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Clássico de Fellini retrata o amargor das relações humanas pelos olhos de um jornalista

Julia Filgueiras


Clássico do diretor italiano Federico Fellini, A Doce Vida (1960) retrata a vida de Marcello Rubini (Marcello Mastroianni), um jornalista que cobre o mundo de “fumo, bebida e cama” das celebridades e integrantes da alta sociedade romana. Nessa narrativa episódica, o protagonista vive uma vida hedonista, de prazer como o bem supremo, finalidade e fundamento da vida moral. No entanto, apesar das aparências de felicidade, amor e milagre que presencia, todas as situações apresentam o mesmo grau de falsidade.


Sylvia (Anita Ekberg), a atriz americana que Marcello acompanha em sua visita a Roma, com toda beleza, bondade e inocência, é um símbolo de superficialidade. Na clássica cena da Fontana di Trevi, ao vê-la sensualizando nas águas da fonte, Marcello exclama: “Estamos todos errados!” e vai ao seu encontro - mas não fica claro a que erro ele se refere. Quando estão prestes a se beijar, a água para de correr e o dia amanhece. O diálogo entre os dois, mesmo com toda a potência da cena, é quase inexistente: o repórter não fala inglês, e a atriz não fala italiano. O conteúdo está justamente na incomunicabilidade, no vazio.

(Sylvia e Marcello na Fontana di Trevi / Imagem: Reprodução)


Paralelamente, o protagonista mantém relações com outras duas mulheres: Emma (Yvonne Furneaux) e Maddalena (Anouk Aimée). A primeira oferece um casamento tradicional, um amor “agressivo, pegajoso, maternal”, nas palavras de Marcello - que a rejeita, mas não consegue deixá-la. A segunda é uma “mulher moderna”, que participa do círculo social do jornalista e é mais receptiva com seu estilo de vida e poligamia. Em dado momento, quando são convidados para uma festa em um castelo de uma família de elite, os dois se encontram por acaso e conversam sobre casamento através de uma espécie de alto-falante, cada um em um quarto diferente, sem conseguirem se ver. Marcello demonstra interesse na proposta de matrimônio, mas Maddalena subitamente para de respondê-lo e começa a beijar outro homem. Assim, as histórias vão se complementando em um tom cínico e desiludido, traçando um cenário de profunda distância emocional entre todos os personagens.


De forma ainda mais escancarada, Fellini mostra que a farsa da “doce vida” não se atém apenas às pessoas que podem de fato vivê-la, isto é, à burguesia italiana na qual Marcello transita. Em outra passagem do filme, o jornalista vai cobrir a história de duas crianças que teriam visto a Virgem Maria num campo no subúrbio de Roma. Há uma multidão de pessoas debaixo de chuva esperando que as crianças indiquem uma nova aparição: doentes procurando redenção, curiosos disputando galhos da árvore onde a Madonna foi avistada como souvenirs da ocasião. Nesse momento, fica explícita a crítica ao sensacionalismo, à comoção exacerbada de todas as classes sociais com histórias emocionantemente forjadas.

(As crianças, os devotos e os repórteres esperando por uma nova aparição da Madonna/

Imagem: Reprodução)

(A família das crianças posando para as fotos conforme os paparazzi pedem/ Imagem: Reprodução)

O diretor, que neste ano completaria 100 anos, antes de se consagrar no cinema, trabalhou ele mesmo como jornalista e caricaturista em uma revista satírica de grande destaque em sua época, a “Marc’Aurelio”. Talvez por isso sua análise seja tão assertiva, capaz de remodelar a realidade: o próprio termo paparazzi, amplamente utilizado hoje, surgiu por conta de um personagem de A Doce Vida, o fotógrafo Paparazzo (Walter Santesso). Através de imagens extravagantes, que compõem um universo onírico de redenção para as vidas miseráveis de seus personagens, Fellini formula uma crítica social que, no entanto, é também um tanto autobiográfica.


O jornalismo na obra é, portanto, a representação do esvaziamento das relações: a “entidade” para a qual se finge uma alegria, um milagre, ou se relata um drama familiar. A profissão do protagonista é o que dá sentido à sua própria vida, à medida em que a noticia como se nela houvesse alguma consistência, como se fosse uma vida a se almejar - construindo fantasias para seus leitores.


Marcello é consciente da futilidade de seu trabalho, e é por isso que se encanta pela possibilidade de dedicar-se integralmente a sua produção literária. Isso fica claro no episódio em que Marcello e Emma visitam a casa de Steiner (Alain Cuny), um amigo intelectual que o incentiva a investir na carreira de escritor. Porém, mesmo nesse reduto de promessas para uma vida “mais verdadeira”, o jornalista não encontra um parâmetro estável de admiração. Mais à frente no filme, Steiner comete suicídio após assassinar seus dois filhos - o que também se torna, é claro, um grande acontecimento midiático.


Assim, mergulhado em sua própria decadência e decepção, o jornalista abandona sua ambição de se tornar escritor e começa uma carreira na publicidade. Historicamente contextualizado, este detalhe do filme não é necessariamente uma crítica ao jornalismo ou à publicidade em si. Mas, diante de tantas cenas de total falta de humanidade e da jornada de Marcello a um estado cada vez mais degradante, fica claro que a profissão do protagonista é essencial para a transmissão de uma visão muito dura quanto ao papel da mídia na construção de uma sociedade pós-guerra. Ainda mais fútil e autoindulgente, uma sociedade-propaganda de um padrão de “vida feliz” que só produz melancolia na vida real.


Nesse sentido, o filme continua muito atual. Ainda que os hábitos sejam outros, os parâmetros de vida feliz pouco mudaram no imaginário social. Não só o jornalismo de fofoca ainda existe, mas apenas se expandiu em essência, com a chegada das redes sociais. A riqueza, a bebida, o fumo, o sexo - esses são os valores e atributos de um bon vivant da década de 60 e de boa parte dos influencers de hoje.

(Pôster do filme/ Imagem: Reprodução)

Marcello não encontra satisfação em nenhuma de suas relações, mesmo com toda a fartura dos ambientes que frequenta. As personalidades que o cercam não são bem como prometem, não fazem jus a fantasia que coloca sobre elas na mídia e em sua própria mente. Por muitos, A Doce Vida é entendido como uma espécie de ode à beleza da vida quando se tem dinheiro, à beleza da festa, dos luxos, da embriaguez. E é de fato muito bonita, principalmente nas lentes de Fellini. Mas a provocação do filme é outra: essa “doçura” toda esconde um sabor bem amargo.


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