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O ao vivo e uma operação policial

Atualizado: 21 de dez. de 2022

Como uma cobertura em tempo real pode influenciar o desfecho de uma operação policial em andamento

Caio Maués


Cobrir um evento ao vivo é um desafio para qualquer jornalista. Reportar fatos do local de um acidente ou crime em andamento requer atenção e responsabilidade de toda a equipe que trabalha na transmissão em tempo real. A presença de jornalistas pode influenciar no desfecho de um fato, como - por exemplo - o caso do sequestro do ônibus da linha 174, em junho de 2000 no Rio de Janeiro. Essa é a opinião do jornalista Vinícius Dônola, atual âncora da BandNews FM do Rio de Janeiro, que recebeu o Pitacos! UFRJ para uma conversa.

Segundo Dônola, no caso 174, a presença de jornalistas mudou a forma como a polícia militar abordou o sequestrador que estava dentro do ônibus com os reféns, e os fatos que se seguiram.

“A transmissão ao vivo do fato mudou o fato, mudou a maneira do como a polícia iria abordar o bandido dentro ônibus mantendo vários passageiros reféns, e a partir dessa mudança todo o desenrolar dos acontecimentos, trágico, se deu pela presença dos jornalistas”, conta Vinícius.

Mas não se deve ter a ideia de que, nesse caso, era preciso haver a interrupção do trabalho da imprensa sobre aquele episódio. Dônola enfatiza que o deve ser destacado é a possibilidade de mudança no decorrer de uma operação policial, como acesso às informações transmitidas ao vivo. Hoje em dia, por exemplo, relatos podem chegar imediatamente ao criminoso e alterar de forma drástica, e trágica, uma operação.

“Uma câmera transmitindo ao vivo uma cena, pode chegar no celular do sequestrador e isso altera completamente a dinâmica", conta o jornalista Vinícius Dônola.

O âncora também ressalta que com o grande avanço tecnológico, a grande massa se tornou uma “produtora de conteúdo", através, por exemplo, de celulares e câmeras de segurança, que não era o que acontecia 22 anos atrás, como no caso do sequestro da linha 174. Ou seja, não havendo chance mínima de se conter qualquer alteração num acontecimento, afinal todos estão registrando e produzindo alterações.


O Sequestro da Linha 174

No dia 12 de Junho de 2000, Sandro Barbosa do Nascimento parou a cidade do Rio de Janeiro, sequestrou o ônibus da linha 174 em frente ao Parque Lage, na zona sul da cidade, mantendo cerca de dez pessoas reféns. Enquanto negociava com a polícia, Sandro agrediu alguns passageiros e chegou a simular a morte de uma das mulheres que estava dentro do ônibus.

O fato teve um desfecho trágico. Ao se render, Sandro desceu do ônibus usando a professora Geísa Gonçalves como escudo. Um soldado do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope), Marcelo Oliveira, atirou contra o assaltante com o intuito de matá-lo, mas os tiros assustaram Sandro que disparou três vezes nas costas de Geísa. A professora, de 21 anos, morreu antes de chegar no hospital. Sandro foi detido e levado para um camburão da polícia, onde foi assassinado, asfixiado, a caminho do Hospital Souza Aguiar. Três policiais militares foram acusados de homicídio qualificado, o Capitão Ricardo de Souza Soares e os soldados Flávio Durial Dias e Márcio Araújo David. Eles foram absolvidos, em 2002, pelo IV Tribunal do Júri do Rio de Janeiro.


Momento em que o Soldado Marcelo Oliveira atirou contra Sandro Barbosa e Geísa Gonçalves. Imagem: Record TV

A morte de Sandro e Geísa

Geísa Gonçalves foi levada às pressas ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos, e morreu durante o caminho. Já Sandro foi levado dentro do camburão da polícia para o Hospital Souza Aguiar, ele chega morto no hospital. A princípio acreditava-se que ele havia sido baleado devido a quantidade de sangue em sua camisa, mas horas depois foi constatado pelo legista que ele havia morrido asfixiado. O jornalista Vinícius Dônola, na época repórter do Jornal Nacional, foi um dos primeiros a noticiar a morte de Sandro e o possível assassinato do sequestrador por policiais do Bope.

Informações de bastidores apontavam para uma possível tentativa de se atirar, com uma arma de fogo, no cadáver de Sandro Barbosa, dentro do Instituto Médico Legal (IML). Isso seria feito para tentar encobrir o abuso policial e esconder a asfixia como real causa da morte de Sandro. Esta informação não foi divulgada na época, pois poderia colocar testemunhas em risco.

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