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Ela Disse: o trabalho investigativo que impactou o mundo

Giovanna Peres


Escrito por Jodi Kantor e Megan Twohey, jornalistas investigativas do New York Times, o livro Ela Disse: Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo reúne informações valiosas sobre um dos maiores furos jornalísticos da última década. A obra aborda com profundidade todos os processos que levaram as duas jornalistas a expor os diversos casos de assédio de Harvey Weinstein, ex-produtor de filmes norte-americano.


Capa do livro (Imagem: Companhia das Letras)


O livro começa tratando da dificuldade das jornalistas em conseguirem conversar com a primeira fonte que tiveram conhecimento. A atriz Rose McGowan fez uma acusação em sua conta no Twitter, alegando que um produtor de filmes a violentou. Ao que tudo indicava, McGowan estava se referindo a Harvey Weinstein, então Jodi tentou entrar em contato com a atriz para reunir informações sobre o ocorrido. Porém, devido a problemas que Rose tinha com o New York Times, sua primeira posição foi negar a conversa. A partir disso, Jodi Kantor precisou pensar em caminhos para chegar até McGowan de forma a convencê-la a falar. A jornalista enviou um e-mail à atriz, listando empresas que mudaram suas políticas após denúncias envolvendo questões sobre gênero. Jodi evidenciou a necessidade de escrever sobre esses problemas para que mudanças ocorram.


McGowan aceitou conversar com Jodi e contar o que havia acontecido. Após a conversa, a jornalista se deparou com um outro problema: como provar que aquilo realmente ocorreu? Não significa que a jornalista não acreditava no relato da atriz, mas para escrever sobre o ocorrido, ela precisava de documentos do acordo que Weinstein teria feito com Rose em troca de silêncio e de outros relatos de pessoas que tenham passado por situações semelhantes à de McGowan.


No decorrer da obra, é exposto o trabalho que Jodi e Megan realizaram para chegar a outras vítimas de Weinstein, que envolveu pesquisas intensas sobre a Miramax, produtora de filmes cujos donos eram Harvey e o irmão dele. Muitas das mulheres aceitavam conversar com as jornalistas, mas não queriam ter suas identidades expostas na matéria. Isso acontecia pois haviam feito acordos judiciais e recebido dinheiro para ficarem em silêncio sobre as agressões sofridas. Então, a tarefa das jornalistas passou a ser outra: reunir o máximo de acusações possíveis para escrever sobre os acordos que Harvey Weinstein e seus advogados faziam para silenciar as mulheres violentadas.


As jornalistas, junto com Rebecca Corbett, especialista em investigações complexas, começaram a se articular para escrever a matéria e dar o furo jornalístico. Elas passaram a reunir material e fizeram uma lista de todas as acusações de assédio e agressão. Ao todo, eram 11 mulheres, dentre as quais estavam atrizes e funcionárias das empresas de Harvey:

  • Assistente na Miramax

  • Laura Madden

  • Gwyneth Paltrow

  • Ashley Judd

  • Rose McGowan

  • Zelda Perkins

  • Rowena Chiu

  • Emily Nestor

  • Ambra Battilana Gutierrez

  • Lauren O’Connor

  • Assistente em Nova York que saiu da emprego por razões morais

As jornalistas fizeram um primeiro rascunho da matéria. Elas checaram cada uma das fontes e entraram em contato com as vítimas para perguntar se poderiam citar seus nomes na reportagem. Porém, a maioria das mulheres estavam com medo da exposição, e muitas delas negaram. Megan, Jodi e a equipe que estava trabalhando na matéria realizaram uma ligação com Harvey Weinstein para coletar sua resposta sobre as acusações de assédio. De acordo com o relato das jornalistas, Weinstein agiu na defensiva, interrompendo diversas vezes a fala delas e repetindo as mesmas perguntas em um tom de voz alterado.


Algum tempo depois, Jodi recebeu uma ligação da atriz Ashley Judd, uma das vítimas. Ela estava disposta e pronta a ir a público falar sobre a investigação. A jornalista reagiu à notícia de forma emocionada, afinal aquele era um dos trabalhos mais importantes de sua vida. Ela respondeu: “Isso significa tudo para mim como jornalista”. A matéria foi revisada e o relato de Judd foi incluído. “Faz tempo que nós mulheres falamos sobre Harvey entre nós mesmas, e já é mais do que hora de ter essa conversa publicamente.” A citação da atriz, que está presente na introdução da matéria, mostrava a importância de informar as pessoas sobre esse caso.


Após receberem a resposta de Weinstein e sua equipe sobre as acusações e após a novidade animadora de Judd, Jodi soube de outra notícia impactante: um e-mail de Laura Madden, ex-funcionária da Miramax que havia sido violentada por Harvey, aceitando ser citada na matéria. Ela disse: “Considero que estou falando em nome de mulheres que não podem falar, porque isso poderia afetar seu sustento ou seu casamento.” Isso foi animador para as jornalistas, que haviam sido citadas em artigos da Variety e do Hollywood Reporter por causa da matéria que estava trabalhando. Elas passaram muito tempo tentando reunir fontes e se esforçando para convencer as mulheres a aceitarem ir a público e, após lerem os artigos, essas vítimas iam até as jornalistas denunciar o que as havia ocorrido.


Numa quarta-feira, dia 4 de outubro de 2017, às 14h05, a matéria, cujo título é Harvey Weinstein comprou durante décadas o silêncio das denunciantes de assédio sexual, foi publicada.


Imagem: Reportagem do New York Times


A partir disso, surgiram diversos desdobramentos. A Weinstein Company entrou em crise e as jornalistas receberam diversos outros relatos de mulheres que foram vítimas do ex-produtor. Sete meses após a matéria, Weinstein passou a ser julgado pelas denúncias que foram feitas contra ele, e, finalmente, começou a lidar com as consequências dos crimes que cometeu.


Além de expor ao público os delitos de Harvey Weinstein, Jodi e Megan ainda conseguiram alcançar outro feito muito importante. Ao apresentar os relatos de vítimas que foram assediadas, o trabalho das jornalistas influenciou no início de uma série de depoimentos de mulheres, que começaram a falar sobre as situações de assédio sofridas em diferentes ambientes. A campanha #MeToo atingiu escala global e representou um grande avanço na forma como o mundo lida com esse assunto.


Jodi Kantor, Megan Twohey e a equipe envolvida nesse trabalho exerceram com êxito a função social do jornalismo. Deram voz a mulheres que tinham passado por uma situação extremamente difícil de forma responsável e impactaram o mundo. O livro apresenta lições valiosas sobre jornalismo investigativo e mostra com perfeição a importância dessa profissão para a sociedade.


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