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Desquitadas: saiba mais sobre as mulheres que ousaram romper o casamento nos anos 60

Com sensibilidade e toque de literacidade, o repórter José Carlos Marão conta os anseios e dores de três mulheres desquitadas

Juliana Sorrenti


Primeira página da reportagem na décima edição de 1967 na revista realidade


Enquanto muitas mulheres questionam hoje o papel central do homem na felicidade feminina, no fim dos anos 60, a luta era outra. Na época, as pautas do movimento feminista incluíam, a legalização do casamento após a separação. Sem o divórcio, instituído somente em 1977, a única saída possível para uma união infeliz – e muitas vezes, violenta e abusiva – era o desquite, que não permitia que homens e mulheres se casassem novamente.


Chamadas de prostitutas em plena luz do dia e convidadas para pedidos indecentes por colegas de trabalho, as desquitadas enfrentavam uma situação trágica: abandonadas à própria sorte, precisavam lidar dia após dia com os preconceitos de uma sociedade que não estava preparada para a dissolução do casamento. E, apesar disso, tudo que mais queriam era casar mais uma vez.


Longe dos holofotes da mídia conservadora, as vidas dessas mulheres poderiam ter permanecido esquecidas pelo jornalismo. Inovadora, a revista Realidade quebrou tabus ao publicar Três histórias de desquite na décima edição do ano de 1967. Pelas mãos talentosas de José Carlos Marão, Elisa, Dagmar e Emília – pseudônimos escolhidos para preservar as suas verdadeiras identidades – ganharam voz. Alheio à moral e aos bons costumes da época, o repórter conta as tristezas, dores e anseios de quem não alcançou o tão esperado happy ending com o matrimônio.


Dividida em três partes, quem inicia a reportagem é Elisa Monteiro. Aos 34 anos, a mais jovem do trio vive com os pais desde que foi abandonada pelo marido. Sob as mãos de ferro da família e com o baixo salário como funcionária pública, ela não tem mais perspectiva de felicidade seis anos após o desquite. Extremamente crua, o que domina nas duas primeiras páginas da matéria são os trechos do diário secreto da jovem. Com exceção de uma breve apresentação feita pelo jornalista, é ela mesma que conta sua própria história. Organizado de forma temporal, o leitor acessa as particularidades, confissões e os segredos mais profundos de Elisa, desconhecidos até mesmo para os poucos amigos.


De questões familiares a várias decepções amorosas, conhecemos um pouco mais sobre as tristezas da vida da desquitada ao longo de aproximadamente um ano. Menosprezada pelos homens – enquanto os solteiros querem apenas diversão, os casados insistem em procurá-la para um caso extraconjugal – e de má fama entre outras mulheres, ela é só. Frustração após frustração, vemos suas esperanças ruírem a cada dia até desaparecerem por completo. A escolha criativa pela primeira pessoa torna a história ainda mais sensível e o sentimento de empatia permeia todo o texto.


Se a primeira personagem não enxerga mais motivos para continuar, a segunda tem razões para dar e vender. Aos 42 anos, secretária e com a função de cuidar da filha e da mãe idosa, Dagmar Martins enfrenta as batalhas diárias pensando no futuro da adolescente. Desquitada há seis anos, a decisão partiu dela própria: o marido não dormia em casa e usava o dinheiro dela para jogar. O novo estado civil trouxe mais mudanças do que o esperado: antes incentivada pelas amigas a legalizar a separação, o apoio das mulheres tornou-se logo inexistente.


Diferente da história de Elisa, narrada a partir de suas próprias confissões, desta vez o repórter faz-se mais presente. Numa excelente escolha, o primeiro mergulho na vida da secretária é de tirar o fôlego. Trazendo um momento extremamente pessoal e divisor de águas na vida de Dagmar, é possível entender logo nos primeiros parágrafos o que a motiva.

“Dagmarzinha tinha 17 anos no dia em que entrou em casa, correndo e chorando, sem querer dizer a ninguém o que tinha acontecido. Dona Dagmar, desquitada havia algum tempo já, muito carinhosa com a filha, foi saber o que acontecera. A menina respondeu que tinha brigado com o namorado. Para dona Dagmar foi um alívio. Se era só isso, podia chorar.

Mas a menina continuou chorando. E por fim, acabou contando à mãe a causa da briga e do choro. O rapaz, numa discussãozinha, dissera:

– Ah, sua mãe é desquitada, e filha de peixe, peixinho é.

Assim como um bom escritor sabe como fazer o leitor entrar no mundo de fantasia criado por ele, Marão sabe exatamente como fazer essa imersão nos dilemas da vida da personagem. Aliás, essa aproximação com a literatura não é ao acaso. Entre linhas de depoimento, o jornalista consegue abordar o factual sem perder o brilho da emoção. Levando uma vida simples e altruísta, Dagmar reserva a felicidade para a próxima geração, esquecendo de si mesma.

Como um sopro de esperança, surge, por fim, Emília Lopes Rodrigues. Com dois filhos e desquitada há cinco anos, ela se casou no exterior em 1963 com um antigo conhecido. Vivendo o que podemos considerar o melhor final possível, nem tudo são flores. Os anos como desquitada foram duros: familiares se afastaram e enfrentou dificuldades para conseguir um emprego. As marcas do desquite são sentidas até mesmo no segundo casamento. Como seu novo casamento não tem valor legal no Brasil, a sua presença em certos lugares é negada.


O poder de transformar entrevistas simples em grandes descobertas é mais uma vez explorado pelo repórter. Com insights geniais e descrições de ambiente comumente evitadas pelo jornalismo convencional, a terceira e última história ganha contornos literários. O desfecho pouco tradicional também é interessante. Sem, de fato, concluir a história com um final fechado, ele traz a ideia de felicidade do casal com um único travessão. “– Mamãe, nós podemos chamar o tio de pai?”, perguntaram os dois meninos à mãe.


Se os estudantes de jornalismo estão cansados de ouvir recomendações sobre o new journalism estadunidense e nomes como Tom Wolfe e Truman Capote, voltar a leitura para as reportagens de José Carlos Marão é descobrir um ponto fora da curva, trazendo um pouco de brasilidade para um assunto tão gringo. Nacional, a leitura de Três histórias de um desquite é uma oportunidade de conhecer a realidade das desquitadas a partir de uma perspectiva mais progressista. Mais do que talento, não há nada melhor do que ver um jornalista conectado à própria reportagem, sem perder-se na falácia da imparcialidade. Para além da profissão, o repórter é, na essência, humano.


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