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POR TRÁS DA CÂMERA

há 12 horas
3 min de leitura

A ausência em Homem-Aranha: Um Novo Dia  que você não percebeu


Por Luan Logatto


No final de agosto de 2026, saiu a notícia que os estúdios Marvel tão aguardavam: Homem–Aranha: Um Novo Dia atingiu 2,33 bilhões de dólares em bilheteria mundial, conquistando o terceiro lugar no ranking histórico. A bilheteria reflete o entusiasmo com o novo filme do herói. A Marvel finalmente conseguiu. Depois de dois filmes nos quais o cabeça-de-teia é rebaixado a mero assistente do Homem de Ferro e outro totalmente entregue ao fanservice – ou seja, feito com o único intuito de apelo comercial e sem qualquer preocupação artística –, o Homem-Aranha de Tom Holland por fim recebe uma adaptação que aborda tudo que faz o herói se conectar tanto com o público, como a dificuldade nas relações sociais, o enfrentamento do luto e claro, a instabilidade financeira. Mas, ainda que o filme traga mais elementos dos quadrinhos clássicos, a ausência de um dos núcleos primordiais da jornada de Peter Parker fez se levantar uma pergunta entre os fãs mais aficionados: Cadê o Clarim Diário?



O Clarim Diário é o principal jornal da Nova Iorque da Marvel e a única fonte de renda pro herói que, como o freelancer Peter Parker, fornece imagens exclusivas do Homem-Aranha para compor a capa dos tablóides que o jornal lança quando critica as ações do vigilante. Por ser um veículo impresso, os filmes do Universo Cinematográfico da Marvel divergem das adaptações anteriores (feitas em 2002 e 2012) e transformaram o jornal em um portal de notícias online – parecido ao nosso g1 – que ganha bastante notoriedade quando se trata de notícias de última hora (como se vê em Homem-Aranha: Longe de Casa e Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, quando o portal ocupa espaço nos outdoors da cidade). 

A mudança vem de um motivo claro: a obsolescência. Desde a primeira adaptação, em 2002, quando a internet ainda era artigo de luxo e pouco prestativa, e até em 2012, quando os celulares se limitavam a ligações e mensagens, os meios de comunicação e informação mudaram muito. O acesso à internet e conexão nos dias de hoje é tamanho que o usuário dificilmente se desconecta do celular. Com isso, o meio impresso é desvalorizado, visto que o jornal perde sua exclusividade como fonte de informação e a notícia dada no dia seguinte frequentemente já é de conhecimento público. E essa desvalorização do impresso é desigual comparado aos outros meios, considerando a relevância que os telejornais ainda têm – como se vê quando J. Jonah Jameson, editor-chefe do Clarim Diário originalmente, se torna apresentador e repórter do agora portal nos filmes recentes. 

Do mesmo modo, o valor de exclusividade da fotografia também se perdeu. Em um mundo analógico, fotografar uma pessoa que se desloca rapidamente pela cidade e luta em lugares inacessíveis se torna uma tarefa impossível – e é com essa brecha que Peter Parker consegue seu freelancer como fotógrafo no jornal. Mas, com a chegada da digitalização e o maior acesso à fotografia (e a atualização da mesma), registrar o Homem-Aranha chega a ser banal, retirando a necessidade de um cargo exclusivo para obtenção dessas imagens (o que resulta em um furo de roteiro do filme para explicar como Peter consegue dinheiro para alugar o kitnet mais barato que achou, mas isso é outra conversa).


CLARIM DIÁRIO X PLANETA DIÁRIO

O leitor mais atento pode se pensar: “Mas no filme do Superman do ano passado tinha tanto o Planeta Diário (também impresso) quanto o Clark Kent trabalhando lá”. De fato, Superman retrata a imprensa de Metrópolis (cidade fictícia) da maneira tradicional – e com certa relevância na sociedade–, ainda que seja ambientado nessa era de domínio dos aparelhos celulares. Entretanto, ignorando o fator utópico dessa representação, o elemento jornalístico do disfarce mundano do Superman se dá pela sua capacidade de apuração (incluindo entrevistas com o próprio herói) e de redação de textos – coisa que nenhuma máquina conseguirá substituir.

É importante perceber que o Planeta Diário só consegue ter entrevistas exclusivas com a maior figura do planeta e um repórter que, literalmente, escuta e enxerga tudo, por conta da não obrigatoriedade de diploma para Clark Kent ser esse jornalista (e paralelamente, Clark Kent decidir se tornar repórter provém dessa liberdade). A não obrigatoriedade de diploma, que virou assunto no Supremo Tribunal Federal em agosto de 2026, não significa que qualquer um, ignorando as incompetências, deve fazer e ocupar espaços de profissionais, mas serve para possibilitar a abertura a pessoas capacitadas contribuírem para a esfera pública.


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