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Do interior à cidade grande: a história por trás do Fofão da Augusta

Fernanda Mendes


Ricardo Corrêa Da Silva. Esse é o verdadeiro nome de umas das figuras mais intrigantes que já tive o prazer de ler sobre. Talvez poucas pessoas o conheçam, mas Ricardo é uma espécie de lenda urbana da cidade de São Paulo. Ele é conhecido por transitar pela rua Augusta – famosa pela agitação das baladas, bares e restaurantes ao longo do seu trecho – e por sua fisionomia. ‘‘Há alguma substância sob a pele do seu rosto que faz sua cabeça parecer duas vezes maior; suas bochechas pendem, quase soltas, como as do personagem que apresentava um programa infantil na TV aberta nas décadas de 1980 e 1990’’, descreve Chico Felitti, autor da matéria sobre o Fofão da Augusta – apelido dado por causa de sua aparência, mas que Ricardo sempre detestou.


Chico Felitti é repórter freelancer e escritor, mas já atuou como colunista e editor, além de ter sido colaborador de revistas como a Piauí. Para criar esse perfil (publicado pelo BuzzFeed), ele acompanhou – com sua mãe, Isabel Dias, também escritora – Ricardo por quatro meses durante o ano de 2017. Sendo assim, a matéria nos guia a trajetória de Chico e Isabel para descobrir sobre a vida desse personagem um tanto singular. Acompanhamos a busca pelos segredos escondidos de Ricardo, visto por grande parte das pessoas que o encontravam julgavam ser um morador de rua de aspecto assustador à primeira vista. “São Paulo inteira conhece – mas que ninguém sabe quem é”, escreve Chico para a reportagem.


Admito que a matéria tem um certo toque pessoal para mim. Sem nenhuma pretensão eu a li e, de alguma maneira, me chamou atenção. Em um momento de indecisão durante o final do ensino médio, foi ela que abriu as portas para que eu pudesse ver o jornalismo como uma opção de futuro. Ricardo foi diagnosticado com esquizofrenia aguda e, além disso, sofreu diversas violências físicas e verbais ao longo de sua vida. E, ao me deparar com uma narrativa tão respeitosa e sincera sobre essa figura que é muito além de uma mera caricatura da cidade de São Paulo, eu percebi que queria, um dia, também fazer parte desse universo que conta histórias.


(Ricardo Côrrea, conhecido como Fofão da Augusta/ Imagem: Reprodução)


Por muito tempo, Chico, caminhando pela Augusta, cruzou com Ricardo. Aos poucos, o estranhamento que esses encontros causavam foi tornando-se curiosidade, e logo Chico passou a acenar para o ‘‘desconhecido’’, que sempre o cumprimentava de volta. Por meio de pequenos comprimentos, o repórter tomou coragem de perguntar se podia conversar, mas Ricardo dizia que não gostava de exposição.


Ricardo Corrêa era uma figura muito conhecida na internet, inclusive, chegou a ter uma comunidade no Orkut chamada ‘‘Fofão sincero’’ com cerca de 20 mil membros. Então, já sabendo de sua fama nas redes sociais, Chico relata a história dele no Facebook e uma amiga virtual – com quem ele nunca tinha conversado – manda uma mensagem dizendo que ‘‘o Fofão está no Hospital das Clínicas. Amputaram o dedo dele, que estava gangrenado. Ele tem surtos, quer bater em todo mundo e tem que ser amarrado porque arranca todos os acessos’’. Chico e sua mãe vão ao hospital, onde descobrem que o ‘‘paciente não identificado’’ já estava internado há um mês, e conseguem trocar algumas palavras com Ricardo. Finalmente Chico consegue a conversa pela qual tanto esperava.


Nascido em Araraquara, interior do estado de São Paulo, Ricardo é o filho mais velho de quatro irmãos. Seu pai, falecido em 2005, foi um homem conhecido na região, mas tinha problemas com álcool, que quase levou a família à falência. Já a mãe sofria de Alzheimer, que vinha piorando desde a morte do marido. Marcelo Côrrea, um dos irmãos, conta que Ricardo escolheu sair de casa cedo após completar o ensino médio, indo tentar a vida como cabeleireiro em SP. ‘‘Escolha’’ essa impulsionada por problemas de aceitação por conta da sua sexualidade.


Ricardo teve relativo sucesso pelos salões da cidade grande, período esse em que trabalhou com pessoas famosas (como a atriz Gloria Menezes, diz ele). No entanto, não se sabe ao certo porque foi parar nas ruas, mas Chico escreve que possivelmente teria sido por um calote da dona de um salão de beleza que Ricardo era sócio. E, após esse período nebuloso durante os anos 90, ele começa a pedir dinheiro nas ruas junto a um grupo de teatro, sempre maquiado.


Deixando claro: minha intenção aqui não é contar detalhe por detalhe da matéria, até porque acredito que ela mereça o tempo de todos para ser lida e apreciada. Chico conta a história por meio de uma narrativa delicada e sensível – amparadas por fotos e áudios de Ricardo, que o próprio repórter coletava –, nos envolvendo do início ao final do texto. Dessa forma, desvenda a triste trajetória de uma figura que por tanto tempo fora ridicularizada por quem cruzasse seu caminho. Era poliglota, foi artista de rua, drag queen, cabeleireiro, maquiador. Mesmo assim, a história de Ricardo nos mostra as consequências de uma vida marginalizada.



Um fato curioso: Ricardo era herdeiro de uma considerável quantia dinheiro, cerca de R$ 35 mil – suficiente para tirá-lo das ruas. No entanto, um amigo próximo, que sempre esteve disposto a ajudá-lo com a burocracia, diz que Ricardo se recusava a sacar o dinheiro. E quando era perguntado sobre isso, ele afirmava ter medo da polícia. Por tantas vezes foi preso e violentado que desenvolveu uma fobia que o impedia, inclusive, de melhorar sua própria vida.


Claro, sua aparência causava um certo estranhamento. Desde novo, Ricardo já aplicava silicone no rosto – assim como seu irmão Marcelo. Em entrevista com Marly, uma ex-colega de trabalho, ela diz que, nos anos 80, Ricardo já era um homem muito bonito, mas ‘‘que queria ficar muito mais bonito’’. Logo, fica claro sua busca constante por um padrão de beleza nada saudável. Mesmo depois de começar a pedir dinheiro nas ruas, às vezes chegando a viver em quartos de hotel barato na Cracolândia, ele ainda nutria essa vaidade – que, apesar de sua esquizofrenia, nunca esqueceu.


Durante a reportagem, nos deparamos com diversos personagens tão interessantes quanto Ricardo, um deles é quem entendemos como suposto amor de sua vida: Vagner. Amigos próximos diziam que eles eram a cópia um do outro, pois ambos injetavam silicone no rosto para parecerem bonecas chinesas de porcelana. Mas Vagner estava morando em Paris na época, e Chico não conseguiu entrar em contato a tempo para a matéria. Apesar disso, esse trecho da vida amorosa de Ricardo, mais tarde, foi explorado pelo repórter, dando origem ao livro de sua autoria: Ricardo e Vânia.


Ricardo Corrêa Da Silva morreu no mesmo ano em que Chico decidiu acompanhar de perto sua vida. No dia 15 de dezembro ele sofreu uma parada cardíaca, aos 60 anos. Mas, apesar dessa situação trágica, hoje podemos ler sobre o legado por trás do Fofão da Augusta e se emocionar com sua história. Essa reportagem que me fez optar por cursar jornalismo, pode ter o mesmo efeito em outra pessoa – ou só garantir uma ótima leitura, o que também já vale muito a pena.


Quando Chico perguntou a ele se podia fazer uma reportagem sobre sua vida, Ricardo respondeu: “É claro! Desde que não exagerem a minha importância no mundo’’.




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