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Eliane Brum e o jornalismo brasileiro

Atualizado: 11 de set. de 2021

Gabriella Nascimento


A jornalista Eliane Brum narra em seu livro “O Olho da Rua”, os bastidores através de dez reportagens que escreveu durante a primeira década do século 21. Ressaltando a partir disso, os dilemas, as descobertas e também as dores que se lança a um repórter disposto a conhecer a verdadeira realidade do Brasil.

(Capa do Livro. Imagem: Reprodução)


‘’É um livro de referência, que entusiasma jornalistas de todas as idades. Durante minhas semanas de leitura, tive vontade de fazer cópias dos originais para distribuí-las, com urgência, aos meus colegas de equipe do programa Profissão: repórter”, escreve Caco Barcellos, para o prefácio da primeira edição do livro.


Logo no início do livro, Eliane se apresenta e deixa um breve ensinamento sobre a vida de um repórter: “Exerço jornalismo sentindo em cada vértebra o peso da responsabilidade de registrar a história do presente, a história em movimento. Por isso, exerço com rigor, em busca da precisão e com respeito à palavra exata”. Tendo 30 anos de profissão, Eliane Brum é referência no mundo jornalístico. E além de trabalhar nessa área é escritora e documentarista. Já ganhou mais de 40 prêmios por seu trabalho jornalístico e seu documentário Uma História Severina chegou a receber mais de 17 prêmios, nacionais e internacionais.


Eliane sempre deixou bem claro seu amor pelo norte do Brasil e é por isso que pelo menos quatro das suas dez reportagens escolhidas se passam lá. O primeiro texto fala sobre a “floresta das parteiras”, que aborda a história de mulheres que vivem na floresta e realizam procedimentos de partos. Eliane também conta sobre o contexto, crenças e mistérios passados de gerações, enquanto essas parteiras ajudam outras mulheres a darem a luz. O segundo texto se passa em Roraima, onde indígenas e brancos disputam por um território chamado Raposa/ Serra do Sol. Brum relata também as histórias de imigrantes que pegaram às terras indígenas para si. Por mais que as histórias tenham sentidos totalmente diferentes, Eliane ressalta no final das duas reportagens a importância de saber ouvir todos os lados da história, esperar o tempo de quem está falando, procurando sempre respeitar e apresentar as razões/pensamentos diferentes na reportagem.


Os textos seguintes se passam no sudeste do Brasil e Eliane comenta como uma reportagem pode mudar a vida do entrevistado. “Pankinha e Estela continuaram me ligando para contar o dia seguinte – e na narrativa do seu cotidiano, mesmo sem publicação, encontravam sentido”, diz Brum na quarta reportagem do seu livro. Mas ela também não deixou de avisar sobre o cuidado que o repórter deve ter para não violar algumas intimidades das pessoas, que podem se sentir expostas.


Em “Expectativa de vida: 20 anos”, a sexta e uma das reportagens mais interessantes, Brum contou três histórias diferentes. Primeiro ela fala sobre um rapaz que foi sobrevivente de uma chacina, a outra história é sobre um grupo de comunidade que criou um documentário sobre o tráfico, a última fala sobre o sofrimento das mães que veem seus filhos no mundo do tráfico e morrendo antes da hora. Eliane durante toda a reportagem usa dados da UNESCO para falar sobre a violência no país e termina dizendo que gostaria de aproximar essas mães do leitor para que elas não fossem mais ignoradas. “Acredito que, num país tão desigual, é missão da imprensa aproximar mundos. Só o encontro honesto, verdadeiro, permite reconhecimento e transformação. Sou repórter quando me torno ponte entre Brasis”, diz a jornalista.


No décimo e último texto, Eliane fala como se apegar e/ou criar uma relação íntima com o entrevistado pode mudar completamente a vida do repórter, principalmente quando se sabe que o entrevistado não vai ler a reportagem sobre si. Nessa reportagem ela vai até o Hospital do Servidor Público em São Paulo para acompanhar a experiência de pessoas que estão entre a vida e a morte. Durante a reportagem, Brum menciona vários livros sobre esse tema, mas dá mais importância a história de uma paciente que ela acompanhou durante 115 dias.


Após todas essas incríveis reportagens, Eliane ainda cita alguns momentos traumáticos que ela mesma passou em sua carreira. "Perdi sete quilos em duas semanas. E seguia congelada na mesma cena. Para mim, escrever havia sido sempre o que me impediu de matar e morrer. Desde criança era o que me fazia acordar pela manhã e ancorar até o fim do dia diz no posfácio do seu livro, relembrando sua viagem para Bolívia e dos camponeses bolivianos que enfrentavam a resistência dos Barbeiros (insetos da doença de Chagas).


A cada reportagem, entre erros e acertos, nos é mostrada uma visão humana ao falar das pessoas. A riqueza dos conteúdos, a forma que escreve, os detalhes, a forma que ela insere o leitor a cada reportagem. Em O Olho da Rua, Eliane Brum traz uma realidade brasileira que faz qualquer pessoa ficar totalmente entretida em 373 páginas de puro jornalismo.

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