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Medo e Delírio em Brasília: a arte de informar entretendo

Lara Machado

(Capa do podcast/ Imagem: Reprodução)


Publicado das terças às sextas, o podcast Medo e Delírio em Brasília é escrito pelo comunicador Pedro Daltro, produzido pelo jornalista Cristiano Botafogo e produto da Central 3 - também conhecida pelos podcasts Xadrez Verbal, Lado B do Rio e Guilhotina, parceria com o Le Monde Diplomatique. Criado no final de 2018, seu nome é auto-explicativo; o podcast trata das trevas ideológicas que tomaram o país e que colocam a democracia em risco dia após dia. Se alguém espera isenção ou imparcialidade, que pare por aqui. Pedro e Cristiano se posicionam desde o primeiro segundo até a vinheta final. Se querem um podcast sisudo, com o jeitinho das grandes redações do país, também vão se decepcionar. Medo e Delírio em Brasília informa, se posiciona e diverte como nenhum outro podcast, justamente porque desceu do pedestal do jornalismo pasteurizado e austero.


O próprio Medo e Delírio em Brasília se declara como “um diário ácido desse governo verde-oliva, essa bad trip escrota em que a gente se meteu”. Mas é mais do que isso. O podcast conta com o senso de humor que beira o nonsense e que se mostra nos bordões recortados das falas presidenciais e de outros personagens políticos, nos memes, em trechos de músicas aleatórias, nas imitações do Cristiano Botafogo e nas paródias que circulam pelo Twitter e cativam os que ainda não se renderam às boas risadas que o podcast sabe provocar. O tom de “quinta série” - no melhor sentido - do humor de Cristiano e de Pedro casa com o contexto político que eles buscam retratar, de forma que a própria comicidade é uma ferramenta para explicitar os absurdos que acontecem no Brasil. Medo e Delírio em Brasília nos mostra que passar raiva junto e rir da própria desgraça pode nos ajudar a entender melhor o que se passa no olho do furacão do país.


Mas não só do bom humor se faz a qualidade do podcast. As edições são recheadas de trechos das colunas mais importantes do país, partes de entrevistas de atores políticos relevantes e, nas semanas mais agitadas, o podcast destrincha os eventos que estão traçando o futuro do país. Tudo isso é feito levando em consideração a história brasileira. Muitos episódios contam com paralelos entre eventos recentes e do século passado, e com falas que marcaram gerações. Eis o verdadeiro diferencial de Medo e Delírio em Brasília: a arte de informar entretendo. E quando diz-se informar, geralmente se quer dizer fazer circular as informações, notificar. Não é o caso aqui. Este podcast faz seu ouvinte saber, nos menores detalhes o que só se poderia saber depois de um dia inteiro lendo os desdobramentos das movimentações do xadrez político brasileiro.


Justamente na genialidade de unir política, humor e história que Medo e Delírio em Brasília encontra sua principal dificuldade. Quem não conhece o trabalho da Central 3, de Pedro e de Cristiano, pode não perceber as sutilezas e a sensibilidade que convivem com os chistes ácidos e com a edição cheia de códigos sonoros e lotada de informações separadas por blocos por vezes não tão bem concatenados.


Para os que nunca se deliciaram com o Medo e Delírio em Brasília, aqui vai uma breve descrição que pode te ajudar a contemplar melhor o podcast: Cada episódio inicia com uma fala, esquete ou paródia que diz respeito a um acontecimento relevante da semana - que não necessariamente será abordado no decorrer do episódio. Depois vem a vinheta. ATENÇÃO: não tome susto com os gritos que seguem o “Então bundão é o Jair”. A partir daí serão tratados os temas do dia - geralmente não passam de 5 - que são intercalados por um barulhinho de TV antiga sem sinal. Daí temos os agradecimentos, e o tragicômico aparte. No aparte ficam os áudios mais surreais, as paródias mais ousadas e as esquetes mais loucas. Todo o episódio é recheado por colagens de áudios hilários e por intervenções que destacam quem diz o que. Por exemplo: o barulhinho de máquina de escrever é sinal de que o trecho foi retirado de alguma coluna jornalística, a marchinha militar é indicação de que a fala é de um membro das forças armadas, a voz de Darth Vader se refere ao vozeirão do vice Mourão, a imitação impecável de Lombardi é porta-voz das falas oficiais do governo Bolsonaro, o “terrível homem do broche da caveira” é Élcio Franco e o Tonho da Lua nada mais é que Carlos Bolsonaro.


O resto, caro leitor, só se sente e aprende ouvindo. Em breve você vai estar contagiado pela ternura, pela lucidez e pelo senso de humor leve e raro que só Medo e Delírio em Brasília consegue conciliar.


Medo e Delírio em Brasília está disponível no Spotify e no site da Central 3. Há também um canal no Telegram com trechos destacados dos episódios.

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