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Da tristeza da quarentena ao renascimento colorido: desafios do jornalismo de moda na pandemia

Isabela Cherfên


A moda reflete diretamente a sociedade e o contexto histórico nos quais está inserida, e ajuda a compreender sua época. Na pandemia não foi diferente: o mundo da moda passou por algumas transformações.

Desde março de 2020, quando o “lockdown” foi declarado na maior parte do mundo, sentimentos de medo, impotência, tristeza e desânimo se tornaram mais fortes no cotidiano das pessoas. A agonia globalizada influenciou na forma como cada um passou a se vestir, e algumas das maiores revistas de moda, como a Vogue e a Marie Claire, estiveram atentas a isso.

Em abril de 2020, por exemplo, quando a Itália contava às centenas os mortos pela Covid, a Vogue Itália se posicionou sobre o momento delicado com uma capa toda branca. De acordo com o diretor chefe Emanueli Farneti, se manter alheio à situação “não faz parte do DNA da Vogue Itália” e, por isso, a edição que já havia sido produzida e fotografada foi descartada e substituída. Apesar da falta de elementos visuais, a grandiosidade da capa está no valor simbólico que ela carrega: branco significa respeito aos que sofreram o impacto da doença, é uma homenagem aos profissionais da saúde que trabalham na linha de frente e representa um desejo de liberdade, de um novo tempo, de renascimento. Além disso, a folha em branco, prestes a ser escrita, representa uma história que ainda vai começar.



(reprodução: Vogue Itália)


Em 2021, com o avanço dos estudos e da vacinação, a situação sanitária viveu melhoras e a esperança de uma vida livre se expandiu pelo mundo. O tema da edição de setembro de 2021 da Vogue Itália foi “Um Novo Começo”, o primeiro projeto global da revista. Composta por oito capas produzidas por diferentes artistas, o intuito do projeto é mostrar como a vida reaparece após o “lockdown” em todos os cantos do mundo, e como a moda se adapta aos novos tempos. As capas abordam temas como o renascimento, as diferentes maneiras de olhar o mundo, os resíduos produzidos pela indústria da moda, a figura da mulher e a questão racial. O artista e poeta Precious Okoyomon, um dos envolvidos no projeto, buscou representar a relação do ser humano com a natureza, a esperança e o amor, por meio de palavras, cores e formatos.



(reprodução: Vogue Itália)


Outras publicações se posicionaram sobre a pandemia pontuando o efeito que ela teve na moda do dia a dia. A jornalista Maria Rita Alonso, em uma matéria para a Marie Claire do Brasil, citou algumas das principais apostas para o período de liberdade que está por vir: cores vibrantes, muito brilho, tecidos metalizados e peças que fogem do óbvio, como o corset estruturado, o sutiã com borogodó e o vestido bandage.

“O glamour é uma ilusão muitas vezes necessária para o enfrentamento da rotina. E ele fez falta durante os meses de isolamento social, nos quais o moletom e as peças de malha dominaram a cena. É por isso que, relaxadas as medidas de distanciamento, estilistas do mundo todo agora apostam em um clássico da moda festa: o paetê.”


(reprodução: @maluborgesm / @jordannamaia / @leleburnier)


O caráter autêntico e chamativo dessas tendências é resultante do que os psicólogos chamam de “crescimento pós-traumático”, que é quando uma mudança positiva surge depois de um momento desafiador. Após tanto tempo de isolamento social e monotonia, a expectativa é de um grande crescimento criativo na indústria da moda, com exagero de cores, estampas, texturas e formatos. Tudo isso para ajudar a deixar para trás a mesmice e a tristeza da quarentena.


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