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O cancelamento: qual é a influência da mídia e os efeitos da nova prática no meio jornalístico

Flávia Lima tece reflexões interessantes em um texto importante para novos e antigos jornalistas

Camila Sant’Anna


O termo "cancelar" significa muito mais para os jovens internautas do que simplesmente suspender um evento ou tornar algo nulo. Na era digital, cancelar é: "a tentativa de proscrever na internet alguém que apresentou um comportamento considerado reprovável, ou seja, o velho linchamento público". É assim que a repórter Flávia Lima descreve esse novo reflexo de velhos fenômenos em seu artigo de opinião A cultura do cancelamento. Além de contextualizar e explicar essa prática, Flávia toca em um tema extremamente importante para todos os estudantes de jornalismo: como a cultura do cancelamento afeta o jornalista e como a própria mídia pode incentivá-la.


Apesar de ter muito embasamento, visto que a autora é uma das responsáveis pelo contato direto com os assinantes e leitores da Folha, ocupando o cargo de ombudsman há mais de um ano, algumas coisas no artigo diminuem um pouco sua qualidade. Os vários parágrafos pequenos e soltos, estratégia que agiliza a leitura, ficaram focados demais em sua opinião pessoal, o que algumas vezes deu a sensação de um texto remendado e preso ao "achismo".

Outro fator que pode ser questionado é a própria organização do artigo. Flávia começa com a seguinte frase: "A discussão da vez é a chamada "cultura do cancelamento" das redes sociais. Como isso tem afetado o jornalismo?". Apesar de ser muito interessante começar o texto com uma pergunta, ela só é respondida no nono parágrafo. Entre a pergunta e a resposta, entraram contextualizações, teses e opiniões. Aprendemos na faculdade que temos que responder nossas perguntas o quanto antes no texto, para ir direto ao ponto e prender a atenção do leitor. Ainda que seja um texto opinativo, a falta de resposta pode frustrar o leitor.


Deixando as "falhas" para trás, a autora traz reflexões extremamente interessantes para o meio jornalístico e para toda a sociedade. Sem perder tempo para explicar o significado do termo, já tão saturado, Flávia discute sobre como "cancelar" interdita e impede um diálogo saudável. Além disso, ela explicita o aumento da intolerância com essa prática, e aponta que aqueles que se dizem ameaçados pelo cancelamento e temerosos com a censura são justamente os que censuravam e dominavam o discurso em primeiro lugar.


É muito tentador, especialmente na internet, se render a esse sistema já vigente e cancelar alguém, mas, como futuros jornalistas e, acima de tudo, como pessoas democráticas, é preciso saber as consequências exatas do que se fala e o efeito que práticas unilaterais, como o cancelamento, podem ter. Por isso, é importante ler artigos como o da Flávia Lima e tantos outros que tratam do tema, estimulando o desenvolvimento de um senso crítico sobre os comportamentos, online ou não, que firam a verdadeira essência do jornalismo: ser uma ponte para o diálogo.


Todo repórter deve prestar atenção e entender profundamente aspectos da cultura do cancelamento tratados pela reportagem, tanto para não sofrer com a cultura do cancelamento, quanto para não fomentá-la. É importante que a comunidade jornalística faça sua mea culpa pela produção de matérias extremamente parciais, ao ponto de não escutar o outro lado, aderindo, assim, à lógica desse fenômeno tão prejudicial. Como médicos, policiais ou cientistas, jornalistas não podem se dar o luxo de cometer erros crassos, ainda que não intencionais, que afetem toda uma sociedade e sua opinião pública. Por fim, trago a reflexão que está tanto no subtítulo, quanto no último parágrafo de Flávia: "O diálogo e a crítica não devem ser interditados nem pelo autoritarismo nem pelas boas intenções".

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