conceição para ter entrevistas, eu comecei a reler os livros que já tinha lido e a ir atrás da bibliografia teórica para entender quem é a Conceição, quem a Conceição lê e quais são as referências dela.
O que foi difícil de entender durante a escrita do livro?
Eu tive que me acalmar porque nunca daria conta de tudo. Eu tive que fazer as pazes com esse formato perfeito do perfil biográfico porque, mesmo que conseguisse pegar todos os livros da biblioteca da Conceição e ler tudo, existe um limite. Coisas que não estão nos livros, no cinema, na arte. Estão na vida. É o tempo que dá. Tem coisas que a Conceição vai falar que a minha mãe, que tem 60 anos, vai entender uma coisa, e eu, que tenho 27, vou entender outra. Isso é uma coisa do tempo, de uma maturidade que é tempo de vida. Foi meio difícil, meio caótico. Foi um processo meio natural. Eu ia lendo e, às vezes, lia sem ter noção de que estava lendo para o livro, e eu pensava: estou lendo isso aqui, talvez tenha alguma coisa, mas nem deve ter nada a ver. E aí eu lembrava e falava: "Nossa, tem tudo a ver", e aí grifava. Meus livros são grifados, anotados. Então, quando eu retorno para escrever o livro, retorno para os meus livros, às vezes para os que li na faculdade, e consigo com facilidade porque estão lá marcados com post-it e eu lembro.
“Existe um limite. Coisas que não estão nos livros, no cinema, na arte. Estão na vida”
Você conheceu onde a Conceição viveu em Belo Horizonte?
Eu conheço por vídeos. A favela do Pindura Saia não existe mais, foi demolida. O mercado que existe onde era favela, conheci por vídeos. Tem vídeo da Conceição indo à escola onde estudou e ela não consegue entrar. Muitos anos depois, ela vai e participa de uma aula com alunos, e aí ela consegue acessar. Tem essa descrição, mas é muito uma pesquisa, a não ser os lugares que realmente fui. É uma pesquisa assim streetview, ver foto, descrição. Eu não sou muito boa em escrever sobre o aspecto arquitetônico das coisas, então é uma busca atrás do que é aquele lugar, aquela sensação.
Como você usou as referências bibliográficas para tratar dessa história tão complexa?
O embasamento teórico ajuda não a teorizar a vida da Conceição, mas a mostrar as escolhas que a mãe dela, a dona Joana, tem, por exemplo. Porque ela não quer deixar as filhas sozinhas, ela abre mão de um emprego que seria uma segurança maior para a família e prefere ficar em casa com as crianças. Tentar trazer teorias sobre por que isso está dentro daquele imaginário dela complexifica essa escolha, essa agência dessa personagem que é muito importante para entender a Conceição.
Como foi a escolha do que ler para construir essas relações?
Tem muita coisa que eu ia lendo durante a faculdade, desde que comecei a tentar me entender como pessoa negra. Qual seria o meu papel como uma jornalista negra? O que eu iria fazer? É nesse momento que começaram a ser publicados vários livros, tanto de autores que estavam produzindo agora, como Audre Lorde e Angela Davis, quanto de autores que já tinham morrido, como Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez, em reedições. Eu fui lendo isso porque tinha uma vontade muito grande de entender quem eu era, o que aquele ambiente universitário estava fazendo comigo. Isso era uma coisa meio nerdola minha desde a universidade. E continuou o interesse, eu lia muito de sociologia e, depois, naturalmente, sem saber direito o que estava fazendo, eu ia também para a literatura.
Como você vê a importância dos registros escritos para a preservação da memória da população negra?
Literatura feita por escravizados, a gente não tem, por exemplo, no Brasil. Houve escravizados que basicamente escreviam sua memória, e isso faz você ver a humanidade das pessoas escravizadas de outra forma. Se a gente tem aqui, ainda está perdido e talvez um dia a gente ache. A gente sabe que tinha escravizados que sabiam escrever, sabiam ler. Muito tempo de analfabetismo. Não tinha isso do escrito, mas deixar coisas escritas era a melhor forma de deixar uma memória para a geração que não vai ter contato com você. Sem isso, você sabe o nome, sobrenome e no que essa pessoa trabalhou, é mão de obra.
A Conceição e a mãe dela, dona Joana, foram muito impactadas ao lerem Carolina Maria de Jesus. Como a arte pode ampliar os horizontes e as possibilidades para pessoas negras?
A gente está acostumado a ver os personagens do Leblon. Em novela tem o cotidiano daqueles personagens. Com essas novas condições, essa percepção vai mudando. Minha mãe está sendo muito beneficiada assistindo à novela das seis. Ela falou que eu tinha que assistir a Garota do momento, que tem referências aos Orixás, coisas ali no roteiro muito bonitas. Como isso, de fato, faz com que as pessoas se vejam de outra forma. Não se vejam como inferiores, se vejam como pessoas que podem sonhar, fazer o que quiserem fazer. Não necessariamente sonhar em ir para a faculdade, às vezes, esse não é o sonho da pessoa. Isso é uma coisa que a arte dá para a gente, e é bom a gente ter exemplos com histórias parecidas com as nossas.




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