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MASSACRE EM VIGÁRIO GERAL: LEMBRAR PARA NÃO ESQUECER

[+ ENTREVISTA COM O AUTOR CHICO OTÁVIO]


Por Luan Logatto


O Rio de Janeiro sempre foi dicotômico. Por trás da beleza das paisagens naturais e dos bairros arborizados da zona sul carioca, existem políticas de gentrificação e negligência estatal com as classes mais baixas desde 1902, com o bota-abaixo. Quem mora no Rio para além dos cartões-postais aprende desde cedo, e muitas vezes da pior maneira, que a cidade que moram é diferente da cidade que tantos sonham visitar. Com tantos episódios de violência ao longo dos anos, o “normal” é que eles acabem sendo esquecidos depois da comoção inicial passar, como se todo mal noticiado no jornal e na TV estivesse já enraizadamente banalizado pelo carioca. Por essa e outras razões que serão citadas ao longo do texto, projetos como “Massacre em Vigário Geral: os 30 anos da chacina que escancarou a corrupção policial do Rio” são tão importantes.



O livro-reportagem assinado pelo jornalista e escritor Chico Otávio e as jornalistas Elenilce Bottari e Elba Boechat (essas duas que fizeram parte da cobertura do caso na época) conta a história do episódio ocorrido em 1993, em que policiais militares do Rio de Janeiro, encapuzados e sem farda, assassinaram 21 pessoas (dentre elas, 8 da mesma família) como resposta a morte de outros 4 policiais, mortos no dia anterior por traficantes em Vigário de Geral, zona norte da cidade. Nenhum dos assassinados tinha envolvimento com crime.

Chico Otávio propõe aqui, com a ajuda de Bottari e Boechat, reconstruir as cenas da chacina e de todo processo jurídico do caso no tribunal, além de buscar os diferentes pontos de vistas e destinos das personagens que 30 anos depois ainda estavam vivas. Ainda que narrando em ordem cronológica (apesar de, pela quantidade de núcleos apresentados, o livro não seguir exatamente uma linearidade temporal durante toda história), o autor decide por uma introdução com o ponto de vista de uma das sobreviventes (uma garota de 9 anos) durante a chacina para já denotar o tom sério e cru que percorrerá por toda narrativa, compartilhando também a própria incapacidade de se manter isento diante da situação que se nota por meio de poucos adjetivos que aparecem ao decorrer do livro – o que serve de reforço para lembrar da impossibilidade de nós jornalistas, sendo seres humanos, nos mantermos apáticos em prol da objetividade e imparcialidade imposta pela grande mídia.

  A primeira parte (de seis) do livro, chamada Massacre, é tão desesperadora quanto seu título soa. Com o espaço e tempo que um livro-reportagem oferece, Chico contextualiza o bairro da zona norte a partir da sua geografia e de seus moradores enquanto reconstrói o dia que antecede a chacina. Mais do que construir uma ambientação e localizar os leitores, os primeiros parágrafos servem de base para todo o contraste que será criado a partir do começo da chacina. É importante notar aqui uma escolha que vai se repetir ao longo do texto que reforça tanto o valor da individualidade daquelas pessoas quanto a própria existência delas por meio de seus registros (e no caso dos policiais, uma forma de “dar nome aos bois”): o uso do nome completo para TODAS personagens citadas no livro. São nesses detalhes que mostram que a reportagem não quer só contar a história de maneira mais detalhada, mas também eternizar suas vítimas. 

Depois de toda catarse da primeira parte, a maioria do decorrer do livro reconta todo o processo jurídico do caso, num emaranhado de nomes dos quais poucos são verdadeiramente gravados pelo leitor e de burocracias hierárquicas judiciais que dependem ou da máxima vontade do leitor ou de seu mínimo conhecimento jurídico para um aproveitamento completo. Tamanha complexidade e volume da situação que em vários momentos Chico cede sua narração para os documentos oficiais falarem por si, com toda a formalidade do “juridiquês”. Entre mais de 150 páginas sobre as investigações e as condenações que resultaram delas, o pouco que se destaca são os momentos quase novelísticos do tribunal (que o autor não se permite narrar de forma romantizada, para reforçar a seriedade da situação); a confusão generalizada consequente da aglomeração de homens narcisistas sofrendo as consequências de seus atos; a pressa do Ministério Público em resolver um processo tão grande para manter a pressão popular e a atenção da imprensa e o caso não acabar sendo apenas mais um (certas coisas não mudam); e, evidentemente, a apuração gigante feita pelo autor por meio de tantos documentos públicos – mostrando como que, quando bem feita, consegue enriquecer uma matéria de detalhes e diferentes contextos.   

Para quem possui maiores interesses no micro do que no macro, como esse que vos fala, o livro volta a ficar realmente interessante quando redireciona seu foco nas consequências sociais e pessoais que a chacina causou, principalmente quando reserva capítulos para mini perfis de sobreviventes, ex-policiais, promotores e políticos envolvidos no caso. É mais interessante ainda quando quem toma lugar de fala são personagens antes citados indiretamente em páginas anteriores, pondo em prova a nossa própria confiança e impressão sobre elas.

Entre mais de 150 páginas sobre as investigações e as condenações que resultaram delas, o pouco que se destaca são os momentos quase novelísticos do tribunal (que o autor não se permite narrar de forma romantizada, para reforçar a seriedade da situação); a confusão generalizada consequente da aglomeração de homens narcisistas sofrendo as consequências de seus atos; a pressa do Ministério Público em resolver um processo tão grande para manter a pressão popular e a atenção da imprensa e o caso não acabar sendo apenas mais um (certas coisas não mudam); e, evidentemente, a apuração gigante feita pelo autor por meio de tantos documentos públicos – mostrando como que, quando bem feita, consegue enriquecer uma matéria de detalhes e diferentes contextos.   

Para quem possui maiores interesses no micro do que no macro, como esse que vos fala, o livro volta a ficar realmente interessante quando redireciona seu foco nas consequências sociais e pessoais que a chacina causou, principalmente quando reserva capítulos para mini perfis de sobreviventes, ex-policiais, promotores e políticos envolvidos no caso. É mais interessante ainda quando quem toma lugar de fala são personagens antes citados indiretamente em páginas anteriores, pondo em prova a nossa própria confiança e impressão sobre elas.

Paralelo a toda tragédia social e jurídica, “Massacre em Vigário Geral: os 30 anos da chacina que escancarou a corrupção policial do Rio” procura, por meio do grupo envolvido na chacina, entender o que levou ao boom de grupos milicianos num estado que já na época sofria do boom do tráfico de drogas e a guerra territorial que, 33 anos depois, só piorou. O medo do Ministério Público pelo apagamento do caso tinha todas as justificativas plausíveis e se provou real antes mesmo da virada pro século XX. Se o próprio massacre de Vigário ofuscou a chacina da Candelária – no qual 8 crianças moradores de rua foram assassinadas por policiais militares sem farda no centro da cidade – ocorrida 37 dias antes, não demoraria muito para este perder seu poder de choque e ter seu ar de absurdo enfraquecido. É por isso que livros-reportagens como esse são tão importantes para a preservação da memória e manter acesa a mínima esperança que aprenderemos como elas. Em sua introdução, Chico Otávio traça paralelos dos 30 anos que se passaram e cita os escândalos da Policia Militar do Rio de Janeiro ocorridas na década de 2020. A lista já está desatualizada. 


ENTREVISTA

[Luan Logatto] Você começou a carreira como escritor em 2007 com o livro “Inventário Amazônia” e desde então sempre mostrou uma afeição por esquemas de corrupção muito grande, como em ‘Deus tenha piedade de nós’, ‘Mataram Marielle’ e o ‘Porões da Contravenção’. O que te motivou a falar sobre o caso de Vigário?


[Chico Otávio] Vigário foi um convite. Foi um convite feito por um desembargador, o Muñioz Piñeiro, que foi, na época, promotor do caso. E assim, ele apostou muito nessa história, sabe? Eu acho que é o caso da carreira dele, certo? E quando chegou uma data redonda, acho que 30 anos, resolveram, ele e mais algumas das sobreviventes, que era legal fazer um livro e tal, e ele chamou a Elenilce Bottari e a Elba [Boechat], que eram repórteres que cobriram o caso na época – ou seja, dominavam profundamente o assunto – e eu que não cobri, mas eu dei o meu jeito, né? Repórter é assim, você tem que ir ali e ser um especialista daquele tema no momento que você tá cuidando dele, depois você vai pra outra coisa.


[LL]: Citando já a Elba e a Elenice, você chegou a perceber algum aumento, um certo receio por parte delas em revisitar o episódio?


[CO]: Não, muito pelo contrário, eu só vi motivação. Elas não têm medo de nada, não. Acho que o cara mais assim recuado era eu mesmo, né? E até hoje, é difícil o acesso à Vigário. Eu fiquei ali ciscando pela periferia, mas eu nunca atravessei a ponte que dá pra dentro da comunidade. Ainda é uma comunidade violenta, dominada pelo crime organizado. E elas chegaram a ir lá, foram com o Piñeiro – foram, de certa forma, com alguma proteção. Mas não vi nenhum receio, não. São repórteres veteranas e altamente corajosas, mais do que eu!


[LL] Os seus livros você sempre coassinou com outros jornalistas. Como é essa divisão de papel entre você e o jornalista que você trabalha junto?


[CO] Primeiro assim, a tecnologia permite muito. Você abre aqui um documento na nuvem e mais de uma pessoa pode escrever ao mesmo tempo. E assim, primeiro, essa visão do outro te ajuda muito, né? Porque às vezes você trabalha numa história que você não está conseguindo perceber as coisas que o seu parceiro ou parceira enxergam. Então, essa troca permanente é muito positiva para o livro. Agora, claro, às vezes a gente esbarra com diferentes estilos, formas de visão. Tem gente que diz que consegue enxergar o que eu escrevi daquilo que o Aloy [Jupiara] escreveu, por exemplo, no ‘Porões [da Contravenção’], ou o que eu escrevi daquilo que a Vera [Araújo] escreveu no ‘Mataram Marielle’. Mas, assim, você perceber essa diferença tem que ter muita sensibilidade. Porque, como eu te disse, esse compartilhamento, quando você tem uma boa relação com o teu parceiro ou parceira, permite que a gente, de alguma maneira, padronize o texto. E assim, dentro do projeto (Massacre em Vigário Geral), eu fiquei com uma parte muito espinhosa, que foi ouvir as vítimas, tanto as pessoas que sobreviveram, quanto também os parentes daquelas que pereceram durante aquele ataque. Foi meio que o papel que eu fiz, né?  E também participei das entrevistas com o Neto, que era um dos executores que se propôs a falar. Acho que esse foi o ponto alto do livro. Eu sempre busco aquilo que é, digamos, um furo de reportagem, oferecer ao leitor algo que ele não viu em nenhum lugar antes, mesmo num livro-reportagem. E foi o que a gente fez com o Neto no livro. A história dele tá aqui. Ele, para mim, é o grande personagem desse livro – embora, apesar de tudo, um assassino.


[LL] Tendo feito, organizado os relatos, os documentos, como que foi lidar com tanto nome na história? Porque até um pouco na leitura você se perde um pouco.


[CO] Isso é um problema. Eu tenho o maior cuidado com isso, né? Porque eu não sou Tolstói (risos) – Que, porra, em ‘Guerra e Paz’ eu tenho que fazer um organograma pra entender. Eu não sou nem de longe. Então, eu acho que é trazer para o projeto realmente aqueles personagens que importam. Porque você tem toda a razão. Muito personagem confunde. No caso de ‘Porões’, a gente centrou o livro naqueles três que eram os principais. Os três bicheiros. E todas as histórias em geral em torno deles. [No livro sobre] Marielle, evidentemente, fácil de dizer: o que eu queria era um “diálogo permanente”, a construção de uma narrativa que tivesse o lado da vítima, o lado do matador, depois voltasse a vítima, o matador voltasse.


[LL] Ainda um pouco sobre a apuração do livro. Ele reconstrói, no mínimo, 13 anos de caso, por toda a questão jurídica. Eu queria saber se houve alguma estratégia para você alinhar a ordem de apuração, com os relatos e os documentos, com a cronologia dos fatos, pensando na linearidade que vocês pensaram para a reportagem. Porque o livro não tem uma linha contínua, né?.


[CO] É muito difícil você estabelecer uma linha cronológica rígida num caso como esse, com tantas idas e vindas. Um caminho foi a gente, primeiro, ter todo o acervo processual. Cara, aquele escalhamasso a gente conseguiu desarquivar e consultar. E abrir. E ler. E ver o que era importante, o que que deixou de ser feito. Eu cheguei à conclusão que, no final das contas, a Justiça condenou aqueles que eram possíveis. As provas eram muito concretas, mas todo o trabalho de apuração e a interferência externa, no sentido de embolar, de confundir a investigação, prejudicou demais o resultado, né? Eu acho que deram voz e importância demais àquilo que veio de fora para confundir. Hoje, nas condições de investigação atuais, eu não sei se a história ficaria mais blindada. Existe uma diferença clara entre a sabotagem que foi feita nessa investigação dos anos 1990 e o caso Marielle, onde se tentou a mesma coisa – sabotar, confundir, melar o resultado e tal – mas quando foi para as mãos da Polícia Federal, de certa forma, a investigação foi blindada para chegar ao resultado final. Tem uma diferença entre os dois. Ficou claro? Depois eu queria falar de uma coisa que me chocou no livro, cê me pergunta: “O que foi que te chocou no trabalho de apuração?” (risos)


[LL] Um dos pontos que dá para traçar no livro é um pouco da falta de confiança no relato dos ex-policiais, quando eles assumem a narração dos capítulos. E isso acaba dirigindo um pouco do que a gente como leitor pensa sobre eles. Queria saber, pensando até na objetividade que demandam da gente como jornalista, o quanto a história que eles estavam envolvidos pesava na sua cabeça no momento das entrevistas?

 

[CO] O que se passou na minha cabeça? Sempre desconfiança. Sempre duvidando da história que era trazida. Ainda mais se tratando de integrantes de instituições que são muito problemáticas aqui do Rio de Janeiro, que são a Polícia Civil e a Polícia Militar. Estavam ali juntas e misturadas nessa história toda. Então eu sempre entrevistei com o pé atrás e sempre entrevistei a documentação igualmente com o pé atrás. Porque, sinceramente, tirando o promotor, que tentou fazer o melhor dele, tenho muitas dúvidas sobre as verdadeiras intenções de uma boa parte do [grupo] responsável pelas investigações do caso lá no passado.


[LL] É um livro muito emocionalmente difícil de ler, né? Especialmente a parte onde ele reconstrói os casos de Vigário e o da Candelária, que ocorreu não muito antes do de Vigário. Como foi pra você, ainda falando sobre o emocional como jornalista, escrever sobre esses casos?


[CO] Era difícil. Principalmente o relato da sobrevivente, a Núbia. A Núbia era uma criança de nove anos que estava dentro de casa e viu tudo. Ela era a criança mais velha que sobreviveu. E viu tudo. Então, ela contou o seguinte: “Eu tive oito filhos para repor os oito parentes que eu perdi.”. Cara, foi... Eu saí assim... Parecia… Engraçado, né? Porque você tem essa história toda e acha que está preparado. Não, cara. Eu me emocionei e me sentia atropelado por um trator no final dessa entrevista com ela. Difícil. Difícil. Difícil.


[LL]Você sabe muito bem o perigo que o jornalista corre quando apura grandes esquemas de corrupção. Como é que você se prepara psicologicamente para lidar com as investigações?


[CO] Eu não tenho medo de traficantes. Não tenho. Eu tenho medo de traficantes quando você está ali no território deles. Mas fora do território deles, zero. Agora da polícia… Aí é outra história. E quem é capaz de fazer alguma maldade assim, não manda recado não, cara. Não manda recado. Desses eu tenho medo.


 [LL] Pra fechar sobre o livro, agora faço a pergunta que você pediu: o que mais te chocou durante toda a investigação?


[CO] A experiência do Muiños Piñeiro com os dois casos. Ele atuou em vigário e atuou na chacina da Candelária. Ele disse que ficou clara a reação da sociedade diante dos dois casos. No caso de vigário, em que se viu uma família sendo massacrada pela polícia, houve uma comoção e um apoio generalizado à iniciativa dele de buscar a justiça; Com relação à Candelária, muito pelo contrário. Ele foi altamente criticado e [ouviu] a sociedade dizendo assim: “Olha, esses moleques aí merecem isso mesmo.”. E ele encontrou reações hostis entre os próprios colegas, dizendo assim: “Rapaz, deixa isso pra lá”, “Pivete bom é pivete morto”. Entendeu? Então assim, olha como a sociedade pensa, cara. É a mesma que aplaude hoje o massacre de 120 [no Complexo da Penha, em 2025]. Porque não acontece nada, não muda nada o espectro do combate à criminalidade no Rio de Janeiro. No dia seguinte, certamente esses cento e tantos aí, os quadros já foram repostos, sabe? Eu não acredito nisso. De jeito nenhum.


[LL]: Falando agora sobre a carreira de escritor. É perceptível que seus livros demoram muito tempo de apuração e até de escrita. Queria te perguntar como você conciliava o tempo de produção pros livros com o tempo de trabalho na redação?


[CO]: Olha, muita coisa vem do meu trabalho de reportagem. Mas, porra cara, é sacrificar a vida pessoal, acrescentar mais uma demanda à tua rotina e ter paciência, né? E não correr tanto, né? [...] [No livro da] Marielle, eu fiquei três anos. Três anos. No dia que saiu o resultado do julgamento, eu recebi uma mensagem da Mônica [Benício, viúva de Marielle] me agradecendo. Não tem preço, isso é pra emoldurar. Entendeu? É isso.


[LL]: Por fim, olhando para o futuro: já pensa em algum caso que queira abordar no próximo trabalho? Já está trabalhando em um? O que podemos esperar?


[CO]: Então, o que eu estou fazendo, estava fazendo agora nesse instante inclusive, é mais um projeto em parceria – que tudo indica que vai ficar pronto até o início do ano que vem – que é a minha experiência com a Casa da Morte de Petrópolis e a Inês Etienne Sobreira, que é a sobrevivente. Estou dividindo esse projeto, que vai virar também um documentário Globoplay, com Juliana Dalpiva e agora estou tentando, digamos, “atacar” as questões levantadas pelos revisores. Estou há 15 anos dedicado a essa história. 15!


[LL] Aproveitando o restinho de tempo que temos, vou te fazer uma pergunta que eu tava há muito tempo pra te fazer, desde que você foi lá na UFRJ. A [professora] Cristina [Rego Monteiro] te apresentou pra todo mundo como um menino tímido. Começou muito introvertido. Eu me relaciono um pouco e vendo onde você chegou hoje e o trabalho que você já fez, eu ia te perguntar: qual foi a virada de chave pra você conseguir ter essa coragem?


[CO] Sinceramente, eu acho que você pode fazer tudo antes de você perder a timidez. Porque eu só não tenho esse talento pra estar ali presente em rede social – fazer, por exemplo, o que a Juliana [Dalpiva] faz. Cara, eu não sei como é que ela consegue isso. Então nisso, nesse jornalismo muito audiovisual, onde o papel do repórter se mistura com o do influencer um pouco, aí eu saio perdendo. Aí minha timidez grita nesse momento. Mas um contato com a fonte, quando a pessoa baixa a guarda, aí cara, não sei se dá pra dizer que eu sou tão tímido assim. Eu sei levar, eu sei acompanhar o ritmo do entrevistado. Ou você de repente resolve falar de outra coisa. Paulo Malhães, por exemplo, de orquídea. Vamos [falar] de orquídea. Uma vez eu liguei pro Brizola – Conta essa história, cara –. Aí ele: “Ô, Chico Otávio, tá sumido! O que aconteceu?” Aí eu falei: “Pô governador, tava em Israel.  Eu fui fazer um caderno especial sobre Jesus Cristo.”. Uma hora do Brizola falando sobre Jesus Cristo. E no final eu pensei: “Cara, deixa essa pauta pra lá.”. Não tinha mais cabimento no final de uma hora de fala sobre Jesus Cristo eu perguntar sobre a aliança que ele tava negociando. Não tinha mais cabimento. Eu derrubei a pauta e falei assim, na próxima ele vai me compensar. E olha que eu era do Globo, ele era puto com o Globo, né? Mas não deu outra. Nunca deixou de me atender. Porque, pô, eu não fui precipitado. Eu levei ali o cara, entendeu? Você conter a sua ansiedade – eu falo muito isso pra minha filha, né? Não entra com o pé na porta, assim, sabe? Vai no ritmo da fonte. Eu acho que a minha timidez nunca foi um problema pra eu levar bem essas entrevistas. Nunca. O problema é quando a câmera tá na sua cara... Aí realmente podia ser melhor. E olha que eu ainda faço rádio.

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