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Entre pandemia e censura, o jornalismo luta para sobreviver

Atualizado: 15 de out. de 2020

Rosamaria Santos


Se jornalismo de qualidade exige coragem, senso crítico e boa redação, Dom Phillips pode se orgulhar de ter cumprido o seu dever. Em sua reportagem Brazil stops releasing Covid-19 death toll and wipes data from official site (Brasil deixa de divulgar número total de mortos por Covid-19 e limpa dados do site oficial, em tradução livre), o correspondente internacional do jornal britânico The Guardian, consegue explicar, em poucas palavras a confusão causada pela mudança na forma de documentação de casos de coronavírus, além de denunciar a censura no Brasil "democrático". Um texto perfeito para quem quisesse um aparato geral das últimas notícias do Brasil sem ter que ler vários jornais para entender.


(Print da página da reportagem no The Guardian)


No dia 06/06, o presidente Jair Bolsonaro deu ordens ao Ministério da Saúde para que mudasse a forma de divulgação de dados de Covid-19. Logo depois, foi para o Twitter caçoar do Jornal Nacional devido aos seus conflitos com a Globo. Se para nós, que estamos acompanhando a tudo isso, essa já parece uma situação surreal, imagine a dificuldade de ter que explicar essa história aos leitores de diversos países.


De forma corajosa, o correspondente internacional do The Guardian no Brasil, Dom Phillips, entre erros e acertos, se aventurou nessa missão. Logo no subtítulo, a matéria apresenta como o caso foi visto no país: “governo é acusado de censura e totalitarismo”. Sabendo que talvez nem todos os leitores estivessem cientes da progressão da doença no Brasil, informação importante para entender a gravidade da decisão do chefe de Estado brasileiro, o jornalista inicia seu texto trazendo dados da Universidade Jhon Hopkins sobre a quantidade de contaminações no país. Em seguida, a matéria apresenta um gráfico da mesma instituição de pesquisa e ensino que mostra a escalada no número de mortes, até aquele momento, quase ultrapassando a Itália.


Dadas as informações cruciais para nortear o leitor, é iniciado o momento de se aprofundar no assunto. Em alguns pequenos parágrafos, o jornalista expõe a mudança na divulgação de dados e a reação das instituições à ela, principalmente a ação da Promotoria, passando pelas falas do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.


Nesse momento, nem todos que liam poderiam estar entendendo a fundo a motivação do presidente para a ação. Diante da necessidade de se falar dos efeitos danosos da mudança no combate à pandemia, um dos crimes cometidos acaba aparecendo de modo discreto: o controle da mídia. Phillips explica as tentativas de Bolsonaro de selecionar o conteúdo exibido pela imprensa de maneira rápida, sem entrar em detalhes sobre a briga entre o chefe do executivo e a Globo. Para isso, cita o tweet de Bolsonaro e a fala do governador do Pernambuco, Paulo Câmara.


Devido a importância da imprensa para a democracia, o jornal deveria ter abordado o assunto de maneira mais explícita, trazendo outros casos de censura já cometidos por Bolsonaro. Apenas em 2019, foram 116 ataques à imprensa segundo dados da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas). Algumas das ações mais recorrentes são ofensas à honra dos jornalistas e à credibilidade dos veículos de comunicação. Apesar de não relembrar esses episódios, o entendimento de que o Brasil não garante a liberdade de imprensa, prevista na constituição, fica claro ao leitor pelas falas dos entrevistados. Somado a isso, vem também a incerteza quanto ao futuro do jornalismo aqui.


O saldo da matéria? É uma boa reportagem para pensar em diferentes maneiras de transmitir histórias complicadas a um público heterogêneo em poucas palavras. Para aqueles que almejam trabalhar com jornalismo internacional, a leitura do texto é um exercício de leitura vital. É desafio do repórter equilibrar a missão de ultrapassar a barreira da complexidade, simplificando fatos e notícias para facilitar o entendimento de um leitor estrangeiro, e informá-lo corretamente, sem perder o foco na máxima jornalística da busca pela verdade. Nesse caso, apesar dos percalços, a inspiração em jornais que cumprem esse trabalho, como o The Guardian, é recomendada. Caberia reajustes à matéria de Dom Phillips? Óbvio! Quem disse que é fácil explicar o Brasil?


Link da matéria: https://www.theguardian.com/world/2020/jun/07/brazil-stops-releasing-covid-19-death-toll-and-wipes-data-from-official-site

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