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Todos os esquemas do presidente

Stefany Oliveira


Livro de Mario Sergio Conti sobre o fenômeno Collor descortina as relações entre a imprensa e o primeiro presidente da redemocratização do Brasil.



Eugenio Novaes/Folha Imagem - 21.dez.91


A ideia de "Quarto Poder" se refere à influência do jornalismo na sociedade. O termo se origina nos Três Poderes do Estado Democrático (Executivo, Legislativo e Judiciário) e consiste na função jornalística de fiscalização desses poderes. Como um dos grandes exemplos do exercício do quarto poder, Notícias do Planalto: a imprensa e Fernando Collor traz um relato impressionante da campanha de Fernando Collor de Mello à presidência ao seu processo de impeachment, bem como a participação da grande mídia brasileira nesse trajeto.


A leitura de Notícias do Planalto tem o ritmo das redações de jornais mais entrosadas. Rápido, dinâmico, fluido, é no livro ganhador do Prêmio Jabuti que o jornalista Mario Sergio Conti narra, com a proximidade de quem entrevistou 141 pessoas, a história do presidente que foi erguido e derrubado pela imprensa brasileira e delimitou o perfil propagandista das futuras eleições do país.


O livro do ex-diretor da Veja, que foi lançado pela primeira vez em 1999 e relançado 13 anos depois com uma análise mais contemporânea da propaganda política, começa narrando as estratégias de Collor para chegar ao poder e sua relação com a mídia nesse processo. Relação essa que ganhou destaque na Gazeta de Alagoas, veículo de comunicação de quem é herdeiro, já em sua campanha para prefeito de Maceió e, logo depois, para a de governador de Alagoas.


Ao longo de todo o livro e passando por figuras como Assis Chateaubriand, Arnon de Mello, Roberto Marinho e outras grandes personalidades da mídia brasileira, o jornalista reporta a história das principais empresas de comunicação para entender a abordagem destas na campanha presidencial de 1989. Nas palavras de Conti: “Em boa medida, a cobertura política de um órgão de imprensa é produto de sua história”.


Collor foi diretor e protagonista na campanha eleitoral, sua relação com a mídia foi marcada pela espetacularização da figura heróica do “caçador de marajás”. Por todo ano de 1989 o até então governador de Alagoas esteve nos holofotes e, com seus discursos vazios e demagógicos, entrava aos poucos no cenário da política nacional tendo como porta de entrada a grande mídia, afinal Collor tinha o que os jornalistas caçavam: notícias, informa Conti.


A campanha milionária e inédita de Collor rendeu a presidência e as relações de poder já conquistadas permaneceram. Entretanto, o herói da luta contra o funcionalismo e a corrupção distanciou sua prática do seu discurso. Às vésperas de sair da prefeitura de Maceió, assinou uma autorização para contratar 5 mil funcionários que o fortaleceriam na campanha para o governo, durante sua campanha à presidência milhões de reais arrecadados não foram declarados e quando assumiu o Governo Federal o modus operandi continuou o mesmo.


Contudo, uma outra personagem se destaca na presidência de Collor, o tesoureiro de sua campanha começa a dividir o protagonismo e as contas com o presidente da república. Apontado por Pedro Collor como testa de ferro de seu irmão em diversos esquemas de corrupção no governo federal, PC Farias é uma figura emblemática da era Collor e peça chave para o desenrolar do processo de impeachment.


Assim, Notícias do Planalto se transformou em um marco na história do jornalismo nacional. O livro retrata, sem juízos e com poucos adjetivos, o interior do funcionamento do poder no Brasil. Escândalos revelados, que envolveram pagamento de propina para que veículos de imprensa falassem bem do governo e até os desdobramentos da morte de PC Farias, estiveram por muito tempo pautas das redações na época de divulgação da obra. Quando recebeu seu exemplar, na versão de 1999, Collor folheou algumas páginas. "Parece um relato importante de um período instigante da política nacional", declarou o ex-presidente. De fato, foi.

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