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Ao vivo, diretamente da Capital: quanto vale a audiência da tragédia?

Uma crítica sobre a exploração midiática da violência no Brasil e os limites esquecidos do jornalismo


Por Luiza Benevenuto


Foi um verdadeiro massacre. Mais um. Mas não foi o primeiro, nem de longe. Dezenas de jovens mortos, famílias sentindo suas perdas e um estado de luto que atinge qualquer um com princípios morais, de forma que fique sem palavras. O maior massacre da história, sem dúvidas. E todos assistiram, graças a espetacularização da mídia, que não se contenta só em informar, mas também tem que lucrar com a dor e o sofrimento daqueles que resolve explorar. E o Estado parece não se cansar de tirar vantagens disso. Nunca se olha o lado negativo, apenas o positivo. Alguns falam do evento – que de isolado não tem nada – como algo merecido, pois foram eles que escolheram esse caminho. Cenário familiar, não? Pode até ser, mas a cena descrita é da 50º edição dos Jogos Vorazes, o segundo massacre quaternário de Panem

O cenário ficcional ocorre em Amanhecer na colheita – livro que veio para complementar a saga Jogos Vorazes 50 anos após uma guerra civil que foi motivada pela abolição dos direitos humanos por parte do governo autoritário. Desde que a guerra acabou, todo dia 4 de julho, em todos os 12 distritos periféricos, um garoto e uma garota entre 12 e 18 anos são aleatoriamente escolhidos e levados para uma arena onde lutarão até a morte. No 50º massacre foram escolhidos não dois, mas quatro jovens de cada distrito para morrer. O evento televisionado é exposto através da mídia e toda a nação de Panem é obrigada a assistir. 

Arena da 50º edição dos Jogos Vorazes
Arena da 50º edição dos Jogos Vorazes

Nos Jogos, há um rosto conhecido que as pessoas esperam por ele e por suas entrevistas: Caesar Flickerman. O apresentador conduz entrevistas antes dos tributos – como são chamadas as crianças que são sorteadas para morrer – serem confinados nas arenas em que lutarão por suas vidas. Depois do confinamento, Caesar conduz a transmissão ao vivo dos Jogos até o seu fim. Ele explora o sofrimento e a tristeza de quem ele puder, desde a família, no distrito, até o tributo e seus mentores. Ninguém escapa. A crueldade não importa, mas sim a audiência e o satisfazer de um público sedento por sangue, sangue de jovens de um lugar específico: jovens periféricos. Esse evento parece familiar, e não é apenas por um motivo, mas por algumas coincidências: nossa sociedade também é composta por pessoas cruéis e nós também temos alguns Caesar Flickermans na mídia que continuam a apontar o dedo para jovens de periferias.

Há exatamente um mês atrás, pudemos ver isso em prática. Desta vez no mundo real, quando a maior operação da história do Rio de Janeiro, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, proporcionou o maior massacre do país. Ao todo, foram contabilizadas 122 mortes. Desde civis estereotipando e julgando a população das comunidades como se juízes fossem, até a mídia usando um aviso rápido em preto e branco que dizia algo como “cenas sensíveis a seguir” para legitimar a divulgação de conteúdos desumanos, acompanhamos mais do que uma cobertura midiática. Uma tragédia precisa de uma cobertura completa, com muito bom senso e respeito, não de uma mega exposição de corpos feridos, mortos e julgados, o que demonstra que o manejo da mídia não foi dos melhores. Quando a tragédia vira mercadoria, o bom senso é deixado de lado e a responsabilidade social do jornalismo é esquecida.

Há canais em que a transmissão foi de um jornalismo sério, mas nem todos foram assim. A espetacularização da violência na mídia brasileira acaba por se tornar algo ordinário, e quando se tratam de corpos periféricos, que ocupam lugares bem longe do olhar privilegiado, aí a apresentação dos acontecimentos acaba se tornando sensacionalista, transformando-a em um espetáculo para o público, assim como em Jogos Vorazes. Essa abordagem não só gera a apatia e a normalização de situações absurdas, mas também a desumanização das vítimas e o reforço de estereótipos. A mídia se beneficia através do engajamento e do lucro com a repercussão de atos violentos, transformando esses mesmos atos em material de entretenimento para uma população já alienada. Ou até sádica e passiva. 

“Sádicos” também é uma ótima forma de adjetivar os veículos que se aproveitaram da curiosidade da sociedade em torno dos fatos para compartilhar fotos de corpos em situações miseráveis, mas, com toda certeza, de “passivo” nisso não há nada. Fotos de rostos completamente desfigurados e cadáveres esquartejados apareciam nas suas timelines mesmo que esse não fosse o conteúdo que você gostaria de consumir. Pudemos ver veículos confirmando mortes de pessoas que, no fim das contas, estavam vivas, como também vimos a imprensa rotulando como traficantes cidadãos que não passavam de moradores de áreas sem o privilégio da dúvida. A população se vê vítima do Estado, da mídia e do algoritmo.

Assim como na saga de livros e filmes ficcionais, essa constante espetacularização desconsidera os motivos estruturais pelos quais a violência existe, o que só contribui ainda mais para um estigma que é prejudicial e retrógrado. Apesar disso, o estigma engaja. Num país onde a extrema direita e seus ideais crescem em uma linha exponencial, a ética deveria ser indiscutível. Mas quando a notícia é num lugar suburbano, primeiro se informa, depois se checa. Um fato é que o ser humano jamais deveria ser usado como um meio de alcançar algo. Seja audiência, números ou engajamento. A exploração que esses corpos sofrem não deveria valer números, e nenhum governo – nem ninguém – deveria ter o direito e o poder sobre a vida. 

Bem como nos Jogos Vorazes, essa não é uma situação isolada. As munições atiradas pela polícia do Rio de Janeiro acabam por sempre atingir as mesmas pessoas, nos mesmos lugares. Isso deveria ser motivo de revolta, não espetacularização. No fim do dia, só resta o anseio para que eventos como esse fiquem só na ficção. 


O personagem Haymitch Abernathy em uma das cenas do filme Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita
O personagem Haymitch Abernathy em uma das cenas do filme Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita

“Eles não vão usar nossas lágrimas como entretenimento” — Haymitch Abernathy, vencedor da 50º edição dos Jogos Vorazes.


 
 
 

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