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Os Javalis Selvagens: mais do que um resgate, uma história de superação, fé e humanidade

Julia Sirena



Em tempos de Copa do Mundo, pouco se fala sobre assuntos que não sejam relacionados a ela, mas em julho de 2018, enquanto a Rússia sediava este grande evento, isso mudou. O mundo deixou um pouco da competição de lado e voltou seus olhares para Chiang Rai, província tailandesa onde, naquele momento, doze jogadores e o técnico do pequeno time de futebol “Javalis Selvagens” enfrentavam dias de agonia. O livro-reportagem Os meninos da caverna: O passeio de um sábado à tarde que durou dezoito dias, preocupou o mundo e mobilizou mil pessoas em um resgate quase impossível na Tailândia, do jornalista brasileiro Rodrigo Carvalho, traz uma visão sensível do acidente e do resgate.


Capa do livro (Reprodução: Editora Globo Livros)


Era sábado, 23 de Junho de 2018, quando os “Javalis Selvagens” saíram do treino de futebol rumo à caverna Tham Luang, onde planejavam comemorar o aniversário de dezesseis anos de um dos garotos. Fazer esse passeio, dependendo da época do ano, pode ser muito perigoso. Apesar da temporada de monções na Tailândia durar de abril até novembro, o pior período é entre julho e outubro, quando as cavernas ficam fechadas. As visitas em junho são permitidas, mas por apresentarem riscos, não são aconselhadas. No fim daquela tarde, para azar dos meninos, caiu um temporal muito forte e eles acabaram presos dentro da caverna. À noite, as famílias acionaram a polícia e os treze foram dados como desaparecidos. Ainda no mesmo dia, as autoridades encontraram as bicicletas e os pertences do técnico e dos meninos na entrada da caverna.


Passaram dez dias até os mergulhadores conseguirem encontrar os meninos. Durante esse tempo, a história repercutiu mundialmente, mobilizando milhares de pessoas. Com isso, diversos profissionais foram para a Tailândia oferecer seus serviços para ajudar no resgate dos meninos - entre eles, os três mergulhadores britânicos que acharam o grupo. Das treze crianças, apenas uma conseguia se comunicar em inglês e por isso mediou toda a conversa. Naquele dia, os mergulhadores voltaram para a superfície com a ótima notícia da sobrevivência, até então, de todos. A partir desse momento, transcorreram mais oito longos dias e, no dia 10 de julho, todos os garotos e o técnico estavam fora da caverna.


Imagem: Acervo pessoal de Rodrigo Carvalho


Além de toda a parte jornalística, Rodrigo Carvalho enriquece o livro com histórias paralelas e relatos emocionantes, como o caso de Duda, de oito anos, natural e residente do Piauí, que acompanhou todo o caso pela televisão e ficou tão tocada que fez questão de escrever uma carta e enviar para os “Javalis Selvagens”- posteriormente entregue a um dos meninos por Rodrigo. Ou como o de Saman Kunan, ex-mergulhador da Marinha tailandesa, de 38 anos, que morreu durante uma das missões que visavam levar oxigênio para os garotos, por conta de uma falha em seu equipamento.


O autor também aborda as tradições e a religiosidade do povo tailandês e como esses fatores foram essenciais para a sobrevivência dos meninos dentro da caverna. O técnico responsável era budista e extremamente habilidoso na técnica de meditação, de modo que essa habilidade ajudou a manter os meninos calmos e a pouparem energia. Do lado de fora da caverna, pessoas de todas as fés voltavam suas intenções para aqueles treze. Ao final do resgate, os tailandeses passaram a semana agradecendo as boas energias vindas de todas as partes do mundo.

Imagem: Acervo pessoal de Rodrigo Carvalho


Rodrigo Carvalho conseguiu, com a obra Os meninos da caverna, fazer um excelente trabalho jornalístico. Do começo ao fim, o autor consegue prender o público à história por meio de relatos emocionantes, curiosidades e muita sensibilidade. Com suas analogias, histórias pessoais e imagens incríveis, Rodrigo transporta o leitor para a província tailandesa Chiang Rai e o faz se sentir próximo do pequeno time dos “Javalis Selvagens”, que, naquele momento, era mais falado do que qualquer outra seleção, mesmo durante a Copa do Mundo. No fim das contas, é um livro de superação, fé, transformação e, sobretudo, humanidade.


“Não sabemos se foi um milagre, ciência ou o quê. Mas os treze Javalis Selvagens estão fora da caverna.”

(Comunicado oficial da Marinha tailandesa)


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