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O Rio de Janeiro que os cartões postais não mostram

Rosamaria Santos


Charge: Junião


A violência que amedronta os cariocas e lança o Rio de Janeiro nos noticiários como um lugar perigoso tem o respaldo da Polícia. A denúncia é apresentada pelos jornalistas Igor Mello e Lola Ferreira na matéria A mão invisível da milícia, publicada pelo UOL. Um trabalho excelente, resultado de coragem e muito esforço, onde as dúvidas mais frequentes e até as mais raras sobre a atuação das facções são apresentadas. Com certeza, uma leitura que vale muito a pena para entender a geopolítica fluminense.


Quem mora em uma região dominada por associações paramilitares sabe que esses locais têm menos confrontos com a PM (Polícia Militar) do que áreas geridas pelo tráfico. Algumas pessoas chegam a se sentir mais seguras com a milícia do que com outros grupos. Óbvio que tranquilo seria não estar sob a influência de bandidos, porém, em terras onde o poder público é ausente, tais pensamentos são perfeitamente compreensíveis. O que justifica a alta criminalidade e a ação branda do Estado? Esse é o questionamento que que surge diante do cenário. A resposta não é louvável e nem surpreendente: alianças do crime organizado com membros das forças armadas. Embora a informação não seja desconhecida por quem vive no Rio, prová-la não é tão simples, mas nada que uma boa dose de profissionalismo e dedicação não resolvam. Foi assim que Igor e Lola desenvolveram uma brilhante matéria.


A dupla se debruçou durante meses sobre vários dados de tiroteios na cidade. Para ser mais exata, foram analisados quase 3 mil ocorrências de conflitos armados. Tudo com a ajuda do Laboratório Fogo Cruzado, uma das sérias fontes de informação não oficial que a imprensa pode usar para fazer matérias com maior precisão. A ajuda dessas plataformas, inclusive, se torna essencial já que não são raros os casos em que o governo se nega a fornecer materiais públicos, direito garantido pela lei de acesso à informação. O fruto do árduo trabalho foi um mapa hospedado no Map Hug, onde é possível ter acesso aos locais das batalhas, com coordenadas exatas, e ao nome da seita que comanda o território.


Para corroborar a afirmativa das relações irregulares entre Estado e crime, alguns especialistas no tema são ouvidos. Entre eles estão o sociólogo José Cláudio Souza Alves e o promotor Luiz Antônio Ayres que, por meio de seus estudos, apontam os claros indícios dos vínculos que indicam essas relações, como apenas 1% das prisões serem de milicianos e, em expressão mais explícita do envolvimento do governo, a prisão do major Ronald Paulo Alves Pereira por liderar a quadrilha Escritório do Crime. Os estudiosos ainda revelam os motivos de alguns traficantes, como o Ecko, chefe do Liga da Justiça, deixarem o tráfico para se juntar aos paramilitares. Com entrevistados que têm expertise no assunto, o texto amplia os próprios objetivos: a pesquisa. O que, a princípio, falaria apenas do acordo entre bandidos e polícia passa a abordar os elos internos das facções.


Ler essa reportagem causa nos mais curiosos um desejo enorme de aprender mais sobre o que está por trás dos grupos que levam terror à milhões de cidadãos. Satisfazendo o desejo do leitor, os jornalistas acrescentaram um curto vídeo com uma breve explanação de como as milícias se formaram e expandiram seus domínios. Assim, ao terminar a leitura, ninguém fica com dúvidas a respeito de algum dos pontos tratados. Uma jogada de mestre que todo profissional da imprensa que deseja desenvolver textos longos e dessa magnitude deveria aderir.


Faltam palavras para classificar o grandiosos trabalho da dupla que dedicou meses de suas vidas para tratar de um tema super pertinente aos cariocas. Não à toa eles foram convidados para o XV Congresso de Jornalismo Investigativo da ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) onde, mais uma vez, demonstraram, por meio da explanação de como essa reportagem foi produzida, que são excelentes jornalistas. A leitura dessa obra prima é, então, obrigatória na vida de um estudante da área por apresentar o Rio de Janeiro que os cartões postais não mostram e por ser um resumo de como um bom repórter deve exercer a profissão.


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