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O Príncipe do Natal: Muito além dos seus clichês

José Mário Curvo e Ferraz Santos


Foto: Divulgação/Netflix


Lançado pela Netflix em 2017, O Príncipe do Natal é um típico filme de comédia romântica com direito aos seus clichês. A jornalista Amber Moore (Rose McIver) aceita ser enviada ao Reino de Aldovia para cobrir a coroação do príncipe local, Richard (Ben Lamb), em busca da matéria perfeita e, assim, alavancar a sua carreira. Ao se infiltrar clandestinamente no castelo, a protagonista é confundida com a tutora da Princesa Emily (Honor Kneafsey), com quem Amber desenvolve uma amizade pessoal e torna-se uma pessoa próxima aos membros da família real.


Ao longo da história, Amber se apaixona por Richard e, ao mesmo tempo, tenta buscar o máximo de conteúdo para a sua reportagem. Com direito à previsibilidades, o casal passa por todos os problemas clichês até ficarem juntos no final do filme. Vale ressaltar a química entre os atores, além do amadurecimento da personagem de Honor Kneafsey e também todo o glamour de Alice Krige no seu papel de Rainha Helena.


Apesar de todos os seus clichês, o filme proporciona muitas discussões interessantes sobre o jornalismo. Já no começo da história, o diretor Alex Zamm nos mostra uma triste realidade da comunicação: a sua desvalorização no mercado de trabalho. Atire a primeira pedra qual estudante interessado nessa área nunca escutou um “não vai ganhar dinheiro” ou um conselho para escolher outra profissão. A própria Amber recebe o conselho de um jornalista experiente no Reino de Aldovia, alertando-a para que ela “escolha uma nova carreira”.


Muitos jornalistas em começo de carreira tendem a aceitar algumas pautas, mesmo que não sejam de seu interesse ou até de risco. Tudo para demonstrar serviço ou conseguir a chance perfeita de ganhar notabilidade no mercado. No caso da Amber, ela aceita ser correspondente do jornal durante o Natal para cobrir a coroação do príncipe Richard, descrito pela mídia como um jovem que apenas quer curtir sua vida milionária. Ou seja, seria praticamente uma missão impossível conseguir uma declaração exclusiva do postulante a Rei de Aldovia. Como se não bastasse passar o feriado natalino longe de família e amigos, a jornalista ainda invade o Castelo Real e se passa pela tutora da Princesa Emily, o que poderia lhe render algumas semanas presa, segundo sua chefe de redação.


Realmente, jornalismo não é para principiantes e o filme mostra bem isso. Inclusive um pequeno detalhe que pode passar despercebido ou como um simples elemento da comédia são os indispensáveis sapatênis no vestuário de Amber. Há a representação, nesses calçados, de como um jornalista deve estar sempre pronto para correr atrás da informação, mesmo que esteja em uma festa de gala no Palácio de Aldovia. Além disso, a representação de uma mulher capaz de realizar um trabalho intenso de maneira independente propõe a desconstrução da clássica imagem de uma princesa frágil.


No entanto, a principal questão sobre jornalismo ainda está por vir. No clímax do filme, Amber descobre que o Príncipe Richard é adotado e, com isso, não poderia ser o sucessor do Reino da Aldovia. Ao ser incentivada a publicar a reportagem, a protagonista responde que se trata “da vida de alguém”, e que a alteza não sabia da adoção. A fala da jornalista representa bem a ética profissional que qualquer profissional precisa ter para trabalhar nessa área.


Embora a função do jornalista seja apurar informações e publicá-las independente das suas consequências, é preciso entender que cada caso é um caso. A ética precisa correr nas veias do profissional para saber o momento certo de publicar a reportagem. Muitas vezes, grandes portais preferem dar o furo e acabam ignorando os princípios jornalísticos.

Para exemplificar essa questão, vamos analisar duas ocorrências : a primeira com uma tremenda irresponsabilidade do jornal e a segunda com a seriedade exigida no jornalismo. No dia 26 de janeiro deste ano, a lenda do basquete mundial Kobe Bryant faleceu tragicamente em um acidente de helicóptero e a notícia foi dada primeiramente pelo site estadunidense TMZ.


Contudo, o xerife do Departamento de Polícia de Los Angeles, Tim Murakami, veio a público criticar o veículo por dar o furo antes mesmo que os familiares fossem avisados da fatalidade. Foi uma total irresponsabilidade dos jornalistas não checar se a própria família de Kobe tinha conhecimento do caso. A morte ou qualquer outro acontecimento drástico - no caso do filme, a adoção - deve ser prioridade das pessoas próximas ao personagem da matéria e não da esfera pública.


Já na segunda ocorrência houve competência por parte da mídia. No último dia 4 de maio, Jorginho, massagista do Flamengo há 40 anos, veio a falecer de Covid-19 após duas semanas internado. Apesar do hospital ter tido a preocupação de a informação não vazar para a imprensa, alguns jornalistas receberam a notícia antes do previsto. Porém, nenhum portal publicou a notícia da morte antes dos familiares do funcionário mais antigo do clube tomarem conhecimento.


Uma aula de ética profissional. Da mesma maneira que a fictícia Amber preocupou-se em não escrever uma matéria com um segredo da vida da família real de Aldovia, sem que o Príncipe Richard soubesse ao menos que era adotado.


Por fim, os roteiristas também fazem uma crítica ao jornalismo, desta vez direcionada às linhas editoriais de diversos jornais. Ao voltar para Nova Iorque, Amber entrega a sua chefe de redação uma matéria contando detalhes da vida do Príncipe Richard e tudo que descobriu durante sua estadia dentro do palácio. Entretanto, sua supervisora rejeita a reportagem por conter muito “sentimentalismo” e afirma que a protagonista teve a certidão de adoção em suas mãos.


Logo, percebe-se uma referência a diversas editorias sensacionalistas que muitas vezes exageram em um determinado ponto da história em busca de aumentar a visibilidade do portal e, por consequência, não publicam todo o contexto. Isso não é jornalismo. Chega a ser um descompromisso com a profissão omitir qualquer fato, por conta de fatores financeiros, ideológicos, pessoais, entre outros, desde que se mantenha a ética de trabalho.

Apesar dos clichês, “O Príncipe do Natal” vale a recomendação para assistir. Com uma direção de arte e de fotografia bem feitas, principalmente no Reino de Aldovia, o filme consegue prender a atenção de quem o assiste, algo fundamental para qualquer obra cinematográfica.


Um ponto a se destacar é a desconstrução da Família Real. Começando pelo herdeiro de trono, o Príncipe Richard é veiculado como um jovem rico, playboy com um lifestyle baseado em festas, mulheres e bebidas, quando na verdade a sua verdadeira persona é carinhosa, caridosa, principalmente com sua família e com as crianças. Já sua irmã, a Princesa Emily, inicia o longa como uma criança complicada de se lidar, por conta da perda do pai e também dos seus problemas de locomoção causados por um problema congênito. Ao passar dos minutos, a menina mostra um notável amadurecimento e desconstrói a imagem de “pobre menina rica” e mostra que sua limitação física não a impede de realizar suas vontades. Por último, mas não menos importante, a Rainha Helena vai quebrando, ao longo do tempo, o estereótipo de uma mandatária superprotetora e mal-humorada, muito pelo contrário. A personagem demonstra conceder certa liberdade aos seus filhos, apesar das limitações físicas de Emily, além de seu bom-humor, aliado à extrema cordialidade da Alteza.


E as reflexões propostas pela obra sobre o mundo jornalístico também valem elogios. O roteiro do filme, escrito por Karen Schaler e Nathan Atkins, consegue mostrar o lado dos profissionais, muitas vezes desvalorizados para um trabalho exigente, que não tem fim de semana, feriado, hora para entrar, nem para sair, além de demonstrarem a importância da ética no trabalho. Porém, também é exposto o lado das celebridades e o porquê dessa aversão à imprensa, como observada na atitude do Príncipe Richards ao não comparecer à entrevista coletiva, antes de Amber invadir o Castelo Real. A despreocupação de apurar informações para retratar qualquer pessoa pode causar uma má imagem à mídia, mesma que de forma generalizada, perante os famosos e o seu círculo social. A prática do chamado mau jornalismo causa esse estereótipo do profissional diante até de uma parcela da sociedade, com a qual a imprensa perde cada vez mais credibilidade e respeito. Um exemplo desse reflexo no longa é a governanta, Senhora Averill (Sarah Douglas), comparar os jornalistas a parasitas.


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