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"Seremos história": Leonardo DiCaprio em volta ao mundo cara a cara com as mudanças climáticas

Gabrielle Vitória


Em Seremos história? (2016), documentário produzido pelo canal National Geographic, acompanhamos o ator e ativista Leonardo DiCaprio ao redor do mundo, em conversas com cientistas, políticos, ativistas e especialistas a respeito do aquecimento global, suas consequências e impactos na sociedade.


Com voz suave, logo nos primeiros minutos, DiCaprio fala sobre um quadro que ficava acima de seu berço quando era criança. Dividida em 3 partes, a pintura conta uma história: o Jardim de Éden, primeiro com a natureza em seu estado intocado, que depois passa a estampar uma superpopulação modificando e usufruindo de tudo com muita abundância, para, na última seção, ser retratado em ruínas: “Um paraíso, que foi degradado e destruído” analogia muito perspicaz com a exploração em massa dos recursos naturais e destruição do meio ambiente que acontece atualmente.



(O Jardim das Delícias Terrenas, Hieronymus Bosch)


A indústria de combustíveis fósseis e o agronegócio são os dois principais tópicos abordados nas conversas de Leonardo. No primeiro, os impactos já são bem conhecidos. A queima desses combustíveis, feita diariamente em escala global, libera dióxido de carbono e de enxofre, principais gases causadores do efeito estufa e da chuva ácida, respectivamente. Além disso, o transporte e obtenção dessas fontes energéticas estão evoluindo para métodos cada vez mais arriscados para a saúde ambiental. O petróleo, por exemplo, extraído em plataformas no meio do oceano, pelo qual também é transportado, é extremamente nocivo para a vida marinha em caso de vazamentos, que são muito difíceis de reverter.


Já a criação de gado, parte do agronegócio que gera o maior impacto ambiental, exige uma enorme extensão de terra e libera uma quantidade muito grande de metano no ar, à medida que o animal digere o seu alimento. “Cada molécula de metano equivale a 28 moléculas de gás carbônico”, diz Gidon Eshel, pesquisador de climatologia e geofísica, ao explicar o motivo desse gás ser muito mais nocivo para a atmosfera do que o CO2. Em termos de comparação prática, um simples hambúrguer com pouco mais de 200g de carne bovina deixa a mesma pegada ecológica que percorre 67 quilômetros com um carro popular econômico. Ou um dia inteiro com o ar condicionado ligado.

Os impactos gerados pela exploração sem precedentes desses dois gigantes já estão acontecendo. Durante a gravação de O Regresso, filme indicado a 12 prêmios Oscar e vencedor de 3 deles, DiCaprio revela que ele e a equipe de filmagem tiveram que ser realocados em outro continente, a mais de 14 mil quilômetros de distância, porque o gelo do cenário estava derretendo muito rápido no set externo original.


Além disso, o documentário retrata pessoas lidando com essa situação de diferentes formas. Enquanto ativistas lutam para salvar o planeta e remodelar práticas e hábitos diários para diminuir os efeitos do aquecimento global, o prefeito de Miami Beach gasta mais de 400 milhões de dólares em obras de elevação e instalação de bombas com o objetivo de drenar a água que já está começando a alagar partes da cidade costeira com a subida do nível do mar. Trabalhando com um governador e senador negacionistas, que não acreditam no aquecimento global, o mais viável foi investir milhões em soluções temporárias. Remédios que, definitivamente, não irão curar a doença, mas apenas retardá-la por “cerca de 40 ou 50 anos”, estima o prefeito. E como ficam as outras cidades ao redor do planeta que certamente serão afetadas pelas mesmas consequências, mas não possuem essa verba?


O enredo nos ajuda a entender o posicionamento de alguns grandes líderes mundiais em relação à problemática ambiental. “Era para estar fazendo 20 graus hoje, e está muito frio! Falando em aquecimento global, onde ele está? Precisamos de um pouco dele aqui!”, diz trecho de um discurso de Donald Trump, que em 2017 promoveu a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris — tratado com objetivo de conter as alterações climáticas e seus impactos, assinado por 195 países que assumiram o compromisso de reduzir a emissão de gases do efeito estufa. Por outro lado, o Papa Francisco representa um grande avanço da Igreja Católica nessa questão, ao publicar uma Encíclica sobre o meio ambiente, que levanta reflexões e clama por ações a respeito do cuidado com “a nossa casa comum”.

Nas últimas cenas do documentário, as câmeras mostram novamente o quadro de 1510, que se revela extremamente atual. Apesar de claramente já termos passado pela primeira fase e estarmos indo em direção ao limbo entre a segunda e a terceira, com o agronegócio e a indústria dos combustíveis fósseis sendo parte do cotidiano de quase todo o mundo, uma solução a nível individual é sugerida: repensar o consumo. Todas as nossas decisões diárias a respeito do que iremos comer, vestir, calçar ou utilizar como meio de transporte geram impactos diretos na natureza. É necessário e urgente reconsiderar as marcas e produtos que consumimos, além de repensar o quadro político, que precisa incluir na lista de prioridades novas medidas e soluções para diminuir nossa pegada ecológica e reparar os danos já causados.


Seremos História? está disponível no Youtube.

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