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O caos do cancelamento na era digital

Saiba mais sobre sobre a cultura que polarizou o mundo virtual e suas repercussões na sociedade contemporânea

Anne Poly


(Imagem: Reprodução)


Se você passa parte do seu tempo no Twitter, provavelmente já presenciou o cancelamento de alguém. E, se percebeu a dinâmica dessa cultura, receou ser cancelado algum dia. O grande objetivo da prática é fingir que determinado usuário não existe mais. A lógica é simples: se alguém tem uma opinião ou posicionamento que é ofensivo, então não merece mais existir na sociedade. A matéria 10 Theses About Cancel Culture (10 teses sobre a cultura do cancelamento, em tradução livre), escrita por Ross Douthat - analista político e jornalista norte-americano - para o New York Times, é uma ótima leitura para quem quer entender as causas e as consequências dessa forma de linchamento virtual, tão recorrente nas redes sociais.


A análise de Ross estabelece 10 pontos sobre o cancelamento social que ocorre na internet. Sua primeira tese indica que tanto a carreira profissional quanto o convívio interpessoal de um indivíduo são afetados quando esse alguém é cancelado. Denúncias sérias, como a de que um internauta é fascista, ameaçam aspectos importantes da vida atingida, e vão além do meio digital. O jornalista afirma que, se as acusações surgem de participantes do círculo profissional da pessoa, qualquer posicionamento que desqualifique seu caráter pode também determinar o seu futuro. A verdade apontada por ele mostra que uma publicação com alcance viral sobre a grosseria de um vendedor, por exemplo, pode abalar tanto a permanência no atual emprego quanto futuras oportunidades de trabalho. O perigo dessa realidade é que famílias inteiras podem ser financeiramente prejudicadas por conta de uma palavra mal colocada.


Todas as culturas cancelam, o que muda é a razão e a intenção desse ato. Esse panorama estabelecido no texto revela que grande parte do conteúdo de sucesso de décadas atrás seria problematizado nos dias atuais. Personagens, filmes e novelas com vertentes racistas e misóginas não seriam aceitos na contemporaneidade, o que destaca o amadurecimento da sociedade em relação a questões sociais. O respeito às minorias cresceu, embora ainda haja um longo caminho a ser percorrido. Cancelar pontos de vista preconceituosos, e não o entretenimento em si, parece ser a melhor opção, de acordo com o autor. Diante disso, o leitor compreende que a proibição da exibição de clássicos televisivos não é a solução, mas sim a discussão sobre como houve uma evolução no pensamento social com o passar do tempo.


Será que a liberdade de expressão habita na cultura de cancelar ininterruptamente cada pessoa que comete um erro? Não é isso que defende o jornalista. Segundo ele, a era digital deveria permitir um maior número de posicionamentos, e não afugentar aqueles que pensam diferente da maioria. A separação entre um ser e a sua opinião é escassa na internet, e o julgamento dá lugar à anulação da importância de um indivíduo. Douthat ainda afirma que cidadãos livres respeitam outros cidadãos livres, mesmo que discordem de suas convicções. Esse trecho do artigo desconstrói a ideia contemporânea de que um ser é solto das amarras sociais quando se vê desprendido de pensamentos arcaicos. Por isso, apenas entender o preconceito como um vilão social não é o suficiente, esse tipo de visão não abriga o fato de que uma opinião divergente pode não ser discriminatória em todos os casos. Na verdade, essa liberdade vem da compreensão de que nem todos apresentam as mesmas perspectivas na vida, e não há nada de errado nisso - contanto que não haja intolerância.


Duas teses contempladas no texto formam uma relação brutal: a internet estendeu o alcance do cancelamento, e esse estendeu o limite da censura. O colunista destacou que, embora há alguns anos as pessoas fossem canceladas, isso não ocorria em escala mundial, e principalmente por não acontecer virtualmente, as consequências do ódio podiam ser amenizadas com uma simples mudança de território. Os internautas estão em todo lugar, ou seja, se alguém é linchado virtualmente por conta de suas atitudes, muito embora essa pessoa esteja disposta a mudar seu ponto de vista, seu erro vai arruinar qualquer tentativa de transformação de atitude com um simples clique no Google. Com isso, é possível entender que o ato de cancelar limita falas, não com o objetivo de reformular pensamentos de maneira positiva, mas de confrontar essas opiniões e odiar quem quer que as tenha propagado.


Outra questão levantada pelo autor da matéria é que celebridades são canceladas o tempo todo, mas é raro que essas tentativas de anulação sejam bem sucedidas. Segundo ele, é difícil manter esse cancelamento porque pessoas famosas podem usá-lo como uma maneira de alavancar sua própria carreira e tornar seu público ainda mais fiel. O conteúdo gerado por cancelados como a célebre autora J. K. Rowling são aclamados demais para que um erro cometido por eles destrua o alcance de suas produções, mesmo que não haja um arrependimento por parte dos artistas. Essa análise facilita o entendimento da dinâmica das redes sociais. Enquanto o famoso for proveitoso para o entretenimento, seu cancelamento será apenas temporário.


Por outro lado, Ross indica que a cultura do cancelamento é mais eficaz contra pessoas que não apresentam fama e poder. Isso ajuda quem lê o texto a analisar que cancelar artistas pode não dar certo, mas o ódio contra os defensores dos seus posicionamentos "canceláveis’’ é extremamente fácil. Dessa forma, julgar e censurar quem não foi o autor do erro é algo feito com recorrência nas mídias sociais em razão da sua efetividade. Infelizmente, aqueles que cancelam posturas também anulam pessoas, o que torna a discordância de opiniões algo mais poderoso e destruidor.


10 Theses About Cancel Culture é uma matéria intrigante e muito bem elaborada. As teses apresentadas pelo jornalista são enriquecedoras, repletas de argumentos que podem ser aplicados no cenário digital brasileiro, e precisam ser lidas por aqueles que cancelam com frequência na internet sem pensar nas consequências disso. O texto é excelente para leitores que desejam entender como os cancelados são prejudicados, almejando romper o círculo vicioso do ódio a partir dessa nova perspectiva. É indiscutivelmente mais difícil abraçar novamente o caos do cancelamento após a leitura.



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