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“O primeiro dia depois do inferno em Suzano”: a importância do recomeço

Fred Vidal


A reportagem O primeiro dia depois do inferno em Suzano, escrita pela jornalista Beatriz Jucá e publicada no El País, tem o objetivo de relatar a volta das atividades na escola estadual Professor Raul Brasil, uma semana depois do massacre que deixou dez mortos e onze feridos. O episódio ocorreu em Suzano, São Paulo, no dia 13 de março de 2019 e se tornou notícia quando dois jovens, armados, invadiram o colégio, atirando em alunos e funcionários. Após o tiroteio, um dos assassinos disparou em seu parceiro e depois em si mesmo, levando os dois à morte.


Fotografia de Caio Castor, publicada na matéria O primeiro dia depois do inferno em Suzano do El País


A matéria traz o sentimento de desejo por mudança, o mesmo sentimento de muitos que escolhem o jornalismo como profissão. As entrevistas e imagens escolhidas pela repórter são marcantes e devem ser levadas como inspiração. Elas emocionam como, por exemplo, as falas de funcionárias da escola que prometem não abandonar o local, ficarão para ajudar as crianças. Ler a reportagem é renovar as esperanças de que, com trabalho humano, é possível transformar um ambiente caótico em um lar acolhedor.

Para isso, jornalista inicia o texto com a imagem marcante de uma sobrevivente em frente a um muro coberto por homenagens às vítimas da tragédia. Na foto, é perceptível a pose confiante da adolescente de 15 anos, que, uma semana antes, passava por uma situação amedrontadora. Isso pode ser fruto do trabalho psicológico oferecido pelo colégio, que não nega o trauma da situação, mas pretende mostrar que a história dos envolvidos é mais importante. O colégio não deve ser retratado apenas como o local do massacre.


Um fator essencial para o recomeço é o reencontro. Já na entrada, alunas foram agradecer às funcionárias que as abrigaram na cozinha, atitude que salvou vários estudantes. Essas destacaram que não deixarão a escola porque a alegria das crianças é o motivo de suas forças. Assim, os abraços dos jovens e dos pais eram recorrentes, como as homenagens aos falecidos, por meio de canções e balões brancos soltos no céu. Além disso, grupos religiosos entregavam rosas e balas para os estudantes que preenchiam a parede com cartas, flores e pinturas. Recordar e preservar as boas memórias dos que se foram também é uma forma de diminuir a mancha causada pelo massacre.

Outra medida, retratada na reportagem, foi a obra providenciada pelo Estado, a fim de renovar a imagem da escola Raul Brasil. Azulejos foram cobertos por cimento, paredes foram pintadas, novas mesas e cadeiras foram adicionadas. Entretanto, a estudante Khetlynn Adrielly, de 16 anos, disse que não tinha como esquecer tudo que aconteceu e que se sentia desesperada, por mais que o local não pareça igual. Rhillary Barbosa de Souza, 15 anos, afirmou que o ambiente permanece o mesmo, fazendo com que as memórias ruins voltem à cabeça. Mesmo assim quis ir ao colégio para se certificar de que seus amigos estavam bem. As atividades oferecidas pela direção, como esporte, grupos de oração, massoterapia e ações de reiki ficaram em segundo plano. O importante mesmo era poder voltar a conviver com aqueles que faziam parte do cotidiano.



Imagem do pátio da escola estadual Raul Brasil(Fotografia: Governo da São Paulo)



O relato, de Guilherme Marinho de Oliveira, 14 anos, deixa claro o peso na memória desses jovens. Ele contou que estava sem dormir e vomitando tudo que tentava comer. O seu sofrimento era ainda maior, já que um membro da sua família também poderia ter se tornado uma vítima. O motivo disso é que ao perceber a movimentação estranha, Dênis de Oliveira dos Santos, pai do adolescente, se aproximou do colégio, encontrando um dos atiradores, que tentou disparar mas a arma acabou falhando. Ao ser entrevistado, Dênis cobrou que o Estado ofereça um acompanhamento psicológico intenso para os alunos.


Por meio dos relatos de estudantes, pais e funcionários, a reportagem deixa evidente o clima carregado de emoção na escola Raul Brasil. Isso se deve pelas entrevistas que trazem palavras marcantes, como por exemplo “O coração ainda está despedaçado. A gente veio pela alegria de ver os estudantes voltando. São a nossa força”, ditas por Sandra, cozinheira da escola. A jornalista soube retratar a tensão do momento, contando, após as entrevistas, o que cada pessoa estava fazendo no momento do massacre.


As três imagens presentes na matéria mostram cinco sobreviventes e nenhum sorriso. Entretanto, é possível perceber a vontade de lutar pela reconstrução da escola. Esse desejo É gratificante saber que momentos como esse podem ser superados por meio da compaixão, por mais que a mídia tenha noticiado o caos e não tenha repercutido o recomeço. O futuro de centenas de estudantes não pode ser atrapalhado por uma tragédia e todos ali sabem disso. Essa é a batalha para que o primeiro dia depois do inferno se torne o primeiro dia na busca por um final feliz.


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