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A carreira de Quino, o criador de Mafalda

Um mês após seu falecimento, relembre a trajetória do cartunista

Victor Kallut

(Foto: Miguel Riopa)


No ano de 1963, um cartunista residente de Buenos Aires receberia uma proposta responsável por dar a ideia de uma das figuras mais icônicas do século XX. Ele foi chamado pela empresa de eletrodomésticos Mansfield para desenvolver uma personagem, com a intenção de promover os negócios da companhia através de tiras. O principal requisito da tarefa era que o nome da criação começasse com a letra M. A colaboração entre o artista e a firma nunca saiu do papel, mas o projeto de personagem sim, e se tornou o que hoje conhecemos como Mafalda.


Quino nasceu Joaquín Salvador Lavado Tejón, em 1932, na província argentina de Mendoza, e demonstrou, desde muito cedo, um interesse pela arte — ele ganhou o apelido para diferenciá-lo de um tio com quem compartilhava o mesmo nome. Inclusive, sua família no geral o apoiava a perseguir seu sonho, que já almejava desde muito novo: o de ser cartunista.


Na sua juventude, Quino já manifestava uma das características que seria marcante em Mafalda, sua personagem mais famosa: a aversão à escola. Extremamente tímido e sem muito entusiasmo pela sala de aula, ele preferia passar a maior parte do tempo fazendo seus desenhos, embora — como o próprio confessou — não fosse muito bom nisso. Foi convencido a continuar os estudos por sua mãe que, astuciosamente, lembrou ao filho que apenas sabendo ler e escrever era possível preencher os balões das HQs. Sendo assim, Joaquín concluiu o colegial e, posteriormente, ingressou na Faculdade de Belas Artes, em Buenos Aires.


Entretanto, ele não chegou a terminar a graduação. As mortes de sua mãe, em 1945, e de seu pai, em 1948, precederam a sua saída da universidade. Nesse cenário, abandonou o ambiente acadêmico a fim de se tornar um quadrinista e, apesar de receber ajuda financeira no início de sua empreitada, logo obteve pagamento por seus primeiros trabalhos em tiras para revistas e jornais da época.

(Imagem: Prensa Latina)


A campanha publicitária não foi adiante, mas a ideia da personagem permaneceu na mente do artista e, no ano seguinte, com a ajuda de um amigo, publicou os primeiros quadrinhos com Mafalda na revista Primeira Plana. Ironicamente, ela apareceu para o mundo com uma personalidade bem diferente da inicialmente requisitada pelos empresários da Mansfield. Questionadora, indagava a todos sobre as principais questões do mundo e, expunha para os leitores os temas mais tensos da contemporaneidade de Quino.


O papel da mulher na sociedade, as opressões estatais, o sistema educacional e até tópicos mais específicos como a Segunda Guerra e os conflitos na Espanha — estes mais íntimos do autor, por ser filho de andaluzes — eram assuntos das tirinhas da pequena menina que odiava sopa. Não havia pergunta que Mafalda não fizesse, até sobre os problemas mais agudos da sociedade.


Toda essa perspicácia da personagem, inclusive, fez Joaquín ser obrigado a viver na Europa durante a ditadura militar argentina, que durou de 1963 até 1973, justamente no decorrer da publicação das histórias. Apesar de propagar um humanismo universal e, devido a censura, não conseguir fazer críticas mais diretas ao regime, Quino sempre deixava em seus desenhos frases ou reflexões que iam de encontro à opressão.

(“BASTA DE CENSU” / Imagem: Reprodução)


Apesar de ainda bastante atuais, as tirinhas de Mafalda foram interrompidas em 1973, contando dez anos de publicação. Segundo o desenhista, além de temer que as histórias se tornassem repetitivas para o público, existia a queixa de, pela necessidade de enviar os quadrinhos com semanas de antecedência, era inviável tratar dos principais temas do momento. Alegando esses motivos e também problemas na construção dos cartoons, o autor resolveu parar com as publicações. Contudo, mais tarde o mesmo deu a entender que o medo de represálias políticas foi, de igual modo, uma das razões para que a obra chegasse ao seu final.


A despeito de todo o renome e prestígio que conseguiu com as histórias da garotinha, a rotina de confecção dos quadrinhos era bastante exaustiva para Tejón, o que fez com que ele ficasse desgastado física e mentalmente. Ele descreve como difícil o período em que a personagem esteve nos jornais e revistas, tendo dificuldade inclusive para repetir o traço dos desenhos que já faziam parte de sua rotina.


Durante muito tempo, as tirinhas foram publicadas diariamente. Por esse fator, a vida de Quino era muitas vezes resumida a seus personagens, e sua esposa, Alícia Colombo, doutora em Química, cuidava dos detalhes mais burocráticos para o marido. Para o escritor, o cotidiano que ele levava poderia facilmente acabar com seu casamento; por isso, agradecia o fato de sua companheira ser compreensiva. A ela, inclusive, dedicava todos os seus prêmios, incluindo o “Prêmio das Astúrias de Comunicação e Humanidades”, que venceu em 2014, na Espanha.

(Quino e Alícia / Foto: La República)


Alicia, que era integrante da Comissão Nacional de Energia Atômica — e abandonou o cargo devido ao extenso trajeto de ônibus que precisava fazer —, passou a atuar como agente de Joaquín, acompanhando-o até em entrevistas, devido a extrema timidez de seu cônjuge. Ela faleceu em 2017 e isso fez Quino retornar a Mendoza, sua cidade natal, para ficar na companhia de seus sobrinhos.


Nos momentos finais de sua vida, Joaquín Tejón desenvolveu glaucoma, o que acabou por lhe retirar a capacidade de desenho, embora já estivesse oficialmente aposentado da arte desde 2009. Em 30 de setembro de 2020, já com 88 anos, o criador de uma das personagens mais icônicas das HQs veio a óbito em decorrência de um acidente vascular cerebral.


Joaquín Tejón viu, ainda vivo, sua obra se tornar um ícone mundial e ser consagrada como uma das maiores expressões culturais do século XX. Ele é, sem dúvidas, um dos maiores autores argentinos de todos os tempos, e sua personagem, além de estar conectada com diversos jovens e adultos até os dias de hoje, expressa toda a genialidade do autor, que mesmo após quase 50 anos desde o fim de seus quadrinhos, permanece extremamente atual.


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