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“Escola Base - 20 anos depois”: O poder do erro

Fred Vidal


A reportagem feita pela TV Brasil, em 2014, conta a história e as consequências do caso conhecido como Escola Base por meio de imagens e entrevistas com as vítimas, jornalistas da época, advogados envolvidos e professores de ética jornalística. O escândalo da Escola Base foi causado por uma denúncia de duas mães que acusavam os proprietários e sócios da creche de terem abusado sexualmente dos filhos delas. Sem provas e conduzida por um delegado controverso, a mídia cobriu todo caso com total parcialidade, sem dar voz aos acusados e com matérias sensacionalistas. Esse rumo escolhido pela imprensa fez com que a população se revoltasse com os donos do local, os agredindo nas ruas e destruindo a Escola Base. No final, a história contada pelas mães acusadoras se mostrou falsa. O caso ganhou notoriedade por ser considerado um dos maiores erros da mídia brasileira, já que as notícias sensacionalistas causaram um prejuízo enorme (moral, financeiro e psicológico) aos acusados e, depois, mostraram-se falsas.


Ao longo de toda matéria, Paula Milhim (ex-sócia da Escola Base) mostra sinais do seu desgaste psicológico, mesmo após 20 anos do caso, ao falar frases como: “Eu queria ter uma chance pra recomeçar tudo. Pra tentar ter, pelo menos, um pouco de paz”. Além disso, conta das agressões físicas que sofreu de policiais, o tempo que passou refugiada na casa de parentes enquanto pessoas invadiram e destruíram sua casa, os xingamentos que ouvia na porta da delegacia e a falta de justiça: ela nunca recebeu indenizações pela injustiça, assim como os ex-proprietários Icushiro e Cida Shimada, que faleceram também sem ter recebido nada.


Apesar das sequências de erros do delegado do caso, o que mais impressiona é como a mídia embarcou na história das acusações mesmo sem provas e sem ouvir o lado dos acusados. Isso é explicitado quando se mostra a manchete do extinto jornal Notícias Populares (editado pelo grupo Folha): “Kombi era motel na escolinha do sexo”. A manchete foi publicada no primeiro dia de repercussão da denúncia, quando a única informação que se tinha era de que uma mãe afirmava que seu filho havia sido abusado na creche. Não havia provas nem sequer a defesa dos acusados. A vontade de vender a matéria se sobrepôs à ética.


Talvez fique a impressão de que esses erros ficaram no passado e, hoje, nada disso teria acontecido. Entretanto, podemos ver esse caso como uma simples fake news, que se espalhou pela grande mídia e comoveu a população. De certo, não vemos os grandes veículos de comunicação cometendo tamanha gafe novamente, mas o número de pessoas que procuram informações na internet tem aumentado, sendo, muitas vezes, difícil de filtrar a qualidade da informação em um primeiro cenário.



Fotografia da manchete do extinto “Notícias Populares”. (Fotografia: Jusbrasil)





Um caso recente aconteceu com Nilson Izaias Papinho, o “vovô do slime”. Ao publicar um vídeo fazendo uma brincadeira infantil, foi prontamente acusado de ser pedófilo. Logo depois, percebeu-se que as acusações não tinham fundamentos, mas Nilson já tinha até postado um vídeo visivelmente abalado por conta dos ataques que sofreu. Por certo, as pessoas que acusaram o senhor de 71 anos não foram encontradas e nem punidas, diferente dele, que sofreu com o estresse e com os danos morais. Isso mostra que o anonimato nas redes sociais pode facilitar ainda mais a criação de acusações falsas, o que não aconteceu na questão da Escola Base, já que as emissoras foram condenadas a pagar indenizações para as vítimas. Mesmo que alguns tenham morrido sem receber e outros não tenham recebido até hoje, o culpado foi identificado.


Voltando ao tema principal, o caso da Escola Base é essencial para entendermos o poder da mídia na sociedade: a capacidade de moldar a visão da população para um fato, sendo o julgamento social mais influente do que um julgamento jurídico. Afinal de contas, em termos de sociedade, a imagem de uma pessoa é mais considerada do que a essência dela mesma. Portanto, pode-se concluir que abordagem feita em 1994, além de ter destruído a vida de 6 pessoas, fez a população esquecer de um princípio básico da justiça: todos são inocentes até que se prove o contrário.


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