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Defying The Narrative: em Oz, o discurso de ódio não nasce do nada. Ele é fabricado, transmitido e consumido.

Wicked e Wicked: For Good são, antes de tudo, um manual sobre como isso funciona.


Por Ana Salles


Antes de Elphaba nascer, a narrativa já estava lá. Ela chegou ao mundo com a pele verde, e isso foi o suficiente para que todos soubessem exatamente o que fazer com ela: olhar, recuar e nomear.  A rejeição foi imediata, instintiva, quase reflexa. Mas reflexos, como qualquer jornalista sabe, não existem no vácuo. Eles são aprendidos. Os dois filmes dirigidos por Jon M. Chu, Wicked (2024) e Wicked: for good (2025) - contam a história de uma jovem que se torna vilã não por seus atos, mas por como esses atos são contados. É uma narrativa sobre poder, e sobre amizade, e sobre escolha moral. Mas é, além de tudo, uma narrativa sobre mídia: sobre quem tem o direito de nomear, de enquadrar, de decidir quem merece ódio e quem merece admiração.



O Mágico de Oz, interpretado por Jeff Goldblum com uma leveza que não deixa de ser ameaçadora, não governa pelo medo direto. Ele governa pelo relato. Seu aparato de controle não é as tropas ou as grades: é o discurso público, a versão oficial dos fatos. Quando os Animais começam a perder a voz, literalmente, a capacidade de falar, a Cidade Esmeralda não protesta. Ela repete o que foi dito: que isso é normal, que é necessário, que é para o bem de todos. E o Mágico sabe exatamente o que está fazendo.

"A melhor maneira de unir as pessoas é dar a elas um inimigo de verdade", diz o mágico em Wicked.

O ponto alto acontece em "Defying Gravity". Quando Elphaba recusa a versão que o Mágico quer que ela aceite e voa sozinha pela primeira vez, ela sabe, e o espectador também, que aquele gesto de autonomia será reescrito. Não demora. Madame Morrible, porta-voz oficial do regime, entra em ação imediatamente: transforma a fuga em crime e o nome de Elphaba em sinônimo de maldade. O pronunciamento circula por todo Oz antes que qualquer pessoa possa ouvir a versão dela.

“Cidadãos de Oz! Há uma inimiga que deve ser encontrada e capturada. Não acreditem em nada que ela diz. Sua pele verde é apenas a manifestação exterior de sua natureza distorcida", convoca Madame Morrible, uma das antagonistas, em transmissão oficial em Wicked.

Isso não é exclusividade de Oz. Discursos de ódio no mundo real raramente se sustentam sozinhos. Eles precisam de estrutura, de repetição, de um aparato que os torne plausíveis. Podem ser algoritmos que amplificam reações, veículos que optam pelo espetáculo, ou simplesmente a ausência de vozes que contradigam a versão oficial. Em Wicked: for good, isso fica ainda mais explícito: mesmo quando Elphaba tenta falar por conta própria, sua voz não encontra canal. A narrativa já está sedimentada. O ódio, nesse ponto, não precisa mais de estímulo: ele se auto propaga.

Glinda, por sua vez, é o outro lado do mesmo processo. Ela não é ingênua, ela é funcional ao sistema. Sua simpatia pública, sua leveza, sua imagem impecável servem como contraste para tornar Elphaba ainda mais sombria. Juntas, as personagens não formam apenas uma amizade improvável, mas um par midiático, o tipo que qualquer manual de comunicação reconheceria. A mocinha e a vilã. O problema é que os papéis foram distribuídos antes da história começar.

O que os filmes propõem, com mais coragem do que se esperaria de uma produção da Universal com orçamento de 150 milhões de dólares, é que a monstruosidade não é uma característica intrínseca. Ela é uma atribuição. E atribuições precisam de alguém que as faça, de um meio pelo qual circulem e de uma audiência disposta a acreditar. Quando os três elementos se alinham, qualquer pessoa pode se tornar a Bruxa Má do Oeste. O Mágico de Oz sabia disso. E, infelizmente, ele não é uma figura apenas ficcional.

No final de Wicked: for good, Elphaba não é redimida publicamente. A narrativa sobre ela não muda. O que muda é a consciência de quem assistiu, e talvez essa seja uma das pouquíssimas vitórias possíveis dentro de um sistema que controla os meios de contar histórias. Reconhecer o mecanismo não é suficiente para desmontá-lo, mas é o primeiro passo. E, curiosamente, é também o que se espera de alguém que escolheu estudar jornalismo.






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