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Rota 66, uma história policial muito além dos noticiários

O livro “Rota 66” aborda uma pesquisa de Caco Barcellos sobre os assassinatos da Rota em São Paulo, mesclando uma boa pesquisa com um excelente jornalismo literário

Francisco Procópio


O livro Rota 66 - A história da polícia que mata é um livro-reportagem do jornalista Caco Barcellos. O trabalho parte de uma pesquisa feita sobre os assassinatos da Rota (Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar), que foi um esquadrão da polícia militar de São Paulo criado para combater as guerrilhas na ditadura e mesmo depois do fim desses combates, continuavam utilizando os mesmos métodos com a população, durante os anos de 1970 e 1990, em São Paulo, sob a perspectiva das vítimas. O livro inicia com um prefácio de um colega de profissão, Narciso Kalil, que diz que Barcellos é um jornalista que tem lado, o das vítimas. A partir disso entendemos o objetivo do livro, que é o de dar voz aos que não eram ouvidos pela mídia tradicional.

Capa do livro (Imagem: Reprodução)


O primeiro caso descrito e que, inclusive, dá nome ao livro é o da Rota 66, pois esta em 1975 foi responsável pela morte de forma cruel de três jovens da elite paulista. Os meninos foram abordados com a suspeita de roubo e logo após foram assassinados, sem ao menos reagir a abordagem policial. O caso foi relatado pelos policiais de uma maneira totalmente diferente das testemunhas, gerando uma dúvida em Caco de que isso podia ser mais comum do que se imaginava na época. Por isso, ele inicia uma longa pesquisa, que foi se provando caso após caso, que a polícia de São Paulo propagava mais violência do que a combatia, transformando-se em uma das polícias mais violentas do mundo.


A Rota tornou-se uma verdadeira exterminadora de vidas, contrariando o seu princípio fundamental: defender a população e garantir sua segurança. A mídia elogiava a Rota, dizendo que estava acabando com a criminalidade. Mas, na verdade, o livro mostra que a maioria dos mortos pela Rota eram pessoas inocentes, ou seja, trabalhadores, menores de idade que raramente tinham antecedentes criminais. Existia também um padrão específico, homem negro ou pardo, jovem, de classes baixas. Conclui-se que além de não cumprir o seu papel, a polícia militar funciona como um mecanismo de disseminação de ódio e preconceito.


O livro, além de tratar sobre uma temática ainda importante de ser discutida nos dias de hoje, é uma obra prima do jornalismo, devido à profunda pesquisa do jornalista, que buscou dados em diferentes locais, como no banco de dados da polícia, mostrando inconclusão e arquivamento de casos pela própria PM. Além de arquivamento de óbitos bastante duvidosos, sobre a veracidade da inocência policial nos assassinatos, que perderam ainda mais respeito em análises feitas pelo jornalista em IMLs e hospitais onde os corpos apareciam com marcas de execução. O jornalista, ao entrevistar testemunhas e raríssimos sobreviventes, sempre chegava em um depoimento diferente da versão policial. É com essa pesquisa bem amarrada que consegue passar uma boa credibilidade ao leitor.


Além da credibilidade, Caco conseguiu envolver os leitores com a história, gerando uma certa empatia com os casos vividos em São Paulo. Tudo isso é possível graças ao jornalismo literário. Um tipo de jornalismo que busca através de recursos literários como: os diversos tipos de narrador, a colocação de diálogos, um descritivismo dos fatos e das pessoas, além de outros mecanismos como digressão e regressão, afastando-se assim do jornalismo diário, e penetrando profundamente nas pessoas, histórias e ambientes. Criando uma realidade mais profunda e diversa do que vemos normalmente nos noticiários.


O autor seleciona bem os recursos a serem utilizados no livro, por exemplo, um descritivismo parecido com o do período literário realista brasileiro, em que Caco descreve bastante os traços físicos e comportamentais. Usa também uma digressão para rememorar a história dos personagens. Isso tudo caminha para gerar uma certa empatia no leitor, que consegue sentir um pouco a sensação que os familiares e amigos sentiram ao perder pessoas para a Rota.


O narrador é outra parte importante do livro, que contribui para deixar bem claro tudo que é escrito, seja a parte literária ou a parte da pesquisa, para isso utiliza dois narradores em específico. O narrador personagem em primeira pessoa junto ao narrador intruso em terceira pessoa. Ambos são importantes para mostrar um conhecimento e entendimento de tudo que é falado.


Em suma, Caco foi exemplar na escrita do livro, utilizando o bom e velho jornalismo, com uma pesquisa muito densa, com um estilo literário, que permite dar a voz a pessoas que sempre foram silenciadas pela mídia tradicional.


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