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“Feitiço do Tempo”: a jornada de um jornalista e uma marmota rumo ao dia seguinte

Atualizado: 21 de out. de 2021

Pedro Eduardo

(pôster de “Feitiço do Tempo”, com Bill Murray e Andie MacDowell)


O que aconteceria se alguém estivesse vivendo o mesmo dia todo dia? Bem, essa é a pergunta que o clássico da comédia Feitiço do Tempo responde. O filme, que conta com Bill Murray como protagonista e Harold Ramis como diretor (trazendo de volta a parceria que já havia dado muito certo em Os Caça-Fantasmas), é uma viagem através da rotina de um homem que está preso em um dia que nunca acaba. O filme mostra como a vida de um jornalista amargo e sarcástico é transformada por conta de uma marmota.


A história do filme segue Phil Connors, um jornalista que trabalha em uma TV local como o “cara do tempo” e vive insatisfeito com a vida que tem. Ele faz questão de infernizar todos os que estão a sua volta e sempre deixa bem claro que almeja voos maiores. Até aí tudo bem. As coisas começam a ficar interessantes mesmo quando Phil é enviado para uma cidadezinha chamada Punxsutawney, para cobrir a tradicional festa do “Dia da Marmota”. O inusitado feriado acontece em 02 de fevereiro e é uma tradição da cidade de Punxsutawney (Pensilvânia, EUA) em que a marmota da cidade, também chamada Phil, prevê se o inverno irá se estender ou não.

Phil viaja junto com os integrantes de sua equipe e dentre eles está a produtora Rita (Andie MacDowell) que, sempre muito dedicada e otimista, é o verdadeiro contraponto de Phil. Tudo na viagem corre bem, até que na hora de voltar eles se deparam com a estrada bloqueada por conta de uma nevasca (nevasca essa que Phil havia previsto que não aconteceria), assim todos são obrigados a retornar para a cidade. Ao acordar no outro dia, Phil começa a perceber que tudo está igual ao dia anterior, as mesmas pessoas, as mesmas situações, tudo está se repetindo. O mesmo acontece no dia seguinte. E de novo. E de novo.

Como esperado de qualquer pessoa, o jornalista quase enlouquece e chega à beira de um colapso, porém acaba encontrando uma oportunidade nesse dia infinito. Ele começa a viver como se nunca houvesse amanhã, ignorando a existência do dia seguinte e, ao fazer isso, algumas loucuras acabam acontecendo. De dirigir na linha do trem (com o trem vindo em sua direção) até roubar um carro forte, Phil faz de tudo um pouco e sempre encontra uma maneira de se beneficiar, é claro. Mas nem tudo são flores; em dado momento o jornalista se depara com um vazio no peito e percebe que a única forma de ocupar esse espaço é conquistando aquela por quem se apaixonou, Rita. E é nesse jogo amoroso que Phil acaba aprendendo mais, cada uma de suas ações parece vir acompanhada de uma aprendizado novo.


(cena clássica do filme “Feitiço do Tempo” | Imagem: Reprodução)


Nesse ponto a história se torna uma incrível comédia romântica e isso só prova o quão versátil esse filme é. Em nenhum momento do longa as coisas ficam chatas, o ritmo sempre é muito bom e muito disso fica na conta de Bill Murray, que mais uma vez dá um gosto de sua genialidade, entre exageros e sutilezas ele sempre entrega o que o personagem precisa nunca passando do ponto.


Uma vez que decide conquistar o coração de sua amada, Phil entra em uma rotina de tentativa e erro, todo dia ele aprende um pouco mais sobre Rita para que, no dia seguinte, as suas chances sejam maiores. No entanto, ele fracassa e, pior, começa a perder as esperanças, mas não só com relação à Rita, ele se encontra sozinho (não há ninguém com quem ele possa compartilhar as lembranças dos dias que passam). Na realidade, Phil está vivendo sua própria história e, como em todo bom filme, ele só precisa aprender uma lição e completar a sua jornada (o que acaba de fato acontecendo no fim).


Feitiço do Tempo é atemporal, um filme que, ainda que não aborde temas complexos (a não ser um paradoxo temporal), sempre tem piadas afiadas. O filme tem sim todo um ar sarcástico, mas muitas vezes consegue surpreender e ser fofo também. Outro motivo que contribui para a atemporalidade de Feitiço do Tempo é o fato de o filme ser um dos primeiros a trazer uma narrativa em que o personagem vive o mesmo dia repetidamente. Foi precursor desse tipo de história e influenciou toda a cultura pop. Desde 1993 o que não falta são filmes em que o personagem precisa vencer o paradoxo do tempo e retomar a sua vida, seja na ação, como em No Limite do Amanhã (2017), ou no terror, como em A Morte Te Dá Parabéns (2018), esse tipo de história sempre tem sua inspiração máxima no longa de Harold Ramis.


O filme também sabe usar o lado jornalista de Phil na trama. Durante a história, o protagonista passa por várias fases e todas essas mudanças de humor se refletem na forma como ele se porta em frente às câmeras. Quando está mais cabisbaixo e pessimista, Phil praticamente desiste de fazer o seu papel enquanto repórter (ainda que ele já tenha cumprido essa mesma função inúmeras vezes), porém, quando ele acha que as coisas estão indo bem, se dispõe a fazer o seu melhor (isso fica evidente quando, no final do filme, Phil faz a sua melhor reportagem sendo até mesmo aplaudido). O jornalista prova que muitas vezes o que mais interessa em uma matéria é seu formato, quando ele tem uma estrutura diferente e inovadora parece que tudo se torna mais interessante. Phil é capaz de tornar um simples feriado local em algo mais, em uma chance de se contemplar a magnitude da natureza e refletir sobre ela. Essa perspectiva é curiosa pois mostra a visão de um jornalista em uma situação na qual ele pode experimentar infinitas formas de se fazer uma única matéria.


Bem, as qualidades são muitas e isso é um fato. De forma resumida, Feitiço do Tempo é o tipo de filme que sempre será bem-vindo. Dificilmente essa obra irá envelhecer (na realidade, a falta de elementos que remetem a atualidade sequer é sentida), e, além disso, já é um dos maiores clássicos da comédia e com certeza se manterá nesse hall de grandes filmes. Bill Murray entrega aqui um de seus melhores trabalhos e mostra como um dia, uma marmota e um bocado de loucura podem tornar um amargo jornalista em alguém doce e que sabe aproveitar o precioso tempo que tem.


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