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Ir à praia também pode ser um ato político

Ivan Finotti abraça a polarização das praias cariocas

Sophia Lyrio


O cenário político brasileiro rachou em 2013. Desde então, foi instaurado um verdadeiro caos na esfera governamental, com direito à impeachment, sessões conturbadíssimas na câmara, ruptura de alianças partidárias e, enfim, a eleição de 2018. A polarização política nunca foi fator tão explícito e decisório: de um lado, petistas; e do outro, quem tiraria o PT a qualquer custo do poder. Entre os brasileiros, surgiu um abismo ideológico que assolou o cotidiano em diversos âmbitos: nas redes sociais, grupos de Whatsapp, reuniões de família, no trabalho e, pasmem, até na praia. Nesse sentido, a reportagem Polarização política do país chega às praias cariocas e reorganiza areia explora essa questão, ampliando o panorama sobre uma polarização específica e não muito comentada.

Praia de copacabana, Rio de Janeiro. (Imagem: Reprodução)


O jornalista e crítico Ivan Finotti, que trabalha na Folha de São Paulo desde 1994, traz esse tema de forma interessante e versátil. Antes de atuar no jornal como repórter especial seu atual posto Ivan foi, também, editor da Folhateen. Quase como uma herança gostosa dessa época, em sua reportagem a questão política é abordada de modo descontraído, ideal para o público mais jovem que não deixa de lado o compromisso com a informação, apesar de optar por uma leitura mais suave. Por outro lado, quem privilegia uma leitura crítica que pode, e deve, surgir também nesse tipo de abordagem talvez saia um pouco decepcionado.


As praias cariocas são marcadas por uma histórica segmentação, seja por fatores comportamentais ou culturais. Ipanema ilustra a afirmativa: surfistas ocupavam o Arpoador, os gays a praia na altura da Farme de Amoedo e os playboys o posto 9. Entretanto, uma nova divisão tomou conta dessa área nos últimos anos: a geopolítica. Assim, a reportagem destrincha o posicionamento político do público frequentador de algumas praias do Rio de Janeiro. A coletânea de depoimentos diversificados foi a estratégia utilizada pelo jornalista para tornar sua reportagem verossímil, sem negligenciar a tão prezada objetividade da profissão.


O Leme foi eleito como a “bolha da esquerda”, como apontou Pedro Benevides, ator do Porta dos Fundos. A roteirista e colunista da Folha, Antonia Pellegrino, também indicou que o local abriga maior diversidade e acolhe grupos de minorias. Apesar de ser pertinente e compreensível que esses grupos optem por se reunir, vale ressaltar que a praia, em geral, deveria ser um espaço democrático e seguro para todos. O jornalista deixa a desejar nesse sentido, pois ao invés de proporcionar ao leitor reflexões referentes às prejudicialidades dessa polarização, assume uma posição de neutralidade que inibe o potencial crítico que cairia tão bem em sua reportagem.


Foram entrevistados, também, os eleitores de Jair Bolsonaro. Na Barra da Tijuca, brincou o funcionário público Antonio Fernandes: “Já comemoramos muito essa vitória [presidencial], nas ruas e na praia. Aqui não tem Lula Livre”. Assim, travestido de brincadeira, se perpetua o abismo entre os dois lados possíveis: esquerda e direita. O debate morreu. Não há possibilidade de diálogos sem violência, e por isso os extremos se afastam. Por isso, também, só há extremos.


A constituição dessas bolhas é algo que corrobora a manutenção do cenário atual, segregado e extremamente nocivo à democracia. A rivalidade entre esses grupos, apesar de existir, não deveria ser incentivada. Nesse sentido, Ivan peca, finalizando o seu texto com a seguinte frase: “Caso seu sangue ferva com a burrice que assola o outro lado do espectro político, essas são as dicas para você se sentir mais à vontade na areia e correr menos risco de ficar amigo de um inimigo”.


De fato, a reportagem é construída de modo dinâmico e interessante. Os depoimentos dos entrevistados, cuja a análise é delegada exclusivamente ao leitor, delineiam a narrativa. Para os apreciadores de uma boa zona de conforto, tanto no sentido político quanto no sentido literário, o texto serve bem. Já para os leitores inquietos e questionadores, a reportagem é porta de entrada para incômodos e críticas. De qualquer forma, vale a pena ser lida para os que, como nós, não perdem a oportunidade de dar um pitaco.


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