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Uma lavagem de dinheiro necessária

Desvid-19: há um mês, portal Crusoé noticiava membro do governo flagrado em operação da PF

José Mário Curvo e Ferraz Santos


Foto: Canal Ciências Criminais


Imagine uma fila com 50 brasileiros esperando o auxílio emergencial de 600 reais. Mas, pense agora todo esse montante direcionado a essas cinco dezenas de necessitados é guardado na cueca de um homem de 69 anos, eleito pelo povo para representá-lo no Congresso Nacional. Essa cena aconteceu de fato. No último dia 15 de outubro, funcionários policiais federais cumpriam mandato da Operação Desvid-19, cujo último alvo foi o vice-líder do governo Bolsonaro, Chico Rodrigues (DEM-RR). Curiosamente, o flagra aconteceu uma semana após o presidente decretar o término da Lava-Jato devido à suposta honestidade do seu governo.


Seria mais um caso corriqueiro de corrupção no Brasil se o senador não tivesse escolhido um meio incomum para ocultar o dinheiro: escondê-lo no corpo, inclusive dentro da sua cueca e entre as nádegas. Embora não seja inédito, o caso viralizou nas redes sociais e rendeu muitas críticas ao modus operandi da política nacional, como abordou a reportagem do portal Crusoé Em busca e apreensão, PF encontra dinheiro entre as nádegas de vice-líder de Bolsonaro.


A matéria é assinada pela redação do jornal e, por isso, conta com uma crítica ao fato noticiado. São relembrados casos de dinheiro escondido em roupas íntimas não são novidades no Brasil. Podemos citar os exemplos famosos de José Adalberto Vieira da Silva, assessor do deputado estadual José Guimarães (PT-CE), com 100 mil dólares e de Nelma Kodama, doleira flagrada com 200 mil euros, apesar de ambos não foram abordados pela matéria.


A estratégia adotada pelo autor logo no começo do texto indica uma preocupação em não omitir informações para evitar qualquer ataque de fanáticos políticos. Mas, ao mesmo tempo, busca ressaltar a repugnância pelo ato do senador esconder dinheiro entre sua nádegas, inclusive sujando-o de fezes. A reportagem faz essa pequena crítica logo no começo do texto e, ao longo do corpo da matéria, busca informar o leitor a fundo do fato, seguindo os moldes de um texto jornalístico clássico.


Pelo fato do texto ser assinado pela redação da Crusoé, espera-se uma crítica mais abundante à corrupção política. Porém, a matéria limitou-se a usar apenas dois parágrafos para repreender a atitude do senador Chico Rodrigues. Além de noticiar o ato do desvio do dinheiro, a reportagem poderia talvez investigar mais ou trazer mais dados sobre o político, já que o portal não conseguiu contatar a assessoria do vice-líder do governo.


Uma informação importante - e disponível para qualquer cidadão brasileiro - é o salário do político em questão. O portal poderia informar a quantia recebida mensalmente pelo senador para se ter noção da quantia desviada. De acordo com o site do Senado Federal, Chico Rodrigues recebe mensalmente R$ 33.763,00, mas com impostos e o PSSC (Plano de Seguridade Social dos Congressistas) o valor cai para R$ 21.351,28. Portanto, ao esconder R$ 70 mil, o senador tentou desviar dos cofres públicos cerca de três meses e meio de trabalho para ganho pessoal. Sendo que R$ 30 mil estava dentro da sua cueca.


Como se não bastasse, o político pode ser considerado o pioneiro da lavagem de dinheiro dupla. A primeira seria a tradicional da política, isto é, esconder recursos obtidos ilegalmente para benefício próprio. Já a segunda é a inovação de Chico Rodrigues. Ao esconder uma parcela do montante nas suas nádegas e, assim, sujá-la de fezes, torna-se necessário lavar essas cédulas para reutilizá-las. Agora, essa tarefa ficou para a Polícia Federal. Parabéns ao vice-líder do governo Bolsonaro por romper as barreiras do constrangimento no cenário da corrupção brasileira e também por demonstrar a ambiguidade do termo lavagem de dinheiro no sentido conotativo e denotativo. É um exemplo perfeito para os professores de gramática usarem nas salas de aula!


Por fim, vale ressaltar que o portal citou uma fonte na Polícia Federal na reportagem para detalhar um pouco mais do momento da busca e apreensão, principalmente o constrangimento ao descobrirem o esconderijo para o dinheiro. Evidentemente, uma informação exclusiva faz a diferença em um texto jornalístico e foi uma boa estratégia adotada. Contudo, seria interessante abordar mais a fundo a descrição desse momento, talvez até utilizando-a no título. E falta também um pouco mais de criticidade ao texto, justamente por ser de autoria da redação e também pela espantosa atitude corrupta do senador.


A leitura é recomendável para aqueles que buscam se informar ou se surpreender com o noticiário político. No entanto, se você pretende achar curiosidades ou entender esse caso mais profundamente, o ideal é que procure alguma reportagem especial. Agora, caso queira desvendar como exatamente funciona a corrupção na política nacional, infelizmente desconheço alguma reportagem capaz disso. Aliás, quem consegue explicar o Brasil?


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