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‘‘A Montanha dos Sete Abutres’’ é a prova de que o sensacionalismo nunca sai de moda

Fernanda Mendes


Lançado em 1951, A Montanha dos Sete Abutres se destaca por sua atemporalidade. E, antes de tudo, sei que não é todo mundo que tem paciência pra ver um filme desse tipo. Ele é antigo, em preto e branco (sim, é em preto e branco, não se enganem pelo pôster) e tudo bem ter essa "preguiça". Mas deem uma chance, por favor, juro que vale a pena. O filme traz o jornalista Charles Tatum – interpretado de forma impecável por Kirk Douglas – à procura de um “furo”, uma reportagem exclusiva, após tentativas frustradas de conseguir emprego em grandes jornais. Mas, até então, não podemos julgá-lo, a princípio, Charles só quer ser famoso. Todos nós temos nossos sonhos. Ao chegar em uma cidade do interior, onde começa a trabalhar em um pequeno jornal local, seu chefe o envia para fazer a cobertura de um evento de caça às cobras, tradicional na região.

(Pôster do filme/ Imagem: Reprodução)


Apesar da sua busca pelo grande “furo”, o jornalista aceita a ordem de seu chefe – convenhamos, ele não tinha nada mais interessante para fazer mesmo. E é no decorrer dessa viagem que ele se depara, em uma cidade vizinha, com um acidente em uma mina de carvão – conhecida como a Montanha dos Sete Abutres, que dá nome ao filme (ah, jura?). O dono do posto de estrada que fica próximo à mina, Leo Minosa (Richard Benedict), foi soterrado e, ao invés de Charles buscar ajuda, ele decide que ali estaria seu tão esperado “furo”. E logo começa a espetacularização do terrível acidente. Aqui já podem começar a julgá-lo, se quiserem.


Vale ressaltar que o diretor do filme, Billy Wilder, foi amplamente criticado por outros cineastas da época pela ideia de fazer uma sátira à classe de jornalistas. Como seria capaz de julgar um jornalista? Aquela figura que representaria a ética e a imparcialidade na nossa sociedade, não é mesmo? São justamente essas questões que tornam o filme atemporal. A crítica ao sensacionalismo nos anos 50 continua forte em uma sociedade que preza tanto por sua evolução, mas que, ironicamente, permanece estagnada em seus valores éticos.

Mas parece que o jogo virou para os cineastas que tanto o criticaram. Além de o filme de Billy Wilder ter sido indicado ao Oscar de melhor roteiro no ano de lançamento, ele se mostra mais atual do que nunca – provando que o título do texto não é à toa, o sensacionalismo, de fato, nunca saiu de moda.

(Charles Tatum ao encontro de Leo Minosa no acidente/ Imagem: Reprodução)


O jornalista usa dos conhecimentos que tem sobre a história do local, considerado como amaldiçoado, e a situação de Leo Minosa em benefício próprio – apesar de início parecer que ele estaria dando reconhecimento a um trágico acidente ocorrido a pessoa comum, o que facilmente teria sido ignorado pela população. E aqui cabe lembrar de uma cena muito interessante em que Charles pergunta a Leo Minosa se ele está sentindo confortável debaixo dos entulhos, quase dando a entender que poderia haver algo de ético no jornalista. No entanto, a intenção era de deixá-lo mais tempo naquela situação.


Além disso, consegue manipular as pessoas em torno, fazendo o roteiro do filme explorar ainda mais o lado negativo desse jornalismo sensacionalista – se é que existe um lado positivo. Esperto ele, não? Não mesmo, só um mero oportunista. Mas, de qualquer forma, é importante analisar como funciona esse mesmo sensacionalismo arquitetado por ele, que, ainda hoje, é muito utilizado por veículos de comunicação com a intenção de cativar seu público alvo. Ele sabe que quanto mais a história durar, maior vai ser o alcance dela e, consequentemente, mais olhares curiosos serão atraídos para o lugar em questão. Dessa mesma forma funciona o jornalismo sensacionalista: tendo como objetivo principal aumentar, ou apenas manter, a quantidade de seu público, busca noticiar temas que tenham maior apelo da população. Assim, seguindo a fórmula da mídia sensacionalista, Charles consegue fazer com que pessoas cheguem aos montes no local do acidente, transformando toda a situação em um verdadeiro circo.


O filme traz uma ótima oportunidade de estudarmos seus personagens. Desde a figura ambiciosa de Charles Tatum, afogado no seu próprio egoísmo, até a figura sensível de Lorraine (Jan Sterling), esposa de Leo Minosa, facilmente influenciável pelo jornalista. Mas a história não tem só um ‘‘vilão’’ e, por isso, Billy Wilder faz questão de explorar também a ganância das pessoas que se aproveitam desse jornalismo corrupto para tirarem vantagem. Não vamos ser ingênuos achando que tudo seria culpa de uma só pessoa, não é? Esse tipo de jornalismo se sustenta também por conta das pessoas que estão ao seu redor tentando tirar proveito – nada é tão ruim que não possa piorar. Aliás, é de forma muito interessante que o diretor consegue usar da comédia irônica e do drama ao seu favor para criar uma sátira a ética jornalística. E, assim, nos guiar a todas essas críticas – que estão até nos mínimos detalhes, como ao vestir o personagem de Charles com roupas pretas na maioria das cenas, em contraste com as roupas brancas dos demais – e nos fazer perceber ao longo do filme que o caráter dos personagens é moldado a partir de seus interesses.

Fiquem tranquilos, não vou contar como termina. No entanto, é importante refletirmos como, às vezes, podemos nos sentir facilmente atraídos pela forma como alguém espetaculariza uma narrativa, e não pela notícia em si. Inclusive, constantemente apontamos o dedo para o tio do WhatsApp que adora compartilhar fake news com manchetes supersensacionalistas em grupos, mas vale lembrar que somos tão alvos da desinformação quanto ele. Enfim, talvez você tenha chegado ao final desse texto porque achou a história curiosa, não sei. Mas quem garante que eu apenas não dei uma de sensacionalista em cima do filme para chamar atenção de quem está lendo? Bem, agora cabe a vocês tirarem suas próprias conclusões sobre o final da história depois que assistirem.

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