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A importância da fotografia como instrumento de denúncia social em Cidade de Deus

Hernani Gomes



Pôster Cidade de Deus (Divulgação)


Baseado em histórias reais, o filme Cidade de Deus, dirigido por Fernando Meirelles, é um retrato nu e cru da realidade violenta da comunidade homônima, situada no Rio de Janeiro, entre as décadas de 60 e 80. Tem como protagonista Buscapé (Alexandre Rodrigues), um jovem negro apaixonado por fotografia que acompanha a expansão da favela onde mora, assim como do tráfico e do crime organizado. Trata-se de uma das obras cinematográficas brasileiras de maior prestígio de todos os tempos, com quatro indicações ao Oscar, pioneira ao abordar o cotidiano de pessoas que vivem os efeitos da desigualdade social em sua forma mais profunda.

O início da trama destaca a situação de marginalização dos moradores do conjunto habitacional em seus primórdios: para o governo dos ricos, quem não tinha moradia que se mudasse para a Cidade de Deus, local sem acesso a transporte público, sem energia elétrica, sem asfalto e distante do cartão-postal do Rio de Janeiro. Nesse contexto social, surge o “trio ternura”, grupo de ladrões formado por jovens da comunidade. Eles realizam assaltos e dividem parte do roubo entre os moradores.

Em cena emblemática, Buscapé, ainda criança, presencia a morte de um dos principais assaltantes da Cidade de Deus, Cabeleira (Jonathan Haagensen), pela polícia. Ao observar um fotógrafo registrando a morte de Cabeleira, Buscapé desperta em si o desejo por uma máquina fotográfica e pelas potencialidades que ela oferece. Tirar fotos é, para ele, uma brecha para entrar na sociedade oficial e se afastar do mundo do crime.


Registro fotográfico da morte de Cabeleira (Imagem: Reprodução)


Dez anos depois, como narrador-personagem, o jovem Buscapé relata a vida na favela do seu ponto de vista — a partir das lentes da câmera. A fotografia é paixão que ele alimenta desde a infância. A partir desta próxima fase, evidencia-se a sofisticação técnica da linguagem fotográfica do próprio filme, que passa a ser gravado com a câmera na mão, aludindo ao olhar de fotógrafo que o protagonista adquire. Ele documenta com a máquina o cotidiano na favela e testemunha a ascensão de um dos maiores chefes do tráfico da Cidade de Deus: o implacável Zé Pequeno (Leandro Firmino).

Zé Pequeno mostra-se figura atroz em sua busca pelo controle das “bocas de fumo”, pontos de venda de drogas ilícitas que compõem a rede de tráfico. Ele age impiedosamente com todos que o cruzam, assassinando quem se postar em seu caminho. Tais manifestações de poder são percebidas com respeito e medo pelos colegas da facção e constituem um modelo para a juventude periférica que, sem amparo do Estado, se inicia na vida criminal desde muito cedo. O filme ainda revela com fidelidade a progressão da carreira no tráfico, dividida em funções que viabilizam o crime organizado.

O longa prossegue narrando a disputa de poder entre a facção de Zé Pequeno e uma facção rival, culminando em uma guerra marcada pela tragédia de inúmeras famílias inocentes e pela naturalização da morte e da violência. O combate armado na favela garante a atenção do jornal local.

Simultaneamente, Buscapé começa a estagiar nesse jornal, momento em que o filme aproxima tanto seu protagonista quanto o espectador de ambientes particulares do jornalista, como o laboratório fotográfico e a sala de redação. Inadvertidamente, Buscapé acaba conectando o jornal e a favela, pois consegue em primeira mão fotos de crimes e momentos da guerra. É uma conexão que se constrói duplamente, uma vez que os próprios traficantes pedem que Buscapé os fotografe — e essa visibilidade na mídia é uma forma de afirmação de poder na comunidade e fora dela.


Buscapé fotografa Zé Pequeno e facção (Imagem: Reprodução)


A esse respeito, fica nítido o papel da fotografia de Buscapé: o de denunciar as mazelas sociais que cercam determinada comunidade e o de promover a visibilidade de camadas marginalizadas e ocultas da sociedade. Buscapé é um fotojornalista nato — suas fotos transmitem múltiplas informações e têm valor social imensurável. Ele é capaz de flagrar todo o ciclo de violência através de sua câmera: a intensa troca de tiros entre as facções, os atos corruptos da polícia e a morte indigesta do imperador do tráfico, Zé Pequeno.


Publicação da foto de Buscapé no jornal local (Imagem: Reprodução)


Cidade de Deus é uma obra prima do cinema nacional, enaltecida pela crítica especializada, que nos convida a refletir sobre realidades subjacentes, muitas vezes ofuscadas de forma deliberada pela mídia e pelos poderosos que desejam manter privilégios e paralisar transformações sociais. Mostra a realidade de pessoas imersas num mundo em que Estado e oportunidades não estão presentes. Além de tudo isso, mostra a importância da fotografia e do fotojornalismo como ferramentas de denúncia social.



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