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Documentário “O Corte de Cabelo” aborda ocidentalismo da grande mídia internacional

Gabriel Puga


Protagonizado e produzido por Alex Apollonov e Aleksa Vulovic, dois jovens comediantes australianos donos do canal do Youtube Boy Boy, o documentário The Haircut (em português, O Corte de Cabelo) aborda a forma como o regime norte-coreano é retratado na mídia.


Imagem: Reprodução/Youtube


Depois de assistirem a diversas reportagens na mídia ocidental sobre como, na Coreia do Norte, os hábitos mais cotidianos da vida da população são controlados, Alex e Aleksa decidem investigar o assunto. Curiosos, resolvem viajar ao país com o único objetivo de cortar o cabelo, para descobrir se a notícia de que todos os norte-coreanos deveriam usar o mesmo penteado que Kim Jong-Un, lider supremo da Coreia do Norte, tida como inquestionável por todo o Ocidente, tinha bases na realidade.


Antes de viajarem, Alex e Aleksa entrevistam diversos homens da cidade de Newton, na Austrália, tida como uma cidade de livres decisões, o oposto do que se retrata da Coreia do Norte. Ao perguntarem sobre a suposta proibição no país asiático, todos concordavam que aquilo era um absurdo. O curioso, porém, é que todos tinham o mesmo corte de cabelo, sem precisar de qualquer lei para determinar isso. O documentário sugere, portanto, que aquilo mostraria que a liberdade dos países capitalistas talvez não seja tão maior do que a do lado norte da península coreana.


Com 20 minutos de duração, o filme aborda o que, na visão da mídia hegemônica, pode acontecer na República Popular Democrática da Coreia. São mostradas matérias em jornais televisivos sobre, por exemplo, como os norte-coreanos acreditam ter descoberto a existência de unicórnios. Segundo o documentário, no entanto, as principais matérias sobre o país têm como fonte a Rádio Free Asia, que, financiada pelo governo estadunidense, baseia suas principais notícias (inclusive a do corte de cabelo) em fontes anônimas.


No Brasil, essas notícias sem fontes comprovadas também repercutem com frequência. Em 2014, por exemplo, a revista Veja publicou uma matéria falando que no dia 8 de julho era proibido sorrir na Coreia do Norte. Todos os anos, algum outro veículo de comunicação publica a mesma notícia, porém sem qualquer preocupação de provar a veracidade da notícia. Parece que, quando o assunto é Coreia do Norte, não existe ética jornalística.


Para além da reflexão sobre a veracidade das notícias, o filme estimula um debate sobre o caráter parcial da escolha das palavras. Enquanto nos EUA há prisões, na Coreia do Norte há campos de prisioneiros. Enquanto nos EUA há um exército, a Coreia do Norte tem um esquadrão da morte. Para a Alex e Aleksa, isso faz parte de um projeto de criação de um inimigo comum.


Explicada a mensagem principal do documentário, resta responder: afinal, na Coreia do Norte só se pode ter o corte de cabelo de Kim Jong-Un? Aleksa Vulovic se voluntaria, com seus cabelos que passam dos ombros, a descobrir. Os dois homens vão até um salão no país e, surpreendentemente, a cabeleireira faz exatamente o corte de cabelo que Aleksa pediu, sem nem questionar.


Para não dizer que realmente foram para o país apenas para cortar o cabelo, os dois protagonistas do documentário decidem explorar mais o território, principalmente a capital, Pyongyang. Para a surpresa do Ocidente, na Coreia do Norte há danças, festas, circos, parques aquáticos, como em todos os outros países! Vários cidadãos, inclusive, aparecem nas gravações, sorrindo!


Se sorriem porque gostam do governo ou porque ouviram uma piada muito boa, não é um debate que cabe travar nesse texto. Fato é, entretanto, que o documentário O Corte de Cabelo propõe reflexões importantes sobre ética jornalística, imparcialidade e interesses políticos no jornalismo, estimulando o telespectador a investigar a veracidade dos conteúdos que consome.


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