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O Segredo de Joe Gould: um boêmio fascinante

Uma viagem a Nova York do século XX e ao mistério de um excêntrico americano

Por Larissa Calvet


Capa de O Segredo de Joe Gould (Imagem: Companhia das Letras)
Capa de O Segredo de Joe Gould (Imagem: Companhia das Letras)

A obra O segredo de Joe Gould, escrita por Joseph Mitchell, um dos maiores jornalistas americanos do século XX, é um marco do jornalismo literário. Lançada em 1965, ela é composta por dois perfis publicados pela revista The New Yorker: “O professor Gaivota, de 1942, e uma reportagem de 1964, que nomeia o livro. A condução do enredo nos proporciona imaginar as cenas descritas com muitos detalhes, em um desenrolar que nos deixa curiosos para descobrir o que está por vir e nos apresenta um protagonista interessantíssimo. 


Joe Gould era um homem boêmio que adorava ouvir relatos e indagar seus entrevistados para compor a chamada “História Oral do nosso Tempo". Ele alegava que a obra era o maior manuscrito que já existiu e tinha muito orgulho de seu grande feito. Um personagem daqueles que nos prendem e encantam ao mesmo tempo: perspicaz, mas um homem comum, como todos os protagonistas do célebre Joseph Mitchell.


A Nova York do século XX é o cenário literário, com destaque para a boemia e a vida noturna. Joe Gould nasceu em Massachusetts, mas era apaixonado pela liberdade proporcionada pela “Cidade que Nunca Dorme". Excêntrico, porém amigável e com uma lábia surpreendente, essas são características que remetem a Gould. O protagonista possuía características peculiares: era um homem de 1,60 m, barbudo, calvo e vestia um terno sujo, bem maior do que a sua medida.


Fotografia de Joe Gould (Divulgação: The Critical Flame)
Fotografia de Joe Gould (Divulgação: The Critical Flame)

Além disso, sempre andava com um manuscrito junto dele, que dizia ser parte da História Oral. Gould afirmava que, após a sua morte, seu livro faria muito sucesso e seria respeitado por todos. Ele recolhia dinheiro de seus amigos e dizia ser para o “Fundo Joe Gould”. Essas contribuições o fizeram parar de trabalhar para viver em razão da obra e se dedicar a ela até a reta final de sua vida.


O segredo de Joe Gould é um livro-reportagem que contém muitos detalhes. A história é contada de maneira leve, e o leitor se envolve com a forma de condução do enredo, sendo convidado a mergulhar na trajetória do protagonista pelas ruas de Nova York. Gould é um daqueles personagens que nos instigam a saber mais sobre ele e a mergulhar em sua história. Observamos isso em um trecho do segundo capítulo. Leia-o a seguir:


“Lembro-me de lhe ter dito que Gould era um exemplo perfeito do tipo de excêntrico comum em Nova York, o notívago solitário, e que era esse traço dele que mais me interessava — esse traço e a História Oral —, não sua boemia; eu havia entrevistado vários boêmios do Greenwich Village e os achara surpreendentemente enfadonhos. O editor me disse para ir em frente e experimentar.”


A construção do protagonista se dá de maneira fluida e influencia o leitor a se apaixonar por Gould. Uma das principais características de Joseph Mitchell era transformar pessoas simples em grandes histórias. A escolha das palavras é certeira, adequando-se ao que o autor deseja transmitir ao público. 

 

Em alguns momentos, o excesso de descrição torna algumas cenas mais arrastadas, cansando mais do que proporcionando imaginação sobre elas. O autor também retorna muitas vezes ao mesmo tema, causando, no leitor, a impressão de redundância. Portanto, a conclusão da história soa um pouco incompleta, já que a obra foi conduzida com muitos detalhes e, no final, se desprende um pouco deles.


O segredo de Joe Gould é leve e de fácil compreensão. O livro propõe imersão no enredo e nos faz sentir afeição pelo protagonista, características muito valiosas no universo literário.

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