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Muito além das revistas: a história do jornalismo de moda no Brasil

Atualizado: 22 de jun.

Giovanna Peres



A primeira publicação dedicada ao público feminino foi o periódico Ladies Mercury, surgido em 1693, em Londres. A revista trazia para suas leitoras dicas de como se vestir, moldes e até poesias. De acordo com a Biblioteca Nacional, o início da imprensa feminina no Brasil data de 1827, com o lançamento do periódico O Espelho Diamantino.


Periódico O Espelho Diamantino (Imagem: Reprodução)


Lançado por Pierre Plancher, jornalista francês, o título circulava no Rio de Janeiro e logo em sua capa anunciava que era “dedicado às senhoras brasileiras”. Com maior destaque para moda e belas artes, que, de acordo com o pensamento da época, eram temas que interessavam ao público feminino da Corte, a publicação também abordava questões como política e cultura. O que pode até parecer uma inovação para esse período, no entanto, não esconde a realidade: era um periódico editado por um homem que levantava discussões sobre o papel feminino na sociedade.


No periódico, assuntos mais contemporâneos, como a igualdade de gêneros, ainda estavam completamente fora de questão. Os textos expostos nas páginas eram repletos de opiniões moldadas na visão masculina sobre como as mulheres deveriam se portar. Durante o período de 1849 a 1864, circularam no Brasil as primeiras publicações de litografias impressas no papel em forma de figurino. O jornal A Marmota foi o responsável por esse feito. Ele era famoso entre as famílias cariocas, pois tratava de variados assuntos.


Segundo artigo publicado na revista Histórica, editada pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, os conteúdos destinados ao público feminino no século XIX estavam focados no binômio literatura e moda e, desse modo, reafirmavam a imagem e o papel das mulheres na sociedade daquele contexto. Muitos desses veículos, no entanto, tinham uma duração muito curta. Foi apenas na virada para o século XX que as revistas femininas ganharam mais presença no cenário nacional.


Por mais que todos os periódicos fossem destinados ao público geral, a moda era um dos temas centrais nas páginas. Na Revista da Semana, por exemplo, o tema é apresentado como um elemento extremamente relevante, que expressava o ideário de modernidade difundido naquele momento. Esse título era um dos grandes sucessos comerciais do mercado editorial brasileiro, e ocupou esse lugar até a década de 1940, quando a revista O Cruzeiro assumiu a posição.


A Revista da Semana era sem dúvida uma das melhores representações de um país que estava focado em enaltecer a imagem do progresso. De acordo com informações da revista Histórica, em 1920 quase metade da população carioca vivia em subúrbios, o analfabetismo atingia cerca de 25% dos cidadãos e a economia passava por um período de crise. Mesmo com todas essas condições a Revista da Semana insistia em veicular a modernidade, deixando de lado a preocupação social. Expressava um olhar limitado sobre a sociedade e não atendia as demandas de toda a população. Por isso, a moda era um dos temas de maior sucesso em suas páginas. Não apenas por ser um assunto que reforçava ainda mais o ideário de evolução do país, mas também porque atendia aos interesses de um público segmentado: a elite.


Revista da Semana (Imagem: Reprodução)


Porém, não eram apenas revistas mais conservadoras que veiculavam esse tipo de conteúdo. Fundado em 1855, por Joana Paula Manso de Noronha, O Jornal das Senhoras foi um dos primeiros periódicos feministas brasileiros. Apesar de suas críticas à sociedade machista da época, havia também, em seu interior, uma editoria reservada a falar sobre o cuidado com o corpo e o embelezamento da mulher.


Em 1928, o surgimento da revista O Cruzeiro proporcionou mais publicações voltadas ao público feminino. Mas é apenas em 1938, com a inserção da coluna “Garotas”, escrita por Alceu Penna, que a temática da moda ganhou maior notoriedade. Segundo a jornalista Marília Scalzo, no livro Jornalismo de Revista, as publicações de O Cruzeiro fizeram tanto sucesso que a revista se tornou um dos maiores fenômenos editoriais brasileiros.


O registro editorial de moda só se consolidou, de fato, a partir de 1950. Nesse período ocorreu um aumento significativo no número de títulos publicados. Se, anteriormente, a moda era tratada apenas como um dos variados conteúdos destinados ao público geral, nesse momento ela passa a ser protagonista e conquista seu espaço próprio. As revistas Jóia (1957), Manequim (1959) e Cláudia (1961) são importantes exemplos dessa segmentação do mercado editorial brasileiro. Essa época também foi marcada pela implementação de títulos internacionais no Brasil, como a Vogue (1975), o que impulsionou ainda mais o jornalismo de moda.


Capa da primeira edição da Vogue Brasil (Imagem: Reprodução)


Os anos 80 e 90 só reforçaram essa tendência, com o aumento de publicações focadas na temática. Atualmente, o mercado brasileiro conta com uma grande variedade de publicações voltadas ao jornalismo de moda. De acordo com dados da Associação Nacional de Editores de Revista (ANER) de 2010, cinco dos 20 títulos com maior circulação no país eram focados em conteúdos específicos sobre moda (Claudia, Gloss, Manequim, Marie Claire e Nova).



Fontes:


Momentos históricos do registro editorial da moda no Brasil no período anterior aos 60. Disponível em: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/uploads/publicacoes/revistas/historica53.pdf#page=25.


Jornalismo de moda e consumo feminino no Brasil: aspectos histórico-culturais a partir do século XIX. Disponível em: http://entremeios.com.puc-rio.br/media/10_RUFINO,%20Carina_Jornalismo%20de%20moda%20e%20consumo%20feminino.pdf


O Espelho Diamantino, para as senhoras brasileiras. Disponível em: https://www.bn.gov.br/acontece/noticias/2020/05/espelho-diamantino-senhoras-brasileiras.


Revistas femininas do século XIX: os primeiros passos. Disponível em: https://casperlibero.edu.br/wp-content/uploads/2015/08/Revistas-femininas-do-s%C3%A9culo-XIX.pdf


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