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“A Private War” e as consequências da cobertura de guerras

De problemas físicos ao TEPT, filme segue a história de uma das maiores correspondentes de guerra dos Estados Unidos.


Beatriz Costa



Muito se fala sobre os jornalistas heróis de guerra, que arriscaram suas vidas para documentar a realidade nas linhas de frente dos maiores conflitos que acontecem. O que não é mencionado, no entanto, são as consequências de arriscar sua vida todo dia pela sua profissão. "A Private War" segue a vida de Marie Colvin (Rosamund Pike), uma jornalista correspondente extremamente conhecida e premiada que acabou morrendo na linha de frente de uma guerra em Homs, Síria, em 2012.



Começamos a seguir a vida de Marie em 2001, quando, mesmo sob protestos do editor chefe do The Sunday Times (TST), ela viajou para Vanni, no Sri Lanka, para falar sobre a guerra de independência dos Tamil Tigers. É interessante ver como mesmo após sofrer um ataque, que a fez perder a visão do olho esquerdo, a maior preocupação de Marie era seu trabalho. Ainda deitada na cama de hospital, vemos a jornalista registrando em seu gravador todas as anotações que fez no acampamento dos "rebeldes".



Jamie Dornan como Paul Conroy e Rosamund Pike como Marie Colvin (Imagem: Aviron Pictures)


Marie conheceu Paul Conroy (Jamie Dornan), um fotógrafo freelancer, em uma base militar americana no Iraque, em 2003. O levando para Faluja, os dois descobrem uma sepultura em massa das vítimas do ditador Saddam Hussein. A jornalista se emociona com a reação dos parentes das vítimas e se interessa em ouvir cada história, mesmo quando sofre ameaças de prisão.


Ainda em 2003, agora de volta ao Reino Unido, vemos Colvin tendo dificuldades para escrever sobre o caso das sepulturas. Ela volta a beber, quebra coisas, tem flashbacks e ataques de pânico. Quando seu chefe tenta entrar em contato, é completamente ignorado. Em conversa honesta com sua amiga Rita Williams (Nikki Amuka-Bird), a jornalista admite que não consegue tirar a imagem de uma menina sem vida de sua cabeça. É quando sua amiga sugere que talvez ela sofra de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).


No primeiro momento ela nega, dizendo que essa é uma doença de soldados. No entanto, vemos ela se internar num hospital militar para se tratar. Paul Conroy a visita e Marie desabafa sobre sua vida. Falando sobre a morte do pai, sobre o número de pessoas passando fome que ela viu e seu desejo de ser mãe, “como sua irmã”. Ela admite que seus dois maiores medos são envelhecer e morrer jovem.


Durante essa mesma conversa, Paul admite estar feliz que Marie procurou ajuda, pois ela viu mais guerras que alguns soldados. Essa fala dele é muito pesada e faz as pessoas assistindo reconhecerem o perigo que os jornalistas correspondentes enfrentam para trazer a notícia. Todos os fatos terríveis que te fazem passar mal foram vistos por alguém. As vezes é fácil esquecer que por trás do texto tem uma pessoa que pode ter ficado traumatizada.


Pulamos para seis anos no futuro, com Colvin de volta ao campo. Agora a vemos com Paul, em Marjah, no Afeganistão. Um jornalista conhecido morreu em um bombardeio junto com outros civis.


Em uma festa em janeiro do ano seguinte, ela conhece o empresário Tony Shaw (Stanley Tucci), com quem ela passa a noite. Os pesadelos dela não parecem ter melhorado, já que de acordo com Tony, Marie passou a noite gritando aterrorizada.


Em 2011, um ano antes de Homs, seguimos a jornalista em Misrata, Líbia, onde ela foi cobrir os eventos da Primavera Árabe junto com Paul. Enquanto pega o depoimento de um oficial de Muammar Gaddafi que foi obrigado a estuprar mulheres como punição pela revolta das pessoas, a rua ao redor deles começa a ser bombardeada. De volta ao prédio onde estava hospedada, Marie descobre que seu amigo Norm Coburn (Corey Johnson) foi vítima de um bombardeio e não sobreviveu.


Marie consegue uma entrevista com o Coronel Gaddafi, pouco antes de sua morte. O homem que chamava seus inimigos de ratos e punia mulheres e crianças pela guerra civil que aconteceu na Líbia. Sua ditadura cruel terminou com ele encurralado em uma rede de esgotos, enquanto seus seguranças lutavam com os rebeldes que no final ganharam.


Agora com 56 anos, Marie viaja para Homs, na Síria. Marie vê lutas de rua, uma cidade em ruínas e mulheres e crianças presas. Em um hospital improvisado, é um veterinário que ajuda a cuidar dos feridos. Tudo isso prova que a alegação do governo sírio de que ele só bombardeia gangues terroristas não é nada mais que uma mentira. Civis sofreram as consequências da guerra e Colvin reporta tudo isso ao vivo para as emissoras de TV americanas.


Um dia antes do ataque aéreo que tiraria a vida de Marie Colvin e deixaria Paul Conroy com um buraco na sua perna, que por pouco não o matou de hemorragia, a dupla quase deixou Homs, mas eles voltaram. A jornalista sentia que era injusto eles poderem ir embora enquanto mais de 28 mil civis ficavam presos a uma cidade que estava se tornando apenas escombros.


Marie Colvin morreu no dia 22 de fevereiro de 2012. Seu amigo Paul Conroy só conseguiu sair da Síria cinco dias depois do ataque. Ele descreveu sua saída como uma última tentativa desesperada. Teve que enfrentar várias cirurgias e meses de fisioterapia. Quando perguntado por um repórter se ele tinha vontade de voltar para a Síria, disse que se pudesse estaria lá. Uma de suas últimas conversas com Marie foi sobre como os dois provavelmente cobririam essas guerras mesmo que não fossem pagos.


Em vários momentos do filme, pessoas fazem comentários sobre como Marie era “viciada no trabalho”. Seja um amigo, seu ex-marido ou sua irmã, várias vezes percebemos como ela prioriza seu trabalho a sua vida pessoal. É preocupante ver como hoje em dia isso é uma característica valorizada pelos contratantes. Quando ela se internou, chegou a brincar com seu chefe que ela conseguiria subornar um dos psicólogos da clínica para ser liberada.


A última cena do filme é a mesma que a primeira. A cidade de Homs destruída após os bombardeamentos. Mas dessa vez, temos um depoimento de Marie Colvin sobre como ela se importava o bastante para deixar sua casa e ir a esses lugares. “Você nunca vai chegar aonde está indo se você se der conta do medo”, diz Colvin em na última cena do filme. “O medo vem depois, quando tudo acaba.”


Rosamund Pike como Marie Colvin (Imagem: Aviron Pictures)


A passagem de tempo é feita com transições cheias de flashbacks, cortes e emendas. Em vários momentos é difícil saber se Marie está tendo um pesadelo causado pelo TEPT ou realmente no meio da guerra sendo atacada. Nas primeiros minutos do filme você pode até ficar desorientado e quando se acostuma, ainda é uma mudança desagradável.


Um dos maiores defeitos é que o diretor parece dar mais importância a carreira de Marie do que a sua vida. Toda vez que fazemos a transição entre a cobertura de guerra e sua vida “normal”, o diretor parece perder o interesse em contar a história, criando um desequilíbrio que nem mesmo a atuação de Rosamund Pike pôde consertar. Não sei se era a intenção dele, mas a vida de Marie fora da guerra sempre parece ser mais cinza do que nas linhas de frente.


Em situações diversas, vemos como a correspondente priorizava sua carreira em frente a sua vida, o que resultou em sua ruína. Em entrevista ao jornal “The Guardian”, Paul Conroy alega que não era a ausência do medo que fazia Colvin voltar sempre para a linha de frente das guerras, mas sim sua curiosidade e verdadeira vontade de contar a história daqueles que não tinham voz.


É impossível saber o que seria do filme sem Rosamund Pike. A atriz, conhecida por seu papel em "Garota Exemplar", mostra no longa uma atuação tão crua que me vi esquecendo que ela estava interpretando um papel. O show é dela e todos os outros atores são apenas figurantes. Sua performance é definitivamente o ponto alto do filme, sua interpretação tão poderosa que a rendeu uma indicação de melhor atriz no Globo de Ouro.


Apesar de não ser perfeito, o debut de Matthew Heineman fora do mundo dos documentários mostra a vida extremamente perigosa que Marie Colvin vivia para trazer a tona a verdade das pessoas oprimidas sem glorificar a violência causada pela guerra. Conseguindo prender a atenção até o último minuto, é um ótimo tributo a uma das maiores correspondentes de guerra dos Estados Unidos.


A PRIVATE WAR (2018)

Direção: Matthew Heineman

Duração: 110 minutos.

Gênero: Biografia, Drama

Produção: Reino Unido

Elenco: Rosamund Pike, Tom Hollander, Jamie Dornan, Jérémie Laheurte, Stanley Tucci



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