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“Sangue, câmera, ação”: Série documental relata noites de cinegrafistas freelancers de Los Angeles

Yasmin Oliveira


Ter que lidar com a imprevisibilidade das matérias, a incerteza de salário, a concorrência da profissão e principalmente as inúmeras situações de risco, faz parte do cotidiano de muitos jornalistas freelancers. A série documental Sangue, câmera, ação- ou “Shot In The Dark”, no original-, acompanha algumas das aventuras de cinegrafistas freelancers durante toda a noite e madrugada de Los Angeles, cidade americana conhecida popularmente por sua famosa indústria cinematográfica.



(Imagem: Divulgação/Netflix)



O documentário, dirigido pelo americano Jeff Daniels, foi lançado em 2017 e se divide em oito episódios com cerca de 40 minutos cada. Ele narra o dia a dia de três empresas de “freelas” de Los Angeles: a RMG news, composta pelos irmãos Marc, Austin e Howard Raishbrook; A Lodlabs news, criada por Scoot Lane; e a OnScene TV, a maior empresa do ramo na cidade, liderada por Zak Holman. Durante toda a temporada, a série relata a competição entre essas três principais empresas que usam diferentes estratégias para vender suas matérias e principalmente para conseguirem cobrir, ter a melhor “tomada” e vender a “história da noite", como é chamado o principal acontecimento da noite, esse que com certeza vai interessar todas as emissoras.


Sangue, câmera, ação pode ser considerada a vida real do filme O abutre, lançado em 2014, dirigido por Dan Gilroy e indicado a vários prêmios, inclusive ao Oscar de melhor roteiro original. Essa semelhança acontece porque a série documental é realmente inspirada pelo filme. Jeff Daniels, em entrevista à revista Amherst Bulletin, disse que, após assistir ao filme, achava que teria uma boa história para contar sobre os “caras” da vida real que faziam isso, o porquê o faziam e os problemas com os quais eles lutavam. Daniels conclui dizendo que às vezes a verdade é mais estranha que a ficção e que ter acompanhado os freelas para documentar suas aventuras o deixou totalmente exausto.


A produção e fotografia da série são simplesmente admiráveis. Além das gravações dos protagonistas documentando os acidentes, há ainda os momentos deles dentro dos carros recebendo as chamadas e em entrevistas e momentos pessoais, como no episódio cinco, em que Scott conta para seu companheiro de trabalho Todd que vai ser pai. No entanto, o principal e melhor recurso utilizado é a imagem aérea de Los Angeles que é usada em praticamente todos os episódios para ilustrar a distância entre os freelas e os acontecimentos. Isso, além de facilitar a compreensão do espectador em relação aos lugares e viabilizar o entendimento daqueles que não têm nenhum tipo de conhecimento prévio sobre a famosa “cidade dos anjos”, também faz com que quem está assistindo se sinta quase que dentro da série.




(Imagem: Divulgação/Netflix)


Além disso, é interessante a forma com que o documentário entra no mundo dos freelas e relata o que realmente acontece, contando a perspectiva dos diferentes cinegrafistas sob uma mesma situação e quais estratégias utilizam para vencerem a concorrência. O principal exemplo de estratégia abordado ao longo do programa são os pacotes oferecidos pela LoudLabs às emissoras. Para vender todas as matérias, eles comercializam várias pelo preço de uma. Isso parece irritar bastante seus concorrentes, e a série mostra tanto a ótica da LoudLabs, como a da OnScene e da RMG sobre tal questão, mantendo a imparcialidade a todo momento.


Durante todo o programa, questões éticas e morais são levantadas nos acontecimentos, e cada cinegrafista tem um posicionamento diferente sobre as mesmas. O momento mais marcante que envolve o lado humano e profissional de um dos freelas é ainda no episódio 2, quando um carro parado no meio da pista é atingido por outro veículo e Austin Raishbrook, da RMG, que presencia todo o acidente se encontra num dilema: documentar tudo e lucrar em cima dele ou salvar a vida da pessoa que estava dentro do carro. Felizmente, ele escolhe a segunda opção.


Em contraponto, em diversos momentos, Scoot Lane tem atitudes invasivas nas tragédias e demonstra desrespeito com os policiais. Já segundo Zac Holman, o trabalho do freela é não se envolver, a não ser que essa inatividade leve à morte de alguém. Apesar de todas essas questões, o documentário parece objetivar apenas relatar os fatos, dessa forma, cabe ao espectador tirar suas próprias conclusões sobre as situações apresentadas e sobre o posicionamento tomado por cada profissional.


Não há nenhum anúncio sobre alguma possível nova temporada, mas o desejo de que tenha não é apenas de quem assistiu a primeira, mas do próprio diretor, que afirmou desejar que a Netflix queira ter mais temporadas da série. Enquanto isso não acontece, a série documental “Sangue, câmera, ação” merece e é essencial que seja “maratonada”, especialmente por aqueles que têm interesse em entender e conhecer mais a rotina dos famosos “freelas”.


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