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Diversidade racial nas redações: o mito da representatividade

Atualizado: 15 de out. de 2020

“Letra preta” desconstrói o discurso de inclusão no jornalismo a partir da perspectiva de uma repórter negra

Juliana Sorrenti

(Crédito: Caio Borges/revista piauí)


A aparência de uma pessoa que não conhecemos nem sempre é uma incógnita para as nossas criativas mentes. Aprendemos a aceitar e reproduzir estereótipos desde que balbuciamos as primeiras palavras. Um dos gatilhos é a questão profissional: se soubermos com o que o desconhecido trabalha, uma imagem é construída quase imediatamente. Voltando para a área da comunicação, um questionamento interessante seria perguntar como você imagina um jornalista. Na sociedade pós-moderna, com a difusão de pautas feministas ao grande público e o vocabulário girl power na ponta da língua de qualquer menina pré-adolescente, é provável que você pense em uma mulher. Outro detalhe, esse mais assertivo e importante: você imaginou uma pessoa branca.


Essa tendência do subconsciente é espelho da hegemonia racial nas redações. Enquanto a diversidade torna-se a grande protagonista na mídia, atraindo um público progressista, nos bastidores ela é quase inexistente e não atravessa o espectro do discurso. Ano passado, esse debate ganhou novos contornos com a publicação do ensaio Letra preta na revista piauí. Escrito por Yasmin Santos, ex-aluna da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o texto foi adaptado de sua própria monografia. Transpassado pelas experiências pessoais da repórter – enquanto mulher, negra e vinda da Zona Oeste do Rio – ele explica a situação dos jornalistas negros na imprensa brasileira a partir do lugar de fala da jornalista e de dados coletados com outros profissionais pretos da comunicação. Neste mês, Yasmin é uma das convidadas do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji para um painel sobre racismo dentro e fora das redações.


No ensaio, não há neutralidade, imparcialidade ou qualquer máxima jornalística que preze pelo distanciamento do autor e a história. Outra quebra de protocolo é a questão da perspectiva. A jornalista assume duas posições distintas. Como profissional de comunicação, sua função é dar voz ao outro, intermediando o contato entre o leitor e a notícia. Por outro lado, levando-se em conta a própria identidade racial, ela é sujeito nessa história, sofrendo com a solidão proporcionada pelo racismo experienciado na profissão. A autenticidade e genialidade do texto nasce, justamente, nessa mistura improvável entre autor e personagem. Une-se o talento e a técnica profissional com a carga emocional da própria vivência.


Em críticas de cinema, é comum trazer o conceito da catarse como um dos critérios avaliativos para determinar quantas estrelas douradas um filme conquistou. No ensaio – ao menos parcialmente – há certa singularidade que somente é explicada por esse sentimento de purificação. Para aqueles que compartilham entre si o privilégio branco, o texto provoca, no máximo, reflexão e empatia – reações e sentimentos louváveis, mas que não lavam a alma de quem os sente. Para jornalistas negros, a sensação de identificação é inegável: é ver o seu povo representado nas páginas de uma revista conceituada, num texto escrito por uma pessoa preta, contando as dores de praticar uma profissão majoritariamente branca e lembrar de si mesmo, dos apagamentos e das exclusões.


Aos 22 anos, Yasmin Santos compara-se com Nikole Hannah-Jones, criadora e líder do The 1619 Project no New York Times, que busca reexaminar o legado da escravidão nos Estados Unidos. Ainda que o ensaio brasileiro não tenha sido premiado tal qual o projeto norte-americano, que recebeu o Prêmio Pulitzer, ambos trazem as questões raciais para o centro do debate por meio de mulheres negras.


Existem inúmeros motivos para recomendar a leitura de Letra preta a jovens jornalistas. No entanto, a importância do texto reside na resposta de três questões simples. Quem escreve? O que escreve? Por que o escreve? Yasmin Santos – mulher, negra e suburbana – tematiza sobre diversidade racial nas redações a partir de sua própria experiência, esperando que, você, caro leitor, lute pela mudança que o jornalismo precisa. Temos pressa.


Link para a matéria: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/letra-preta/


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