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Holocausto Brasileiro: A história de um dos maiores genocídios do Brasil pelo olhar de sobreviventes

Atualizado: 11 de set. de 2021

Isabella Rodrigues


Existiu um holocausto no Brasil e seu rastro de mais de 60 mil mortes permaneceu oculto da história do país décadas após o seu fim. O livro-reportagem Holocausto Brasileiro, da jornalista mineira Daniela Arbex, resgata o passado desumano do Hospital Colônia de Barbacena, um centro psiquiátrico localizado em Minas Gerais, onde ocorreu um dos maiores genocídios do Brasil. Ganhador do 2º lugar no Prêmio Jabuti, em 2014, como livro-reportagem, a obra é retratada em sua maior parte pelo olhar de sobreviventes do Colônia que viveram a maior parte de suas vidas internados no local.


Daniela atuou como repórter no jornal Tribuna de Minas e além de Holocausto Brasileiro é autora dos livros Cova 312 e Todo Dia a Mesma Noite. Ganhadora de mais de 20 prêmios nacionais e internacionais foi considerada uma das jornalistas mais premiadas de sua geração. A investigação sobre o Hospital Colônia começou em 2009, quando Daniela teve acesso a fotos registradas dentro do lugar no ano de 1961 pelo fotógrafo Luiz Alfredo, da revista O Cruzeiro, e em 2011, quando as imagens completaram 50 anos, escreveu uma série de 7 reportagens para o Tribuna.


Depois das reportagens, a jornalista levou um ano para escrever o livro em busca das pessoas fotografadas por Luiz Alfredo, de outros personagens que fizeram parte da história do manicômio e de documentos oficiais. Cerca 20 sobreviventes presentes nas fotografias que ilustram o livro foram encontrados e entrevistados, além de outros pacientes, parentes, ex- funcionários do hospital e moradores da cidade de Barbacena. Foi a primeira vez que a vivência no Colônia foi relatada pela voz de quem esteve internado, porém a existência do lugar e as condições de vida no mesmo vieram a público quando as fotografias de Luiz Alfredo foram publicadas na revista O Cruzeiro, em 1961. Além disso, em 1979, o jornalista Hiram Firmino denunciou os abusos que se passavam com os pacientes na série de reportagens Nos porões da loucura e o cineasta Helvécio Ratton realizou o documentário Em Nome da Razão mostrando o cotidiano dos internos no Colônia em condições sub-humanas. A produção mais recente é de 2016, quando um documentário baseado no livro-reportagem de Arbex foi produzido para a HBO e exibido em mais de 40 países.


(Capa do livro / Imagem: Reprodução)


O Hospital Colônia de Barbacena teve início em 1903, inicialmente com capacidade para 200 leitos, porém, na década de 50 tinha em média cinco mil pacientes. Com a superlotação, as condições de vida no lugar se tornaram desumanas, uma verdadeira violação dos direitos humanos. O que deveria ser um centro de tratamento psiquiátrico logo se tornou um lugar abandonado pelo Estado para onde eram mandadas as pessoas indesejadas pela sociedade ou pelas classes dominantes da época.


“Holocausto” pode parecer um termo forte para denominar o que aconteceu em Barbacena, porém, as imagens do local retratam um cenário semelhante ao dos campos de concentração nazistas na Segunda Guerra Mundial. Os relatos daqueles que viveram e sobreviveram à Colônia são tristes e difíceis de ler. Não havia leitos, comida e nem roupas para todos e, consequentemente, muitos internados dormiam no chão, nus, ao ar livre, sujeitos à fome e ao frio. Quanto mais as histórias dos sobreviventes são aprofundadas, mais impressionante se torna a leitura por abordar uma realidade tão cruel que nem obras de ficção são capazes de narrar.



(Fotografia de Luiz Alfredo para a revista O Cruzeiro em 1961 / Imagem: Reprodução)


Como não havia sistema de água encanada ou alimentos suficientes para a quantidade excessiva de internados, estes bebiam de esgotos a céu aberto. Quando chegavam aos hospital, os pacientes perdiam o contato com o exterior e ainda eram torturados, sendo submetidos a tratamento de choque e trabalho escravo. Eram literalmente deixados para morrer e nas condições em que se encontravam as mortes ocorriam diariamente. Documentos mostram que era lucrativo para a administração do hospital que as mortes acontecessem, levando em conta que, entre 1969 e 1980, nada menos do que 1853 corpos de internos foram vendidos para 7 faculdades de medicina do Brasil. Estes e muitos outros dados alarmantes são encontrados por todo o livro em um profundo e delicado trabalho de investigação.


(Fotografia de Luiz Alfredo para a revista O Cruzeiro em 1961 / Imagem: Reprodução)


A Colônia foi um símbolo da cultura higienista presente na sociedade da época como parte das estratégias de limpeza social do poder público. De acordo com dados presentes no livro, cerca de 70% dos pacientes não tinham diagnóstico de doença mental ou qualquer tipo de transtorno psicológico. Eram internados militantes políticos, homossexuais, vítimas de estupro que engravidavam, mães solteiras, alcoólatras, mendigos, prostitutas, usuários de drogas e até pessoas sem documentos. Alguns foram internados por apresentarem sintomas como timidez ou tristeza. Chegavam pessoas de todo o Brasil em grandes vagões de carga, conhecidos como “trem de doido”, expressão retirada de um conto do médico e escritor Guimarães Rosa, que morou em Barbacena e era conhecedor da realidade do hospital.


Arbex faz um rico trabalho de jornalismo literário ao colocar diálogos e descrever com detalhes as situações a que os entrevistados estavam submetidos durante a internação no hospital, fazendo com que o leitor tenha a sensação de estar presente na cena descrita. Dentre as histórias relatadas no “Capítulo II: Na roda da loucura” conhecemos a ex-paciente Sônia Maria da Costa, que depois de passar tanto tempo da vida nua no Colônia, às vezes usa dois vestidos. Depois de ficar grávida enquanto estava internada, passava fezes no próprio corpo para se proteger de qualquer tipo de violência por parte dos funcionários.



(Sônia Maria da Costa à direita em fotografia de Luiz Alfredo para a revista O Cruzeiro em 1961 / Imagem: Reprodução)


A cidade de Barbacena ficou conhecida como a “Cidade dos Loucos” por ter abrigado sete instituições psiquiátricas, incluindo o Hospital Colônia, mas atualmente apenas três estão em funcionamento. O fechamento do centro psiquiátrico ocorreu durante a década de 80 e os sobreviventes passaram a receber acompanhamento no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena ou em residências terapêuticas, além de auxílios do governo para sustento próprio. Em 1996, o Colônia foi reaberto e transformado no atual “Museu da Loucura”, visitado por pessoas de todo o Brasil.


Holocasto Brasileiro é um verdadeiro exemplo da prática jornalística, do seu compromisso com a verdade e da sua função como meio de defesa dos direitos humanos. O livro-reportagem além de se tornar um marco do jornalismo investigativo foi essencial para resgatar a história da saúde mental no Brasil, debater essa questão sob um novo viés e outras questões relacionadas, como a superlotação carcerária. Daniela Arbex dá voz àqueles que nunca tiveram voz antes de forma sensível e detalhada. De fato é um livro difícil de ler, emocionante e triste, mas necessário, porque pessoas foram torturadas, mortas e esquecidas sob o silêncio de todo um corpo social que permitiu que isso acontecesse. O Hospital Colônia é além de um passado sombrio e revoltante, mas faz parte do Brasil como conhecemos hoje. É um reflexo da negligência do Estado para com as minorias e da submissão da sociedade às injustiças que moldaram a estrutura do país.


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