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O Ato de Matar: o que os genocidas pensam?

Pedro Dias


Em meados da década de 60, um governo militar perseguiu, torturou e exterminou milhares de opositores considerados “comunistas” e subversivos sob a justificativa de que estes eram inimigos do país. Inicialmente, pensa-se nas ditaduras latino-americanas do mesmo período e, pela proximidade, pode-se imaginar que o que está sendo descrito aqui é a situação brasileira da época. Mas não, essa é uma vaga descrição de um dos maiores massacres do século XX. Apesar da brutalidade extrema dos eventos, poucas são as pessoas que têm o conhecimento do genocídio na Indonésia. Por isso, “O Ato de Matar” mergulha na mente de um dos carrascos da época, Anwar Congo, num exercício de reflexão sobre seus atos e suas consequências.


(Pôster do Filme/Imagem: Reprodução)


Talvez um dos maiores acertos do diretor Joshua Oppenheimer no longa seja a forma com a qual ele busca entender os pensamentos de Anwar. O cineasta pede a Congo que dirija um filme que mostre como eram os interrogatórios, os métodos de tortura e as execuções que ele participava e que dê sua visão aos fatos. Assim, o documentário ganha uma originalidade única. Conforme navega por lugares da cidade onde agia, o carrasco conta histórias de intensa brutalidade e violência, mas com tranquilidade e humor que causam estranheza. Ao visitar um antigo terraço que servia de matadouro, Anwar conta que com o tempo foi preciso mudar a forma que assassinavam as pessoas, porque dava muito trabalho para limpar quando terminavam.


(Anwar, à direita, demonstrando sua forma de matar/Imagem: Reprodução)


Em dado momento é mostrado o papel fundamental que um jornal e seus jornalistas tinham em acumular informações e interrogar os suspeitos de “traição”. O editor-executivo do jornal Medan Pos, Ibrahim Sinik, conta com orgulho como tinha o poder de decidir se uma pessoa iria morrer apenas com um piscar de olhos. No escritório de Sinik, fotos e mais fotos de presidentes, ex-presidentes e chefes de grupos paramilitares com ele naquele mesmo local servem para ilustrar essa parceria abominável. Ibrahim fecha a sua participação com a chocante frase: ‘como jornalista, meu trabalho é fazer o público odiá-los [“os comunistas”]’. Como jornalista, é aterrorizante pensar nisso.


Desse modo, pode-se perceber como uma mídia sectária e desonesta pode fazer muito mais do que apenas desinformar. Essa guerra de narrativas é um dos principais pontos do filme. Durante grande parte do longa seus participantes são forçados a pensar nos seus atos e resultados. Alguns apresentam afastamento, medo e melancolia sobre esse passado, já outros (em grande maioria) falam como antes era muito mais simples matar e se livrar de um corpo sem ter que prestar contas. Adi Zulkadry, outro ex-executor, faz parte deste último grupo. Adi justifica todos os seus atos falando que estavam em guerra e que era necessário fazê-los, mas quando é dito pelo cinegrafista que mesmo assim, segundo a Convenção de Genebra, são classificados como crimes de guerra, ele diz que ‘crimes de guerra são definidos pelos vencedores e eu sou um vencedor’.


(Da esquerda para a direita: Ibrahim Sinik, Herman Koto e Anwar Congo/Imagem: Reprodução)


À medida que continua as gravações de seu próprio filme, as emoções de Anwar ficam cada vez mais conflitantes. Antes alegre e orgulhoso, ele começa a lembrar de seus atos com tristeza e horror. Em determinada cena, Congo encena o método que usava para sufocar suas vítimas, mas ao começar a atuar, ele começa a ter crises e se sentir mal com aquilo. Ao assistir novamente a cena em sua casa, ele diz à Oppenheimer que se sentiu como uma de suas vítimas e que foi assustador, mas é respondido friamente pelo documentarista que diz que aquelas pessoas sofreram muito mais, pois sabiam que estavam morrendo de verdade. Quando retorna a aquele mesmo terraço do início do filme, Anwar é tomado por um nojo profundo e, abatido, pondera sobre suas ações.


Ao todo, estima-se que foram mortas entre 500.000 e 1.000.000 de pessoas em menos de 1 ano. Anwar foi responsável por aproximadamente 1.000 delas. Entre os perseguidos estavam: membros de grupos operários, camponeses sem terra, intelectuais e pessoas de etnia chinesa. Os opositores do governo são caçados desde então. Com o apoio de governos do ocidente, o exército usou ‘gangsters’ e grupos paramilitares para as execuções. Ao receber o prêmio de Melhor Documentário no BAFTA (o Oscar britânico), Joshua Oppenheimer afirmou em seu discurso que o Reino Unido e os EUA têm responsabilidade coletiva por terem participado e ignorado os acontecimentos. A premiação censurou essa parte do seu discurso no vídeo postado em seu site e no youtube.


O documentário escancara feridas ainda abertas de um país governado pelos vencedores e traz reflexões sobre nossa relação com o passado, com as consequências e com o nosso interior, mostrando que, por vezes, podemos não perdoar o que aconteceu, mas com certeza não devemos esquecer. O Ato de Matar não é sobre o perdão, mas sobre as consequências.


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