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Maus: uma obra de memórias do Holocausto em forma de quadrinhos

Carlos Vinícius Magalhães

Ratos. Gatos. Porcos. Cães. Todos são animalizados em Maus. O título da graphic novel, inclusive, é o nome dado em alemão ao primeiro. A impactante, crua e viciante história biográfica de Art Spigelman é dividida em dois volumes, que foram publicados de forma seriada entre 1980 e 1991 pela revista Raw. Um ano depois, o ilustrador americano nascido na Suécia recebeu o prêmio Pulitzer, o mais importante do jornalismo mundial, pelo seu trabalho em Maus — a primeira história em quadrinhos a alcançar tal feito. O ambiente em que se passa a obra em nada lembra um castelo da Disney. Não há Mickey nessa história. Mas sim Vladek, um homem-rato atormentado pelos horrores e consequências da 2.ª Guerra Mundial, passando pelas suas experiências em Auschwitz ao suicídio da sua esposa.


Art é o filho de Vladek que traz para si a missão de retratar a vida dos pais durante a Segunda Grande Guerra em forma de quadrinhos, e isso também é retratado dentro de Maus. Logo de cara já fica claro o quão mesquinho e difícil de se lidar é o papai rato, que vive entre tapas e beijos com muito mais tapas do que beijos com sua nova esposa, Mala Spigelman. A vida de Vladek, contudo, nem sempre esteve dividida entre antes e depois do horário de tomar suas dezenas de cápsulas de remédio diárias, e Art convence o pai a relembrar sua vida desde antes de ser um sobrevivente de uma das maiores carnificinas da história da humanidade.

(Imagem: Reprodução / Geek Quântico)

Os personagens antropomórficos e de traços minimalistas funcionam de maneira sublime no decorrer dos eventos. Afinal, os nazistas se referiam aos judeus como pragas que poluíam a sociedade e deviam ser extintas ou utilizadas como cobaias em experimentos cuja crueldade parece sobre-humana — porém, feita por humanos, no caso por gatos, e documentados com muito orgulho.


A situação esmagadora pela qual estavam passando gerava atitudes tão desesperadas em prol da sobrevivência que, na esperança de serem poupados, judeus chegaram a entregar seus iguais. O destino, porém, não poupou muitos deles. Outro estratagema utilizado era misturar-se entre os poloneses, retratados em Maus como porcos, para passar despercebido na multidão e poder dormir mais um dia fora dos campos. Um recurso muito interessante utilizado pelo autor para demonstrar que o disfarce de sua mãe não era tão convincente quanto o do marido foi deixar o seu rabo de fora. “Era mais fácil ver que ela era judia”, diz Vladek em um quadrinho que retrata os dois andando pelas ruas em busca de abrigo (página 136 do 1.º volume).


O medo crescente com o cerco se fechando fica mais evidente durante toda a narração do pai. Era questão de tempo até que chegasse a sua vez de conhecer os campos de concentração e se separasse de Anja Spigelman e de seu primeiro filho, Richieu, que não sobreviveu. Antes disso, a família viveu em guetos monitorados com punho de ferro pelos gatos que perseguiam todos os judeus, estando eles com documentos ou não. Aos poucos, a família se desintegrou. Aquela pequena sensação de segurança que ela representava foi dissipada e passou a ser cada um por si. Vladek e Anja, separados quando capturados pela Gestapo e levados a Auschwitz, só voltaram a se encontrar depois do fim da guerra.

(Foi a última vez que os vimos; mas não tínhamos como saber isso / Imagem: Reprodução)

Anos depois do holocausto, Anja sucumbe definitivamente e se suicida, mostrando que a dor que carregava pela perda do seu primeiro filho e por conta de todos os horrores vividos por ela não poderia simplesmente ficar para trás. O que ela, Vladek e os demais sobreviventes experimentaram era um peso muito grande que não poderia ser posto de lado — ou queimado, como fez o seu marido com o diário de sua finada esposa depois que ela se tornou mais uma lembrança.


Se os quadrinhos são apenas “livros bobos para entreter crianças”, então que passemos a rever o que nossas crianças consomem. A fantástica obra de Art Spigelman deixa claro que as HQs podem e devem ser utilizadas não só como passatempo, mas também como instrumentos de reflexão e ensino. As memórias de Vladek, falecido antes de o livro ser terminado, são uma prova do quão cruel os seres humanos podem ser uns com os outros baseados em uma ideologia de ódio. Em uma sociedade na qual o extermínio em massa não é encarado como uma derrota coletiva para toda a humanidade, só os sobreviventes sabem o quão pesada é essa página da nossa história.


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