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Jornalista a sangue frio

Stefany Oliveira


Filme dirigido por Bennett Miller expõe a trajetória do excêntrico precursor do New Journalism no processo de criação de um dos maiores livros do gênero.



(Pôster do filme "Capote" / Reprodução: Sony Pictures Entertainment/United Artists)


Foi lendo The New York Times que Truman Capote entrou em contato com a notícia do assassinato de um rico fazendeiro e sua família numa pequena cidade do Kansas. Acreditando que, nas mãos certas, qualquer história real poderia se transformar em arte, o autor, já conhecido por Bonequinha de Luxo (1958), decidiu que era sobre o fim trágico da família Clutter que iria escrever. Quando viaja ao centro-oeste dos Estados Unidos, Capote sente que a história, que até então seria uma matéria para o The New Yorker, tinha potencial para se transformar em livro, dando origem a um dos maiores best sellers da época: A Sangue Frio (1966).


O monocromático da cena inicial do filme Capote frisa a tranquilidade da cidade que foi palco dos assassinatos e faz paralelismo ao começo do livro de Truman: “A aldeia de Holcomb fica situada no meio dos planaltos de trigo, no Oeste do Kansas, numa área isolada que os demais habitantes do estado chamam ‘lá para diante’”. E é nessa ambientação de tranquilidade do município de Holcomb que, quando abalada, culmina na produção do livro precursor do jornalismo literário.


Capote já vinha do ‘glamour’ e dos holofotes, se cercava da alta sociedade, promovia bailes e tinha uma invejável lista de contatos composta, principalmente, por socialites magras e elegantes que eram apelidadas de “cisnes”. Homossexual assumido numa era extremamente preconceituosa, se apresentava com a confiança e a vaidade de quem é a pessoa mais interessante de qualquer situação.


A personalidade nova-iorquina de Truman Capote contrastava com a simples, pacata e conservadora cidade do interior do Kansas. Nesse contexto, a convocação de Nelle Harper Lee fazia todo sentido. Foi com a ajuda da grande escritora e amiga de infância que Capote conseguiu entrevistar as pessoas em volta da família Clutter, que a princípio se sentiam intimidadas na presença do jornalista, e traçar o perfil e as relações dos membros da família assassinada.


Como na época da produção do livro não existiam muitas tecnologias de suporte aos escritores e poucas pessoas permitiam que gravações e anotações fossem feitas, as descrições das entrevistas ocorreram por memória, um talento que Truman fazia questão de destacar.


Quando os acusados pelo Massacre de Holcomb são capturados faz-se fundamental para a composição da obra que esses também sejam entrevistados. Capote não hesita em criar uma amizade com Perry Smith e Dick Hickock para que sejam reveladas as escolhas e circunstâncias que os levaram à fatídica noite de 14 de novembro de 1959. Com a maior aproximação de Capote a Smith, surgem boatos de uma relação amorosa entre eles. Ao ser questionado sobre os boatos, o jornalista explica o motivo de sua empatia para com o criminoso: “É como se Perry e eu tivéssemos crescido na mesma casa e um dia ele se levantou e saiu pela porta de trás, enquanto eu saí pela da frente”.


Os contextos dos massacres foram se delimitando até que Perry detalha a noite dos assassinatos. Sabendo por um ex-companheiro de cela que uma família guardava dez mil dólares em um cofre mal protegido numa cidadezinha do Kansas, Perry Smith e Dick Hickock decidem invadir a casa dos Clutters e fazê-los de refém. Após amarrar os quatro integrantes da família, os criminosos não conseguiram achar a quantia prometida e, com medo de deixar testemunhas, mataram a todos. Ao deixar a cidade, os bandidos embolsaram uma quantia que não passava de cinquenta dólares.


No filme, Truman aponta a dualidade do estilo de vida americano: a vida quieta e conservadora da família Clutter e a vida escondida, criminosa e violenta de Perry Smith e Richard Hickock, mundos que se convergiram na noite sangrenta de 14 de novembro de 1959. A análise desse contraste foi o propulsor da realização da obra para o escritor.


A atuação de Philip Seymour Hoffman lhe rendeu um Oscar e a aclamação da crítica. Melindroso, egoísta, de voz fina e afeminado, seria fácil que a representação de Capote caísse no limbo de uma caricatura. A genialidade do ator e do diretor Bennett Miller não o permitiu. Hoffman preferia que os personagens que ele interpretou fossem lembrados e então que sua figura viesse à mente. Hoje, anos após sua morte, seu talento não pode ser visto de forma subjacente a seus personagens, por mais históricos que eles sejam.


O filme Capote também se destaca por não esconder as falhas e defeitos de Capote. Muito disso acontece pela adaptação do roteirista Dan Futterman à biografia escrita por Gerald Clarke. Outra escolha de Futterman foi deixar de fora a infância e velhice de Capote para focar nos anos mais interessantes de sua vida e que deram origem a obra-prima do escritor. Capote foi indicado ainda ao Oscar de melhor filme, diretor, roteiro e atriz coadjuvante (Catherine Keener). Em entrevista, Philip Seymour Hoffman admitiu que na composição da vida de Capote a linha entre paródia e perfeição seria fina com uma navalha. Mas, ao assistir ao filme é possível atestar com empolgação em qual lado a obra cinematográfica ficou.


Em suma, Capote é a reconstrução da relação obsessiva e desgastante de um escritor com seu trabalho e consigo mesmo. Truman Capote morreu no dia 25 de agosto de 1984 deixando apenas obras inacabadas após o lançamento de A Sangue Frio. Dezoito anos após publicar o livro que mudou os parâmetros da escrita, e muito por conta das consequências de sua própria escrita, seus problemas com o alcoolismo pioraram e uma combinação de álcool e barbitúricos lhe foi fatal. Capote deixou uma bibliografia cinematográfica e se fez inesquecível nos livros e nos filmes.

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