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Presos como animais: “Democracia em Vertigem” incomoda ao trazer a realidade crua brasileira

Beatriz Brito



Você sabe como funciona uma rodinha de corrida para um hamster? Apesar do seu formato circular, é um labirinto sem saída. O animal pode correr para sempre, mas, no fim das contas, não há progresso. Essa é a política brasileira: uma sucessão de corridas que não levam a lugar nenhum, sempre repetindo as mesmas ações. Democracia em Vertigem (2019), dirigido por Petra Costa, aborda com sensibilidade os movimentos sistemáticos que levaram à destituição da ex-presidente Dilma Rousseff no ano de 2016 e a corrida política para condenar e tornar Lula inelegível nas eleições de 2018. O documentário, indicado ao Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem de 2020, combina pontos pessoais da vida de Petra a imagens de arquivo, jamais esquecendo de pontuar as consequências da rodinha de corrida sobre a nossa frágil democracia.


(Pôster do filme/Imagem: Reprodução)


A diretora não esconde o entrelaçamento das próprias experiências à maneira como os eventos políticos são apresentados. Muito pelo contrário, essa abordagem se torna um dos pontos altos do longa. Isso porque ela faz questão que os telespectadores conheçam sua vida: filha de político e socióloga, seus pais foram militantes do PCdoB durante a ditadura militar. Enquanto isso, o avô materno de Petra é um dos fundadores da construtora Andrade Gutierrez, uma das protagonistas nos escândalos de superfaturamentos de empreiteiras. Petra menciona até mesmo certo parentesco mediante matrimônio com Aécio Neves, então senador da República por Minas Gerais. Além disso, tudo é narrado em primeira pessoa, dando um tom de pessoalidade aos fatos históricos. Sendo assim, é coerente afirmar que as lentes da diretora trabalham como observadoras da elite – a própria classe que, em 2016, viria a apoiar um dos muitos golpes na democracia do país.


Petra inicia a trajetória do documentário com as várias candidaturas mal-sucedidas de Luiz Inácio Lula da Silva para presidente. Sindicalista e metalúrgico, Lula liderava greves de operários e era considerado um símbolo pela classe trabalhadora na década de 70, sendo inclusive um dos idealizadores do Partido dos Trabalhadores em 1980, como bem mostram imagens de arquivo do longa. Depois de três tentativas fracassadas, ele opta pela conciliação com partidos poderosos no Congresso e é eleito em 2002. Nesse momento, Petra é concisa: enquanto critica o ex-presidente por não cumprir a reforma política prometida e pela coalizão com a velha oligarquia brasileira, participando das mesmas práticas que tanto criticava, ela admite também a redução da pobreza e a ascensão econômica do país, que, mesmo durante a crise de 2008, passou de 13ª a 8ª economia do mundo.


Passam os anos e a sucessora de Lula, Dilma Rousseff, é eleita em 2010. Três anos depois, uma onda de protestos iniciada pelo aumento da tarifa de ônibus se espalha pelo Brasil. As manifestações entram para a história do país, se tornando um divisor de águas para o que viria nos anos seguintes. O Partido dos Trabalhadores, no poder há uma década, perde apoio popular. Para recuperar a credibilidade do governo, Dilma aprova uma série de medidas de combate à corrupção, com o objetivo de facilitar futuros inquéritos. A partir disso, ocorre um efeito dominó: é deflagrada a Operação Lava-Jato, envolvendo a Petrobras, empreiteiras e os principais partidos políticos. Muitos culpam Dilma por não interferir nas investigações, que acabam por condenar vários políticos de partidos poderosos. Porém, mesmo na contramão dos interesses dos grandes empresários, a ex-presidente é reeleita em 2014. O hamster, então, volta a correr na rodinha, sem nunca sair do lugar.


Cabe um parênteses: o que acontece em seguida não é novidade. Na verdade, faz tão parte da nossa história quanto o próprio pau-brasil. E isso não passa despercebido por Petra Costa. Desde 1889, presidente pós presidente, de Deodoro a Bolsonaro, é raro que ciclos políticos cheguem ao final – mas não se deixe enganar, porque isso não é uma coincidência. No documentário, a diretora conta que, durante a construção de Brasília, seu avô, que havia fundado uma empreiteira uma década antes, não quis se envolver na obra da cidade, “temendo que o presidente caísse antes que a obra terminasse”. De maneira semelhante, após o julgamento final do impeachment de Dilma Rousseff, Petra conversa com uma faxineira no Palácio da Alvorada, e a funcionária afirma o seguinte: “Não foi uma escolha do povo, não foi uma democracia. Na verdade, não existe democracia”. Isso é reflexo de um país cuja primeira República se deu a partir de um golpe, de um sistema que favorece as velhas oligarquias há séculos e de uma democracia muito mais do que em vertigem: uma democracia imaginária.


Depois que o golpe é concluído, todos os olhos se voltam para a próxima eleição presidencial. Lula anuncia que vai se candidatar, disparando em primeiro lugar nas intenções de voto. Com a investigação da Lava-Jato ainda em andamento, o ex-presidente é acusado de envolvimento nos esquemas de corrupção e, em tempo recorde, ele é considerado culpado e condenado a nove anos e meio de prisão. A direção do longa é bastante convincente ao criticar a postura dos veículos de comunicação na época, que espetacularizam a situação, chegando a beirar o sensacionalismo ao utilizar expressões como “confronto do século” quando Lula prestou depoimento a Sérgio Moro, juiz federal por trás da operação Lava-Jato. Para endossar seu ponto de vista, Petra faz uso até mesmo de falas de jornalistas renomados criticando as próprias atitudes da mídia, como Ricardo Boechat: “É absolutamente impróprio que um depoimento prestado por um réu a um juiz federal dentro do rito natural do processo seja transformado nesse carnaval”.


(Petra Costa em Brasília/Foto: Diego Bresani)


É difícil não sentir compaixão por Dilma e Lula depois de assistir o documentário. As entrevistas com os ex-presidentes são extremamente pessoais, humanizando-os diante dos telespectadores. Dilma deixa de ser vista como a culpada por toda a corrupção do país e passa a ser a ex-guerrilheira que sobreviveu não só a 22 dias de tortura durante a ditadura militar, mas também a um câncer anos depois. Por sua vez, Lula é retratado como o ex-metalúrgico que nunca deixou de ser o símbolo do povo no poder. As cenas do dia que Sérgio Moro emite uma ordem para prender o ex-presidente são muito fortes: desde o momento em que Lula se abriga no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, recusando-se a se entregar, até o instante que o povo resiste à sua retirada do edifício, obrigando-o a sair escoltado e a pé. A escolha de Petra pelas imagens é sutil, mas a mensagem que a diretora quer transmitir é poderosa: Lula pode estar preso, mas suas ideias irão correr soltas para sempre.


Democracias sólidas têm uma vantagem sobre as frágeis: elas sabem quando acabam”. Existe a possibilidade de que o acadêmico inglês David Runciman não soubesse com exatidão os rumos que a política no Brasil tomaria quando escreveu essa frase em seu livro “Como a Democracia Chega ao Fim”, mas ela encaixa perfeitamente no contexto brasileiro. E Petra Costa, por bem ou mal, registrou de maneira impecável a vertigem da nossa democracia imaginária. Não fica claro em qual ponto da história isso acontece, mas Petra é bastante enfática ao destacar a importância de reconhecermos que essa soberania popular acabou de fato. É possível que nunca tenha existido. Na verdade, talvez estejamos correndo em círculos há séculos, como pequenos roedores em gaiolas. Você sabe como funciona uma rodinha de corrida para um hamster? Apesar do seu formato circular, é um labirinto sem saída. O animal pode correr para sempre, mas, no fim das contas, não há progresso.


Democracia em Vertigem está disponível na Netflix.

























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