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Nos quadrinhos: jornalismo emocionante, atento e cuidadoso

Gabriela Veloso


Vencedora dos prêmios Cásper Líbero e 2020’s best solution journalism stories, a jornalista, quadrinista e ilustradora Cecilia Marins contou para o Pitacos!UFRJ sobre o mundo das reportagens em HQ, seu processo produtivo e suas principais obras.


(imagem retirada do site de Cecilia Marins)


Comunicativa e apaixonada pela escrita desde sempre, Cecilia se encontrou no Jornalismo, mas o mundo das histórias em quadrinho a encantou ainda mais. A reportagem em HQ apareceu para Cecilia por acaso e a apresentou a uma forma empática e carinhosa de fazer reportagem, para além daquele jornalismo sisudo das hard news como ela mesma diz.

A reportagem em HQ exige um processo de apuração tão rigoroso quanto qualquer outro tipo, embora muitos ainda contestem sua seriedade, por mero desconhecimento. Por meio desse estilo, Cecilia conseguiu trazer histórias de forma atemporal para o público. Os quadrinhos são um meio de contar uma história, em que se pode passar uma quantidade de informação gigantesca e colocar o leitor dentro do contexto abordado.

Dentre seus projetos principais, há a premiada obra “Parque das Luzes” , que na verdade surgiu primeiro como TCC de Cecilia. Com apoio de Tainá Freitas, Maria de Vicentis e da ONG Mulheres da Luz. A jornalista trouxe nessa HQ a vida das mulheres em situação de prostituição, seus diferentes perfis e histórias de vida, tocando nos mais variados assuntos que envolvem esse contexto e que vão muito além de simplesmente atos sexuais. O trabalho de pesquisa e apuração para essa reportagem levou mais de cinco meses e Cecilia foi muito rigorosa quanto às informações que colocou no quadrinho. De maneira sensível e perspicaz, com a base dos relatos dessas trabalhadoras do Parque da Luz em São Paulo, a quadrinista se afastou dos toques de deboche e desprezo e dos estigmas associados que circulam na maioria da população e nos grandes veículos de mídia.


(imagens retiradas do site de Cecilia Marins)


No processo Cecilia conversou com numerosas mulheres em situação de prostituição, donas de ONG, agentes de saúde, pessoas que circulavam na região e até donos dos estabelecimentos que os clientes dessas mulheres frequentavam no parque. As trabalhadoras do sexo que deram seus relatos tiveram suas identidades preservadas, mas puderam participar diretamente do processo criativo da autora, uma vez que ela lhes deu a liberdade de escolher as características das personagens que seriam feitas em homenagem. Longe do clássico sexo, drogas e violência, Cecilia abordou de forma cuidadosa, porém precisa, a situação dessas trabalhadoras. Ainda que mudasse os nomes e os rostos, os quadrinhos permitiram que as histórias fossem contadas de forma impactante e que o leitor entrasse em contato direto com essa realidade.

Parque das Luzes foi só o primeiro dos impactantes projetos de Cecilia. Em 2020, Cecilia, em parceria com outros autores internacionais, criou a reportagem escrita “COVID-19 vs. The Favelas” que conta a história de iniciativas de moradores de favelas de São Paulo para lidar com problemas que surgiram e/ou foram agravados na pandemia. Essa história foi premiada pelo o International Center For Journalists com o best health reporting in English e foi escolhida ainda como 2020’s best Solution Journalism stories.


(imagem retirada do site de Cecilia Marins)


Recentemente, Cecilia fez ilustrações para o documentário do Emicida em parceria com a Netflix “AmarElo:É Tudo Pra Ontem”. Essa foi a sua primeira colaboração no mundo da animação e a quadrinista diz, sim, ter certa ambição de também produzir para esse meio. O documentário condiz muito com os projetos de Cecilia até então, por mais que seja em um outro formato, uma vez que também é uma peça crítica que traz contexto, traz história, mergulha o leitor e ainda permite que este saia com uma outra visão de mundo. Foi exatamente isso que Cecilia fez e continua fazendo com todas as suas obras.

Suas obras falam por si. Mas, em sua entrevista ao Pitacos!UFRJ, Cecilia Marins pode nos provar como o mundo da Reportagem em HQ concede uma liberdade textual capaz de trazer emoção para o texto sem perder a objetividade, com o diálogo entre imagem e texto e uma camada de informação. O quadrinho na reportagem se mostra como um meio de passar a mensagem.

Ainda que jovem, Cecilia Marins já possui um extenso portfólio. Com sua maneira atenta e carinhosa de fazer jornalismo no mundo dos quadrinhos, certamente ainda ouviremos falar muito dela.















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