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“Christine: Uma História Verdadeira” relembra suicídio de jovem jornalista nos anos 70

Clara Quinteiro Hernandez


“Seguindo a política do Canal 40 de brindar seus telespectadores com as últimas notícias de sangue e vísceras a cores, vocês estão prestes a ver outra notícia em primeira mão: uma tentativa de suicídio”. No dia 15 de julho de 1974, a jovem jornalista Christine Chubbuck, de apenas 29 anos, vai ao ar com seu programa Suncoast Digest. Era segunda-feira e o noticiário da cidade de Sarasota, na Florida, traria os últimos acontecimentos e assuntos da comunidade. E trouxe. A repórter profere o que viriam a ser as suas últimas palavras, saca um revólver e dispara um tiro atrás da própria orelha. Ao vivo. Christine: Uma História Verdadeira (2016) é amargo. E como o próprio título premedita, é uma história real.


Dirigido pelo meio-brasileiro Antonio Campos, o longa narra as últimas semanas da jovem Christine Chubbuck (Rebecca Hall), com todas as dificuldades da sua vida profissional e pessoal. A ambiciosa repórter trabalha numa emissora de baixa audiência, tem poucos amigos, uma vida social quase inexistente e um amor não correspondido. Apesar de estar chegando na casa dos 30, mora com a mãe (J. Smith-Cameron) e sente-se abandonada quando ela entra num relacionamento. Como se não bastasse, vive com fortes dores abdominais, fruto de um cisto no ovário que precisa ser retirado. A cirurgia impossibilitaria Christine de engravidar. Nesse turbilhão de frustrações, a jornalista tenta alavancar sua carreira travando uma luta solitária contra a depressão. Estreado com sucesso no Festival Sundance, o filme conduz minuciosamente essa descida em espiral de mal a pior da personagem-título.


Boa parte do longa é ambientada na emissora em que Christine é repórter, em Sarasota. Ela integra a equipe que produz o noticiário local, ao lado do âncora George Peter Ryan (Michael C. Hall), da jornalista de esportes Andrea Kirby (Kim Shaw), com Steve Turner (Timothy Simons) na previsão do tempo e Jean Reed (Maria Dizzia) como operadora de câmera. É um bom filme para acompanhar o telejornalismo de perto, pelos bastidores. Com cenas de coberturas nas ruas, reuniões de pauta e manuseio de equipamentos (câmeras, filmes etc), podemos ver um pouco de como se fazia jornalismo para TV nos anos 70. A correria da produção de um noticiário ao vivo também é retratada de forma realista. Para construir esses momentos, as falas dos jornalistas que estão na bancada se misturam com as orientações dos operadores, cinegrafistas e editores de imagem que estão nos bastidores. Alterna-se também a própria imagem do âncora: ora vemos o enquadramento que apareceria na TV para os telespectadores – o produto final –, ora vemos todo o estúdio e a estrutura por trás disso. E mesmo que, em termos técnicos, muitos processos tenham mudado e se modernizado, é bacana reparar como o frenesi da redação de um telejornal ao vivo continua o mesmo. Alguns diálogos do filme poderiam ser facilmente escutados nas redações de hoje.

(Da esquerda pra direita: Andrea, George e Christine na gravação do Suncoast Digest/ Imagem: Reprodução)


Durante a trama, a equipe está sob intensa pressão do chefe, Michael Nelson (Tracy Letts), para aumentar a audiência do canal. Para ele, a solução é produzir reportagens mais atraentes, cobrindo violência e outros temas fortes que atraiam a atenção dos telespectadores. “Se sangra, é notícia” (“If bleeds, it leads”), ele defende. Christine, que sempre fez reportagens positivas, de cunho social e comunitário, se vê numa batalha contra Mike, que aposta todas as fichas na sensacionalização das notícias. Mais do que isso, Christine se vê numa batalha contra si mesma. A jornalista quer ser promovida e trabalhar numa emissora maior, e o único jeito de ser levada a sério para a oportunidade de emprego seria cedendo aos ideais do diretor.


Christine: Uma História Verdadeira além de biográfico, também é uma crítica ao sensacionalismo jornalístico – crítica que não é novidade no cinema. Nos anos 50, o clássico A Montanha dos Sete Abutres foi pioneiro em condenar essa estratégia. Sessenta e cinco anos depois da obra de Billy Wilder, Campos usa a história da jovem repórter para tratar dos limites desse mesmo sensacionalismo, dessa vez na televisão. O personagem de Letts personifica o jornalismo corporativo, que passou a deixar de lado assuntos de interesse público caso eles não garantam audiência. Vale apelar para reportagens violentas, afinal, quanto mais exageradas, mais rentáveis. O filme ilustra principalmente os efeitos prejudiciais dessa pressão sensacionalista sobre uma protagonista já mentalmente desestabilizada.


Para agravar a condição de Christine, ela não consegue a promoção no emprego, o que a deixa ainda mais abalada e instável. Nesse ponto, é imprescindível ressaltar o maior destaque e acerto do filme: a atuação de Rebecca Hall. A britânica não traduz apenas uma mulher deprimida que comete suicídio. Ela vai além. É magnética na mesma medida que é perturbadora. Hall evoca a Christine Chubbuck ambiciosa, mas bem intencionada. Perfeccionista, tensa, paranoica, reprimida e com baixa autoestima. Que não consegue se relacionar com as pessoas. Mas também uma Christine exigente, criativa, com um excelente olhar jornalístico e humor irônico. Seu chefe, apesar de todos os conflitos, sabe que ela é a mais inteligente da equipe. Das explosões de raiva aos mais sutis trejeitos, olhares e expressões, a atriz acompanha as nuances do estado mental de desequilíbrio da repórter.

(Rebecca Hall como Christine Chubbuck / Imagem: Reprodução)


Também contribuindo para o mérito do filme, o roteiro de Craig Shilowich consegue criar uma empatia e cumplicidade entre o público e a personagem. Christine não é agradável, na verdade, gera certa estranheza e incômodo, mas simpatizamos com ela. E apesar de parecer impenetrável, podemos ver toda sua vulnerabilidade. A jornalista é voluntária num hospital infantil, apresentando teatro com fantoches. São nas sequências de diálogos entre os coloridos See Saw e Srta. Tangerine que entendemos um pouco mais do que se passa em sua cabeça. Paradoxalmente, é com uma linguagem infantilizada que ela revela toda a sua complexidade. Talvez sejam esses os momentos mais sensíveis do filme.


Christine, por fim, arquiteta a própria morte. Entre as folhas do script do noticiário do dia 15 de julho, ela escreveu também suas últimas palavras, que foram lidas ao vivo. Antonio Campos é atencioso ao mostrar as camadas e tenuidades de uma doença mental tão devastadora, que Rebecca Hall traz às telas de forma hipnotizante. Christine Chubbuck levou ao pé da letra a ordem de procurar notícias sangrentas virando a própria notícia. Christine: Uma História Verdadeira é amargo. É crítico, sensível e impactante. Não é para qualquer um. Mas deveria ser para todo jornalista.


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