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Saving the Amazon: documentário mostra os lados da luta a favor ou contra a preservação da Amazônia

Grazielli Fraga


Disponível na plataforma de vídeos Youtube e realizado pelo programa de jornalismo investigativo da rede ABC australiana, Four Corners, o documentário Saving the Amazon, ou, em português, Salvando a Amazônia, mesmo tendo sido elaborado no começo do ano de 2020, apresenta situações muito atuais. A jornalista e diretora Sophie McNeill vai, com sua equipe, para as áreas afetadas pela destruição em busca de respostas para as perguntas do mundo inteiro sobre tal cenário.


(Capa do documentário Saving the Amazon / Imagem: Prime Video)


É notável a importância da floresta sobre o clima não somente do Brasil, mas também do mundo. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), a localização representa um terço de todas as florestas tropicais ao redor do globo, contendo mais da metade de toda a biodiversidade existente. Assim, desempenha um papel fundamental na regulação de toda a ecologia e seus processos, controlando o clima mundial ao garantir recursos hídricos, além de substâncias para combate de doenças e, principalmente, abrigo para povos indígenas.

Contudo, em janeiro de 2020, época da gravação do programa, de acordo com boletins do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o desmatamento atingiu 188 km² na Amazônia Legal. Esse número, no período de agosto do ano passado a julho deste ano, aumentou para 196 km², valor equivalente a mais de 27 mil campos de futebol.

A equipe jornalística, formada por Sophie McNeill, Sharon O’Neill e Naomi Selvaratnam, atravessa a floresta numa investigação sobre a destruição do bioma. Entrevistam indígenas, defensores da Amazônia, cientistas, ativistas, agricultores, pecuaristas, políticos e policiais, gerando um documentário embasado em dados científicos e a realidade da população diretamente afetada pela destruição do bioma.

Em uma floresta com, praticamente, 20% de sua extensão destruída pela exploração criminosa, aldeias indígenas lutam para salvar o que resta de suas casas. Na reserva indígena Araribóia, lar do povo Guajajara, os indígenas criaram o grupo “Guardiões da Floresta”, responsável por estar na linha de frente da luta, protegendo não somente animais, mas também outras aldeias mais isoladas.

No Maranhão, a aldeia nômade-caçadora Awá-Guajá está, por certo, ameaçada. Com o aumento desse desmatamento, a aldeia, que depende de um ambiente intacto e preservado para sobreviver, não consegue ficar muito tempo no mesmo local. Na entrevista, Franciel de Souza, chefe do grupo no Maranhão, afirma que, por serem isoladas, com a chegada desses criminosos, as aldeias “não estão mais em paz”. As consequências de tal contato podem ser catastróficas, de acordo com Cesar Munoz, defensor dos direitos humanos.


(Os Guardiões da Floresta atravessando o território / Imagem: Four Corners)


Apesar dos esforços dos agricultores para não assumir a autoria das queimadas, o fogo, segundo o GreenPeace, é sim deliberado, ou seja, causado por ações humanas. Isso ocorre porque o custo do desmatamento por queimada é mais barato, tanto para a agricultura quanto para a pecuária, afirma Cristiane Mazzetti, representante brasileira da organização. Contudo, segundo ela, devido a todos esses atos criminosos, é muito difícil ter conhecimento sobre quais madeiras exportadas são originárias de fontes legais ou não.

Atualmente, há a discussão acerca do Marco Temporal, proposta que, no momento de elaboração desta reportagem, sexta-feira (17/09) tem seu julgamento suspenso por tempo indeterminado após o pedido do ministro do STF Alexandre de Moraes. O projeto defende a demarcação de terras indígenas somente se houver a comprovação de que as mesmas já estavam ocupadas pelos povos na promulgação da Constituição brasileira, em 5 de outubro de 1988. As aldeias afirmam que a tese ignora os povos expulsos das terras ou mortos, além de negligenciar a conexão que essas populações têm com seus antepassados através desses locais e a preservação dessa cultura.

Nesse contexto, na floresta amazônica, segundo o programa, mais de 300 brasileiros foram mortos por defenderem a floresta. A situação dos indígenas e ativistas pode ser provada como nociva através de dois casos apresentados no documentário.

Um mês antes da equipe jornalística chegar à reserva, o guardião da floresta Paulo Paulino foi assassinado a tiros por madeireiros na floresta. Um dos exploradores também foi morto, porém, os guardiões vivem agora com medo de que esses madeireiros estejam planejando uma revolta.


(Paulo Paulino / Imagem: Patrick Raynaud)


Dilma Ferreira, uma ativista exemplar do meio ambiente, foi morta e torturada com seus amigos em 2019. Um madeireiro, que foi preso, expandia as suas terras ao limpá-las ilegalmente, além de estar envolvido com tráfico de drogas. A maranhense, ao denunciar a situação, acabou sendo morta dentro de sua própria residência. Cesar Munoz diz que “seu crime foi defender a floresta, e, então, ela pagou com a sua vida”. A irmã de Dilma confessa que está aterrorizada com a ideia de que ela pode ser um alvo por ter falado sobre o assunto, e que, infelizmente, se muda regularmente de cidade por causa dessa probabilidade.


(Dilma Ferreira / Imagem: Acervo do Movimento dos Atingidos por Barragens, do qual ela era coordenadora)


Ao se aprofundar ainda mais no assunto, Sophie mostra para os telespectadores o quanto toda a situação é perigosa para os jornalistas. Muitas das terras não podem ser filmadas e, durante a travessia para chegar até os destinos, a equipe não pode ser vista com as câmeras levantadas, já que há a possibilidade de crimes contra a integridade dos repórteres. Algumas vezes, a equipe precisa utilizar drones para filmar as aglomerações de gado, ou abaixar as câmeras quando estão dentro do carro na rota principal de transporte dessas madeiras ilegais.

Elaborando um projeto com quantidade considerável de entrevistados, a equipe também faz perguntas a dois personagens da cidade de Novo Progresso, localizada no Pará. O município é constituído por grande quantidade de pecuaristas, com 78% da população eleitora do atual Presidente Jair Bolsonaro.

O deputado Gelson Dill justifica essa porcentagem. Segundo ele, os governos anteriores teriam punido os fazendeiros injustamente. Ele afirma que antes “tudo era causa para dar uma multa. Por que só agora há essa preocupação [com a floresta]?”. Defende o governo porque, para ele, há suporte com os problemas desse grupo social dentro do Congresso Nacional.


(Vista aérea de parte da cidade de Novo Progresso, PA / Imagem: Four Corners)


Levando em consideração a impunidade dos que cometem tais crimes, a reportagem também aborda o lado dos policiais ao conversar com Conrado Wolfring, chefe da polícia da cidade. O policial relata que os criminosos não são pegos na maioria das vezes. Ele explica que, graças ao suborno e ao consequente envolvimento de policiais e políticos no processo, as organizações já têm conhecimento sobre as movimentações das patrulhas com antecedência. “Se eles precisam tirar uma vida, eles tiram”, afirma Wolfring.


(Povo da aldeia Kayapo / Imagem: Four Corners)


Desse modo, o documentário foi elaborado pela equipe de jornalistas de forma que há a abordagem de diferentes vivências sobre a questão do desmatamento da floresta equatorial. Os testemunhos dos povos que são afetados diariamente pelos acontecimentos demonstra a gravidade e profundidade do problema. O modo com que o projeto é finalizado, com os apelos do líder Kayapó e do líder de patrulha da aldeia, tornam o programa muito profundo ao espectador, sendo assim, também pela sua importância, essa matéria terminará com tais falas.

“Se for para morrer pelo nosso território, a gente ‘tá aqui, pra proteger o que é nosso por direito. Estamos prontos pra combater. Se for pra morrer pelas nossas reservas, nós estamos prontos para isso, pra combater”, disse Mydjere Kayapo, líder de patrulha da comunidade.

“A floresta está sendo destruída, as coisas estão mudando. Não chove tanto quanto chovia antes na vila e o rio não enche tanto quanto antes. [...] Escutem as minhas palavras e respeitem a nós indígenas e à floresta. Obrigado.” declarou o líder Kyapó.






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