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O resgate da memória em "Olga"

Caio Azevedo


Em 1985, Fernando Morais publicou o livro reportagem Olga, sobre a vida e a luta de Olga Benário. O autor é exemplo de excelência jornalística e teve vasta experiência na área: ganhou três vezes o Prêmio Esso de Reportagem e quatro vezes o Prêmio Abril de Jornalismo. Na obra, ele reconstrói com muita emoção a história da judia - desde sua juventude em Berlim até o momento em que foi cruel e arbitrariamente enviada das prisões brasileiras à Alemanha de Hitler, mesmo estando grávida de sete meses.


(Capa do livro da Editora Círculo do Livro / Imagem: Reprodução)


A narrativa é toda construída de maneira fluida, envolvente e comovente, como se fosse possível sentir-se presente na história. Com momentos de angústia tremenda - aqueles em que Olga Benário sofreu com as injustiças de sua época - ou de compaixão - quando aprofunda as relações sentimentais entre as personagens -, a obra sensibiliza qualquer um. Contudo, um ponto é discutível: em algumas partes do livro, o escritor parece apresentar-se como um “narrador onisciente” da vida da alemã. Com detalhes muito específicos em determinadas cenas - em trechos como “Olga imaginou”, por exemplo -, a vida de Olga soa quase como ficcional, como se fosse uma protagonista criada por Fernando Morais, que poderia acessar seu inconsciente a qualquer hora. Ainda assim, o escritor não deixa que o interlocutor afaste-se totalmente da realidade e, com as imagens que dispõe no miolo, alerta sobre a concretude da narração.


As memórias começam na década de 1920 em Berlim, num cenário de inflação e miséria fruto da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Olga, diante de toda situação do país e com apenas 16 anos, abandonou a cidade natal, Munique, e partiu com a Juventude Comunista para a capital alemã. Passou anos dando aulas sobre teoria marxista, panfletando nas estações ferroviárias e participando das passeatas por direitos trabalhistas, até que, em abril de 1928, organizou o resgate do namorado na prisão de Moabit, preso por “suspeita de alta traição da pátria”. De maneira bastante criativa e com liderança de Olga, os jovens invadiram o julgamento de Otto Braun com armas descarregadas e, ameaçando os guardas e juízes, conseguiram fugir com o preso.

Ainda que a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) não tivesse começado, os embates entre comunistas e nazistas já eram comuns. Ao mesmo tempo que o Partido Comunista Alemão trabalhava às escondidas, crescia o Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores - o partido nazista que, poucos anos depois, chegaria ao poder com a figura de Adolf Hitler. Por esse motivo, sendo perseguida por todo o país pelo assalto à prisão, Olga e Otto partiram para a União Soviética em busca de refúgio, lugar onde terminariam o relacionamento em alguns anos. Na terra de Stalin, a mulher conseguiu muito prestígio no Komintern, a Internacional Comunista, e ingressou em diversos cursos paramilitares, onde aprendeu a atirar, cavalgar, pular de paraquedas e pilotar aviões.


O autor chega, então, na passagem de Olga Benário pelo Brasil. Em dezembro de 1934, já com Hitler no poder da Alemanha, ela é convocada pela URSS para acompanhar Luís Carlos Prestes - líder da “Coluna Prestes” (1924-1927) - em uma missão: organizar uma revolução comunista popular no Brasil. Como eram infiltrados, tiveram de percorrer com documentos falsos por vários países até chegarem ao destino final. Nesse meio-tempo, os dois acabaram se apaixonando e se casaram nos Estados Unidos, sob os pseudônimos de Antônio Vilar e Maria Bergner. Quando finalmente chegaram ao Brasil, em abril de 1935, outros agentes comunistas já estavam no país para a formação da equipe. O que não esperavam é que, com os rumores sobre o retorno do “Cavaleiro da Esperança”, a polícia de Getúlio Vargas fosse se organizar de maneira tão ostensiva.


Um fato que parece apagado na história do país é pautado na obra: a tentativa falha de revolução em 1935, atualmente conhecida como Intentona Comunista, teve o envolvimento de Olga Benário. Após quase um ano de preparo, Prestes convoca a Revolução Nacional Libertadora, contando com o apoio da Marinha e dos trabalhadores, que, no fim das contas, acabaram não se mobilizando como o imaginado. Acredita-se que a repressão de Vargas à Aliança Nacional Libertadora - grupo que lutava contra o fascismo, o imperialismo e a concentração fundiária -, que entrou para a ilegalidade alguns meses antes da insurreição, dispersou e enfraqueceu o movimento. Dois pequenos focos da revolução resistiram à repressão policial - um, inclusive, no 3º Regimento de Infantaria, que era próximo à Escola de Comunicação da UFRJ -, mas o tão estimado levante popular duraria poucas horas.


Com isso, muitos membros da equipe enviada pela Internacional Comunista foram presos pelos oficiais de Filinto Müller, o capitão chefe da polícia do Distrito Federal. Até que, inevitavelmente, conseguiram capturar Luís Carlos Prestes e Olga Benário no início de 1936. Nesse momento da narrativa, Fernando Morais não poupa palavras para descrever o tratamento dos presidiários nas penitenciárias varguistas. Às vezes o termo “tortura” pode se tornar algo distante, que sozinho não é capaz de incomodar com a real brutalidade e desumanidade que carrega. O escritor decide romper com esta maneira minimamente confortável, ainda que já desagradável, de abordá-lo e descreve, com detalhes, a realidade bárbara vivenciada nas cadeias de Filinto Müller. Os relatos são indescritivelmente incômodos e repugnantes.


O que é extremamente simbólico é que, no centro de detenção para onde Olga foi encaminhada, os carcerários proclamavam uma espécie de programa de rádio com o nome de “Voz da Liberdade” todas as noites. Após o canto coletivo do hino da Aliança Nacional Libertadora, o locutor noticiava as informações que chegavam clandestinamente. Isso mostra o papel da comunicação de não somente transmitir conhecimento, mas também criar uma coletividade capaz de resistir à opressão.


A identidade da mulher de Prestes era totalmente desconhecida pela polícia política brasileira, que apenas conhecia seu primeiro nome. Uma longa investigação da Gestapo - polícia secreta nazista que mantinha aliança com os oficiais brasileiros -, entretanto, identificou-a como Olga Benário: mulher, judia e comunista, com passagem pela prisão de Moabit e figura importante na Internacional Comunista. Não é preciso dizer que ela representava grande perigo à ordem nacional. Foi por esse motivo que, na madrugada do dia 23 de setembro de 1936, com 28 anos e grávida de sete meses, Olga foi injusta e arbitrariamente enviada para a Alemanha de Hitler.


A última seção da obra é dedicada às experiências da personagem nas prisões nazistas. Fernando Morais conta que, ao chegar no país, os cabelos de Olga foram cortados, com a ofensa de que judias e comunistas estavam proliferando piolhos, e suas vestimentas foram substituídas por um uniforme listrado destinado às vítimas do nazifascismo ardente da época. Pouco tempo depois, no dia 27 de novembro, a mulher deu à luz a sua filha, Anita Leocádia, no próprio hospital do presídio. A sogra, depois de muita luta, conseguiu impedir que a menina fosse encaminhada a algum orfanato e conseguiu socorrê-la no pátio da cadeia, sem permissão para encontrar a nora.


O livro é regado pelas cartas que Olga remetia a Luís Carlos Prestes e dona Leocádia, a sogra, - por onde os dois ficaram sabendo do nascimento de Anita. A escrita sensível, angustiante e racionada, devido à censura, aperta o coração do leitor, como se fosse possível mergulhar em cada linha do texto.

A presença da imprensa ao longo da história da judia é muito marcante: a primeira coisa que exigiu na prisão alemã foi o envio regular de jornais à sua cela, invocando as leis internacionais. Assim, recebia diariamente o Völlkischer Beobachter, jornal oficial do Partido Nazista, “que só falava da ‘conspiração judaico-bolchevique’”, conforme pontuou o escritor. No entanto, as atualizações mais valiosas que recebia sobre a guerra iminente chegavam das novas presas políticas - fato que provoca reflexões sobre a importância da comunicação popular e plural para além de fontes oficiais ou oficiosas.


Olga passou por alguns campos de concentração no país, que lotavam rapidamente com a invasão de Hitler à Polônia em 1939 e, seguidamente, o início da Segunda Guerra Mundial. Foi trancada em solitárias, submetida a tortura em brutais sessões de açoites e obrigada a trabalhar sem remuneração nas indústrias conveniadas ao Estado. Além da economia, outro setor que se beneficiou muito dos abusos aos judeus encarcerados foi a medicina: os detentos eram experiências vivas, que testavam novos tipos de cirurgia e injeções. Para piorar, era tudo feito sem anestésicos.


Em fevereiro de 1942, com quase 34 anos de idade, Olga Benário foi transferida para Bernburg com o destino traçado: seria assassinada em uma das primeiras câmaras de gás da Alemanha Nazista. Ao final da guerra, somente nesse campo, cerca de trinta mil pessoas foram exterminadas.


Minutos antes de ser enviada para morrer, mesmo que desconhecesse a existência das câmaras de gás, Olga destinou uma última carta à filha, já com 5 anos de idade, e a Prestes: “Querida Anita, meu querido marido, meu Garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça, pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. É precisamente por isso que esforço-me para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nas últimas e difíceis horas. [...] Beijo-os pela última vez, Olga”.


Processo jornalístico


Para a sorte dos jornalistas leitores de Olga, Fernando Morais é bastante transparente sobre o processo de pesquisa para a produção do livro reportagem. A obra conta com uma lista de todos os depoimentos tomados - com o nome de todos aqueles que foram entrevistados para a reconstrução da história de Olga Benário - e, ainda, com todas as fontes consultadas - tanto as instituições quanto os jornais e revistas.


O autor não esconde as dificuldades de se fazer pesquisa no Brasil. Ele diz que solicitou alguns documentos ao Ministério das Relações Exteriores e só os recebeu depois de um ano, ainda previamente censurados. É no mínimo curioso ver que as críticas da década de 1980 permanecem atuais: os pesquisadores continuam enfrentando muitas dificuldades no país. Isso porque, segundo o próprio Fernando, a ideia do livro teve de ser guardada durante o período mais autoritário da Ditadura Militar (1964-1985) por conta da censura. Imagina como seria a investigação nos “anos de chumbo”, com toda a repressão.


O registro sobre suas viagens também é muito enriquecedor, como revela a realidade do jornalismo literário. A falta de dinheiro e tempo impediu que Fernando Morais desse continuidade às pesquisas da maneira que gostaria: após visitas a Alemanha, Estados Unidos e Argentina, o escritor precisou prosseguir com a investigação por meio de correio e telefone, comunicando-se nacional e internacionalmente. Ele alerta, indiretamente, que o processo de construir um livro reportagem, quando não encomendado e bancado por alguma editora, é extremamente custoso e inacessível.


“Ao repórter, como ao goleiro, não basta trabalhar direito - é preciso ter sorte”, era a frase que o autor sempre escutava de um antigo chefe de reportagem. Quando apresenta a citação, Fernando reconhece que teve sorte no andamento do livro Olga. Mesmo com uma pauta desafiadora - tendo em vista que grande parte dos companheiros políticos da personagem estavam ou mortos ou com idade avançada demais para relembrar com detalhes os episódios -, conseguiu entrevistas com parceiros da Juventude Comunista da década de 1920 e sobreviventes do holocausto. O depoimento que mais parece se orgulhar, no entanto, é o de Luís Carlos Prestes. Ele conta que o comunista, à primeira vista rígido, tratava sobre os momentos com a mulher de maneira extremamente sensível e emocionante, como quem guardava as informações com muito apreço.


Tem uma declaração do escritor que provoca diversas reflexões, em que ele afirma que o livro não é a versão dele sobre a história de Olga, mas aquela que acredita “ser a versão real desses episódios”. Contudo, isso já implica um juízo de valor do próprio escritor, seja na apuração ou no elenco de informações principais e secundárias. O questionamento que fica é se é possível, então, separar o conteúdo do emissor para atingir um trabalho definitivamente real. De qualquer forma, Fernando Morais reconhece: “Qualquer incorreção que for localizada ao longo desta história, entretanto, deve ser debitada exclusivamente à minha impossibilidade de confrontá-la com versões diferentes”.


Por fim, o mais importante do livro: o papel social de resgate da memória de Olga Benário, há muito tempo perdida no país. No período em que se deu a pesquisa, segundo o autor, a historiografia costumava reduzir a imagem da alemã apenas como “a mulher de Luís Carlos Prestes”, ignorando sua importância política com descrições superficiais. Fernando ainda relata que, durante a viagem à Alemanha, encontrou muitas escolas e fábricas com o nome de Olga - com status de “heroína nacional” -, enquanto a memória da judia parecia apagada no Brasil. Hoje em dia, felizmente, essa situação parece mudar. O filme Olga (2004) - adaptação da obra aos cinemas pelo diretor Jayme Monjardim - e o Movimento Olga Benário Brasil - organização de mulheres contra a opressão patriarcal-capitalista - são exemplos de que o cenário é de melhora.


Que a memória de Olga Benário Prestes nunca seja esquecida.

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